Análise: Um Donald Trump sarcástico contrariou as expectativas no debate

Ashley Parker

  • David Goldman/ AP

    Candidato republicano Donald Trump responde a pergunta durante debate em Hempstead, Nova York

    Candidato republicano Donald Trump responde a pergunta durante debate em Hempstead, Nova York

Assim que comecei a acompanhar Donald Trump, em fevereiro, logo depois que Jeb Bush abandonou a corrida para presidente, Trump deu uma entrevista coletiva em seu clube privado Mar-a-Lago em Palm Beach, na Flórida, em que falou sobre "os dois Donald Trumps".

Mas nós que o acompanhamos de perto --do candidato azarão quixotesco ao nomeado republicano-- sabemos que Trump oferece um amplo esquema de personalidades.

Ele pode ser irritadiço e supersensível, às vezes cruel e indiferente. Pode ser turbulento e exagerado, engraçado e enérgico. Ele levou ao frenesi milhares de pessoas em ginásios com suas palavras, e dias depois fez um discurso inteiro lido em teleprompter. Ele pode ser compassivo e gentil em um momento, e em seguida insultar os hispânicos e as mulheres.

O Donald J. Trump exibido no debate de segunda-feira (26) foi um que raramente notamos.

Se "Trump o Candidato" é muitas vezes uma caricatura exagerada de Donald J. Trump, o empresário de Nova York, então "Trump o Debatedor" foi o oposto de exagerado: um titã discreto, sarcástico, metido num terno preto com as costuras estourando, no debate na Universidade Hofstra.

"Ele será realmente bom ou realmente terrível", disse-me um confidente de Trump horas antes do debate. Como outros na órbita de Trump, esse assessor não podia prever o que sairia da preparação desanimada do candidato para o que poderão ser os 90 minutos mais importantes de sua vida pública.

Afinal, ele não foi nenhum dos dois.

A resposta para questões chaves --Trump poderia se comportar como o disciplinado "Trump do teleprompter" sem a ajuda do equipamento real, e poderia parecer plausivelmente presidencial diante de Hillary Clinton?-- vieram no início do debate. E a resposta pelo menos para a primeira parte do debate foi sim.

Trump afirma que vai divulgar seu imposto quando Hillary divulgar e-mails

Pelos padrões em que Trump, sua equipe e nós da mídia parecíamos ter definido para o candidato republicano, Trump passou no teste. Ficou mais ou menos controlado, não insultou diretamente Hillary e não criou novas polêmicas sobre políticas.

Mas para nós que passamos horas acompanhando Trump de Estado em Estado e comício a comício, ele pareceu uma sombra de seu ser na trilha de campanha.

Mencionou a fuga de empregos para o México em sua terceira frase (incluindo uma em que ele agradeceu ao moderador do debate), mas foi de modo geral contido e até brando durante os primeiros 20 minutos de seu confronto com Hillary Clinton. Apertou os olhos e pareceu fuzilar sua rival, mas fez questão de chamá-la de "secretária Clinton" (e não por seu apelido preferido, "Hillary bandida").

Desapareceram os gestos exagerados que nós, observadores de Trump, vimos na campanha e nos primeiros debates, nas primárias. Lá, Trump levanta um indicador solitário; junta o indicador e o polegar; e desfere um rápido golpe de caratê, como o regente de uma orquestra raivosa ou um homem que tenta afastar uma vespa.

Mas no debate ele se apoiou pesadamente no leitoril, segurando as laterais com as duas mãos, como se seu corpanzil pudesse ajudar a preparar-se contra um moderador que delicadamente o orientava a voltar para as perguntas do momento e uma adversária ágil, embora tranquila. Foi um sinal revelador de esforço, de um homem que transpirava energia, em vez de captá-la do rumor de seu público entusiástico.

Afinal, Trump é o vendedor consumado, sempre comercializando, cortejando e bajulando em uma tentativa de conquistar seu público imediato. Nos comícios, mesmo quando lê as falas, ele costuma voltar numa frase ou repeti-la para dar ênfase, só para envolver a plateia e fazer as pessoas gritarem.

Seus apoiadores vêm preparados para responder aos apelos, sabendo quando devem gritar "Trump! Trump! Trump!" (para sufocar uma manifestação contrária) e qual é a resposta adequada para sua inevitável pergunta sobre quem vai pagar pelo muro ("O México!").

Mas o público em Hofstra havia sido instruído várias vezes a não aplaudir, e obedeceu de modo geral. Quando o fez, foi sobretudo para Hillary Clinton. Trump pareceu perder a gratificação instantânea e às vezes vacilou sem a afirmação que ele adora.

Ele chegou ao seu ritmo pela primeira vez por volta do 20º minuto, quando provocou Hillary sobre um alvo frequente da candidatura dele, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, e tornou-se mais confiante e animado, apontando e falando junto com sua adversária. Mais tarde, ele voltou a ganhar ímpeto quando atacou Hillary por deletar 33 mil e-mails quando era secretária de Estado --finalmente provocando aplausos da plateia.

Enquanto o debate prosseguia, Trump pareceu permitir que surgisse seu ser incontrolável --seu instinto politicamente incorreto conhecido pelos eleitores e por nós que o acompanhamos.

Falou em ser "subfinanciado" e interpôs "aliás, o nome disso é negócios" quando Hillary o acusou de torcer pela crise habitacional em 2006.

Ele usou o fórum presidencial para promover seu novo hotel na Avenida Pensilvânia em Washington --um golpe publicitário habitual na campanha.

Voltando a Charlotte, na Carolina do Norte, cidade corroída pela violência e os protestos depois da morte a tiros pela polícia de um homem negro, Trump não conseguiu deixar de voltar a seus próprios interesses comerciais, chamando-a de "uma cidade que eu amo, onde tenho investimentos". E falando sobre a violência das armas em Chicago ele teve o cuidado de mencionar que tem propriedades lá.

Trump não conseguiu se conter e fez uma piada sobre uma pessoa gorda hipotética, dizendo que a recente série de roubos de e-mails poderia ter sido igualmente praticada pelos russos ou por "alguém sentado na cama que pesa 200 quilos, certo?"

Conforme o debate avançou, ele começou a interromper, falando junto com Hillary quando achava que tinha uma opinião melhor, ou dizendo "errado, errado" sobre as afirmações dela.

No final, questionou a forma física de Hillary --enunciando cada palavra, em um tema favorito da campanha-- e se referiu às infidelidades de seu marido, dizendo que não ia falar sobre elas.

Esse é o Trump que os repórteres que o seguem conhecem, um que patina perigosamente perto do limite --do sexismo, da incivilidade, da vulgaridade-- e depois passa alegremente sobre ele.

Na "sala de imprensa" depois do debate, Trump, que costuma culpar os outros pelos erros de sua campanha, incluindo a "escória" da mídia "desonesta", voltou a sua zona de conforto, perguntando-se em voz alta se pode ter recebido intencionalmente um microfone "defeituoso".

No final, seu desempenho no debate não correspondeu a sua arrogância e bravatas (apesar de ele ter usado a palavra "braggadocious", referindo-se à sua argúcia nos negócios).

Ele não ganhou necessariamente, nem perdeu necessariamente.

Entre nós que o cobrimos, houve um debate inicial sobre se Trump estava dizendo "bigly" ou "big league" quando descreveu algo enorme --uma frase que ele usou até durante o debate para se referir ao impacto de seus cortes fiscais como presidente.

Mas conforme saíram as resenhas após o debate pareceu claro que o desempenho de Trump não foi "bigly", nem "big league".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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