Brexit leva desafios para ilha considerada "esquisitice geopolítica"

Stephen Castle

Em Douglas (Ilha de Man)

  • Andrew Testa/The New York Times

    Vista aérea de Douglas, capital da Ilha de Man

    Vista aérea de Douglas, capital da Ilha de Man

O parlamento da Ilha de Man, o Tynwald, foi fundado por colonizadores vikings e ganhou notoriedade pela primeira vez em 1237, quando uma assembleia descambou para uma batalha campal entre duas facções que deixou três homens mortos.

Hoje em dia as disputas têm sido resolvidas pacificamente através das urnas, e não há um verdadeiro sistema partidário no Tynwald, que alguns cidadãos veem como uma forma moderna de democracia ateniense. Mas há muito em jogo nas eleições desta semana.

Localizada no Mar da Irlanda, a Ilha de Man é uma esquisitice geopolítica. Tecnicamente ela não faz parte do Reino Unido, mas é uma dependência da Coroa. A rainha Elizabeth 2ª é chefe do Estado, mas a ilha é autogovernada e depende do Reino Unido para sua defesa. Ela não é um membro da União Europeia, mas seus laços próximos com o Reino Unido significam que ela na prática comercializa dentro do sistema de tarifas e impostos alfandegários da Europa.

Nas últimas décadas, esse sistema serviu muito bem à Ilha de Man. Ele conquistou mais de três décadas consecutivas de um crescimento econômico anual. Ele manteve taxas empresariais baixas ou a zero, enquanto trazia mais transparência a seu sistema bancário em um esforço de se livrar de sua reputação de paraíso fiscal. Ele promoveu os jogos de azar online e outros setores de nicho.

Mas com a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia, a Ilha de Man passou a enfrentar novas questões sobre a independência. E depois de se livrar de alguns dos vestígios do conservadorismo social pelo qual ficou conhecida, ela tem enfrentado demandas crescentes por mudanças a leis restritivas sobre o aborto.

As respostas da ilha a essas questões serão moldadas em parte pela seleção de um novo ministro-chefe, que será escolhido após as eleições pelos membros do novo Parlamento.

"É um divisor de águas para a Ilha de Man", disse Micky Swindale, presidente da câmara de comércio, que se preocupa que a ilha possa começar a se isolar.

"Precisamos ter alguém que seja focado no exterior", ela disse.

Esse é só o mais recente dos desafios para a antiga Assembleia que governa a ilha.

Andrew Testa/The New York Times
Jovens acompanham corrida de motos nas ruas de Dougla

Assim como outros especialistas, Andrew Foxon, ex-chefe de serviços terceirizados para a Manx National Heritage, a agência que supervisiona o patrimônio histórico e cultural da ilha, tem certeza de que o Tynwald existiu no século 10. Mas ele disse que quando um aniversário de milênio foi celebrado em 1979, ele se baseou mais em uma data hipotética do que em provas sólidas.

"Dizem que algumas pessoas queriam que fosse 978, mas não tiveram tempo o suficiente para organizar, então escolheram 979", ele disse.

Embora se acredite que o parlamento da Islândia seja mais antigo, há registros de que ele tenha sido suspenso, o que permite que o Tynwald alegue ser a mais antiga assembleia continuamente ativa.

A Ilha de Man pode parecer como uma porção costeira do Reino Unido, mas ela mantém sua independência e valoriza símbolos que afirmam sua nacionalidade. Ela emite suas próprias cédulas bancárias, exibe uma bandeira com um característico símbolo de três pernas, e se orgulha de suas corridas de moto mundialmente famosas (Isle of Man TT). A ilha passou por um revival do manx, sua língua indígena de origem celta, e as pessoas aqui se enfurecem quando alguém menciona o Reino Unido como continente, e se referem às visitas para lá como "travessia".

Com sua população de 85 mil habitantes e a falta de verdadeiros partidos políticos, os residentes gostam de pensar que a Ilha de Man é um modelo de democracia.

