Ex-miss Universo é a nova estratégia dos democratas para atacar Trump

Amy Chozick e Michael M. Grynbaum*

  • Emily Berl/The New York Times

    6.mai.2016 - Alicia Machado, que venceu o concurso Miss Universo em 1996

    6.mai.2016 - Alicia Machado, que venceu o concurso Miss Universo em 1996

Nos últimos minutos do debate na noite de segunda-feira (26), Hillary Clinton contou a história da Miss Universo 1996 e que Donald Trump a insultou porque ela havia engordado. "Donald, ela tem nome", disse Hillary.

Agora sua campanha está se esforçando para que esse nome, Alicia Machado, se torne onipresente.

Com a ajuda da campanha de Hillary, Machado entrou em uma série de publicidades desde que a candidata democrata contou sua história no debate na Universidade Hofstra.

Essa explosão de interesse é a combinação de um ataque político que repercute em dois eleitorados críticos para Hillary --as mulheres dos subúrbios e os hispânicos-- com uma batalha feita para a TV entre o candidato republicano a presidente e uma vencedora de concurso de beleza.

Em 48 horas, Machado foi o assunto de mais de 150 reportagens impressas, citada mais de 6.023 vezes na televisão e mencionada no Twitter quase 200 mil vezes. Ela participou dos programas "Today" na NBC e "Good Morning America" na ABC, além das redes CNN, MSNBC, Fox News, Univision e Telemundo.

"Foi uma oportunidade de ouro para a campanha de Hillary", disse Katie Packer, uma estrategista republicana que não apoia Trump. "É o pior pesadelo de qualquer mulher, mas também fala além das mulheres, aos latinos."

Hillary tinha em mente esses grupos demográficos quando atacou Trump por supostamente chamar Machado, que é venezuelana, de "Miss Porquinha" e "Miss Faxineira".

Uma porta-voz de Trump, Jessica Ditto, disse que as afirmações de Machado de que Trump a humilhou foram "totalmente sem base e sem substância" e que ele nunca a chamou por esses nomes. Mas a campanha de Hillary divulgou vídeos de Trump, que foi um produtor-executivo do concurso, dizendo sobre Machado, que tinha 19 anos na época: "Aqui está alguém que gosta de comer".

Assim como Trump se recusou a pedir desculpas a Khizr e Ghazala Khan, pais de um soldado muçulmano que morreu no Iraque e a quem ele insultou neste verão, o candidato não se arrependeu em relação a Machado.

Na terça-feira (27), ele disse no programa "Fox and Friends" que Machado "ganhou um peso enorme, e era um verdadeiro problema".

Sua reação permitiu que os democratas usassem sua bem preparada máquina de indignação e transformassem uma agressão passageira em uma verdadeira tempestade de notícias na mídia. E a história está repercutindo além dos círculos partidários.

Assessores da campanha de Hillary arranjaram muitas das aparições de Machado e divulgaram dois anúncios online contando sua história, um dos quais se chama, simplesmente, "Degradante". Ela fez campanha para Hillary na Flórida e poderá aparecer em outros eventos, disse um assessor.

Na terça-feira, a campanha realizou uma conferência telefônica para repórteres de política falarem com Machado.

"Para mim, esta eleição foi como um pesadelo, ver esse cara novamente fazer coisas idiotas e comentários idiotas tão misóginos e machistas", disse Machado na ligação.

Ana Navarro, uma comentarista política republicana, comentou que Machado, que também é atriz de telenovelas, é uma mensageira especialmente poderosa para alcançar os hispânicos, de quem Hillary precisa desesperadamente para conquistar os Estados mais disputados como Flórida, Colorado e Carolina do Norte.

Na terça-feira, Navarro disse que ouviu os comentários de Trump sobre Machado serem discutidos três vezes em uma hora nos noticiários de rádios em espanhol. "O inferno não conhece fúria igual à de uma latina chamada de gorda", escreveu ela no Twitter.

Machado está à vontade com a atenção repentina; ela contratou uma firma de publicidade de Los Angeles e disse que está escrevendo um livro revelador sobre suas experiências com Trump, que se intitulará "Donald Trump y Yo" (Donald Trump e eu). Na terça, ela promoveu sua linha de perfumes no Twitter. "Sinto-me como uma rainha", escreveu.

Ditto, a porta-voz de Trump, disse que Machado "lançou uma campanha de difamação pública para ganhar notoriedade às custas do nome e da reputação de Trump".

Pelo menos parte da trama que se desenrolou depois que Hillary citou seu nome pela primeira vez tem um eco fantasmagórico de um dos melodramas bregas que ela estrelou.

No final dos anos 1990, após seu reinado como Miss Universo, Machado foi acusada de apoiar uma tentativa de assassinato cometida por seu então namorado, que atirou contra um parente em Caracas. Machado teria sido vista dirigindo o carro da fuga, mas não foi acusada formalmente. Mais tarde, o juiz na Venezuela que conduziu o caso disse que Machado o havia ameaçado, o que ela negou.

Perguntada sobre o episódio na CNN na terça-feira, Machado disse a Anderson Cooper: "Eu tenho um passado. É claro, todo mundo tem um passado. E não sou uma santinha. Mas não é isso que interessa agora".

Ela também criticou a mulher de Trump, Melania, dizendo em uma entrevista à revista "Cosmopolitan": "Acho que falo mais inglês que ela". E acrescentou: "Não vejo nada nessa garota. Ela é uma boneca, um enfeite".

Em uma aparição na terça-feira na Fox News, a âncora Megyn Kelly perguntou sobre uma reportagem de 1997 em "The Washington Post" em que Machado sugeriu que ela tinha sido anoréxica antes de concorrer a Miss Universo naquele ano. Machado negou, mas o clipe foi compartilhado amplamente por fontes conservadoras na quarta.

Em suas entrevistas na televisão, Machado parecia consciente de que os apoiadores de Trump tentariam derrubá-la. "Não estou fingindo que sou Madre Teresa", disse ela em uma entrevista no programa "Today" na quarta-feira. "Sei que eles vão tentar desviar a minha história."

Assessores de Hillary disseram que Machado, que recentemente se tornou cidadã americana e pode votar, contatou a campanha durante a primária democrata, disposta a ajudar. A campanha não quis informar se o passado de Machado foi investigado. Mas uma porta-voz da campanha, Jennifer Palmieri, disse na quarta-feira à noite: "Trump deve parar de provocar Alicia Machado de uma vez e pedir desculpas pelos comentários ofensivos 20 anos atrás e na manhã após o debate".

Muitos republicanos pareciam concordar com Palmieri, manifestando frustração e incredulidade de que, 40 dias antes da eleição, o candidato de seu partido permitiu que essa disputa com Machado dominasse o noticiário.

"Não faz sentido", disse o estrategista republicano Frank Luntz. Segundo ele, grupos de interesse que conduziu mostraram que Trump deve atacar Hillary sobre questões como a dívida nacional e o Estado Islâmico.

"Em vez disso, ele está numa briga com uma miss", disse Luntz.

* Kitty Bennett colaborou na reportagem.

O swing pode definir a eleição nos EUA (mas não é o que você está pensando)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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