"Ela chega a ser quase como uma cidade-Estado grega", disse Derek Winterbottom, historiador e autor de vários livros sobre a Ilha de Man, dizendo ainda que é perfeitamente possível que todos os residentes conheçam seus representantes e ministros.

O atual ministro-chefe, Allan Bell, argumenta que "teoricamente, um governo de indivíduos diferentes e independentes não deveria funcionar." Mas ele prosperou, ele disse, ao promover o consenso e ao evitar grandes oscilações ideológicas, uma abordagem que indica que a mudança vem aos poucos.

Bell, que decidiu se aposentar após 32 anos como legislador e serviu como ministro-chefe desde 2011, é gay, e sua carreira política reflete a jornada da Ilha de Man desde seu passado conservador e um tanto puritano.

Andrew Testa/The New York Times
Restaurante vende "fish and chips" e pratos chineses, em Douglas

A ilha legalizou a homossexualidade em 1992, e Bell, 69, cresceu em uma época na qual o sexo gay em teoria era passível de prisão. Enquanto isso, a pena de morte permaneceu na legislação até 1993, ano em que a Ilha de Man aboliu formalmente o castigo físico no qual rapazes às vezes apanhavam nas nádegas.

O casamento entre pessoas de mesmo sexo é legal agora. Mas quando Bell era jovem, a vida para os gays era difícil, e ele se lembra da vez em que aconselhou dois homens que consideraram o suicídio depois que sua orientação sexual foi exposta após incursões policiais.

"Não existia uma vida abertamente gay na Ilha de Man", ele disse. "As pessoas só ficavam quietas e viviam suas vidas da melhor forma que conseguiam."

Bell ainda sofre com a homofobia, e ele encaminhou um caso para a polícia. No entanto, ele diz que a "Ilha de Man é um país muito diferente do que foi 30 anos atrás em termos de atitude social, inclusão e tolerância."

Ele disse que lamenta não ter conseguido legalizar a maconha e que considerou um erro não ter revisado as leis sobre o aborto, admitindo que uma campanha por mudanças o pegou de surpresa.

"Até poucos meses atrás, essa não era uma questão premente", ele disse.

Embora seja legal em determinadas circunstâncias, o processo para a realização de um aborto é difícil, e no ano passado 105 mulheres viajaram para a Inglaterra ou para o País de Gales para interromper uma gestação, de acordo com números oficiais. Em uma reunião aberta à comunidade em Port St. Mary, Juan Watterson, o ministro do Interior, quando lhe perguntaram sua opinião a respeito de uma mudança nas leis sobre o aborto, respondeu que ele "não sabia o suficiente a respeito" e que não queria tomar uma "decisão precipitada".

A falta de consciência pode refletir em parte a escassez de mulheres na política daqui. Embora o Tynwald tenha eleito sua primeira mulher presidente em 2011, seu mandato terminou este ano. No final do último mandato parlamentar este ano, havia somente uma mulher, servindo na câmara baixa do Tynwald, a Câmara das Chaves. (A câmara alta é conhecida como Conselho Legislativo).

O interesse nas eleições tem sido grande, a julgar pelo número de pessoas na reunião, que durou mais de duas horas. Mas exceto por um defensor da democracia direta, James Hampton, que se descreve como o "candidato alternativo", havia poucas divisões ideológicas entre os cinco candidatos ali, que estão concorrendo a duas cadeiras. Fora o aborto, os temas eleitorais incluíam tópicos como planos para o principal terminal rodoviário e as finanças da indústria de carne e da companhia de balsa local.

Bell disse que o principal desafio que seu sucessor enfrentará a saída do Reino Unido da União Europeia, uma decisão que Bell descreve como "loucura total", e que põe em risco a adesão da Ilha de Man à união alfandegária da Europa, que permite que o setor manufatureiro exporte para todo o bloco isento de tarifas.

No entanto, ele também acredita que seria errado falar sobre independência para a Ilha de Man antes que um acordo de saída tenha sido negociado.

"Se o novo acordo não for ajudar o bem-estar da Ilha de Man a longo prazo, então talvez precisemos começar uma briga", ele disse. "Agora é a hora mais errada possível para fazer isso."

Tradutor: UOL

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