Opinião: O depoimento de uma vítima do assédio de Donald Trump, o grande bolinador

Nicholas Kristof

  • Reprodução/Twitter @NickKristof

A maior preocupação de Jill Harth com as mãos de Donald Trump não era que elas fossem pequenas. Era que elas estavam em todo lugar.

Harth e seu antigo namorado estiveram em reuniões com Trump para forjar uma parceria empresarial. "Ele foi incansável", lembrou Harth em uma entrevista, descrevendo como em 12 de dezembro de 1992 ele levou o casal para jantar e a uma boate --e então se colocou ao lado de Harth e enfiou a mão por baixo de sua saia, até a virilha. "Eu não sabia o que fazer. Afastei-me dele e disse que precisava ir ao toalete. Foi a rota de fuga."

Todos ouvimos falar no comportamento antiético ou vulgar de Trump, mais recentemente em uma gravação de 2005 descoberta pelo jornal "The Washington Post" na sexta-feira (7), em que ele se gaba de beijar e bolinar mulheres. A história que Harth e o namorado, George Houraney, contam sobre sua interação com Trump ao longo de seis anos --incluindo trapaça nos negócios e tentativa de estupro-- mostra como essa predação funcionava na prática. "Ele citava nomes constantemente", disse Harth sob juramento em um depoimento em um processo subsequente, "quando não estava me bolinando."

Chad Batka/The New York Times
Harth  e Houraney eram simplesmente um casal comum da Flórida entusiasmado porque Trump queria ser sócio deles. E foi aí que começou o pesadelo. (Trump nega com veemência essas impropriedades.) Qualquer pessoa que esteja pensando em votar em Trump faria bem em escutar Houraney e Harth.

Eles dirigiam uma pequena empresa na Flórida chamada American Dream Enterprise, que realizava um concurso de beleza de "garota do calendário", uma feira de automóveis, uma competição de música e outros eventos. Eles estavam juntos havia 13 anos e negociaram com Trump para realizar eventos em seus cassinos em Atlantic City, como um modo de gerar mais receita para todos.

Trump os encantou com sua visão ousada e confiante de transformar seus eventos em enormes máquinas de dinheiro. Por isso, diz Harth, ela ficou em uma situação familiar para muitas mulheres: não queria se arriscar a ofender um potencial sócio e benfeitor, mas também não queria ser apalpada.

O primeiro sinal de problemas apareceu na véspera da bolinação à noite, em uma reunião inicial de negócios em que, segundo Harth e Houraney, Trump passou o tempo perguntando sobre os seios das candidatas a miss --eram reais ou aumentados?-- e olhando fixamente para Harth, que tinha então 30 anos. A certa altura ele perguntou a Houraney: "Você dorme com ela?" Houraney, sem graça, explicou que eram um casal, mas Trump não se abalou.

"Você sabe, vai haver um problema", disse Trump a Houraney, segundo um processo por assédio sexual movido por Harth em 1997 contra ele. "Estou muito interessado na sua namorada."

Em 24 de janeiro de 1993, Harth e Houraney foram a uma propriedade de Trump chamada Mar-a-Lago, na Flórida, para comemorar a assinatura do contrato, e levaram consigo algumas "garotas do calendário" a pedido de Trump. Ele convidou Harth para conhecer a propriedade e então a empurrou para o quarto vazio de sua filha Ivanka.

"Eu estava admirando a decoração, quando de repente ele me encostou à parede e me apalpou inteira", disse-me Harth. "Ele tentava me beijar. Eu estava pirando." Harth disse que protestou com desespero, e finalmente conseguiu sair correndo do quarto e reencontrar o grupo. Ela e Houraney foram embora, em vez de passar a noite lá, como tinham planejado.
Algumas garotas ficaram, e o processo por assédio sexual diz que Trump apareceu sem ser convidado de madrugada no quarto de uma das jovens; ela o expulsou, mas ficou abalada. Quando foi contatada, ela não quis falar sobre a experiência, e não vou citar seu nome aqui.

Trump estava então com Marla Maples, que naquela primavera estava grávida de sua filha Tiffany, mas isso não o constrangeu. Ele se interessou intensamente pelas garotas do calendário, perseguindo algumas e rejeitando outras, segundo Harth, acrescentando que tinha aversão por candidatas negras e fazia comentários depreciativos sobre elas.

Trump aparece falando de forma vulgar sobre mulher em gravação

Naquele ano, Harth continuou encontrando Trump por razões de negócios, e segundo ela continuou tentando conquistá-la. "Ele dizia: 'Vamos para o meu quarto, eu quero me deitar', e me puxava. Eu dizia: 'Mas eu não quero me deitar', e a coisa virava uma luta livre.... Lembro-me de gritar: 'Eu não vim aqui para isso'. E ele dizia: 'Acalme-se'."

Harth afirma que temeu ser estuprada por um homem que pesava o dobro dela, e a certa altura vomitou, como mecanismo de defesa. Mas afirma que Trump nunca foi violento e realmente parecia ter um interesse sexual por ela; muitas vezes ele brincava quando ela se assustava: "A mente dele estava em um lugar totalmente diferente da minha", lembra Harth. "Ele pensa que é um presente de Deus para as mulheres".

Harth disse em seu depoimento que tudo isso foi "muito traumático", mas ela se manteve cordial porque temia que demonstrar raiva destruiria a relação comercial e suas ambições de sucesso. Pelo mesmo motivo, disse-me ela, não foi à polícia delatar o assédio sexual.

Também era uma época diferente, quando talvez fosse mais aceito que homens poderosos avançassem sobre jovens mulheres, quando elas se sentiam menos capazes de protestar.

Para ser justo com Trump, outros homens idosos na política e nos negócios --John Kennedy e Bill Clinton são exemplos-- às vezes também demonstravam um sentido de direito sobre as jovens.

Afinal, Houraney e Harth usaram um cassino de Trump para realizar um evento que Trump elogiou em uma carta a eles. Mas em 1994 Trump se afastou do relacionamento e se recusou a pagar o que devia, segundo o casal.

Houraney, que era dono da empresa de planejamento de eventos, processou Trump por quebra de contrato, e os dois lados eventualmente chegaram a um acordo confidencial. Harth diz que Trump pagou pouco mais de US$ 100 mil. Separadamente, Harth moveu um processo por assédio sexual, que também alegava tentativa de estupro; ela retirou o processo como condição para acertar a disputa do contrato, diz ela.

Depois do acordo, Houraney e Harth dizem que Trump os procurou, convidou-os a uma festa e pareceu tão encantador que eles se perguntaram se teria se transformado. Pouco depois disso, o casal, que tinha se casado em 1995, teve uma separação amarga e se divorciou.

Os dois não se falaram em vários anos, mas os dois deram relatos quase idênticos quando os entrevistei em separado, e suas histórias combinam com o depoimento de Harth e sua ação por assédio sexual daquela época.

Durante o processo de divórcio, Harth caiu em depressão profunda, ampliada pela morte de seu irmão e a perda do emprego na empresa de Houraney. Nesse momento Trump passou a lhe telefonar, consolando-a pelo divórcio e lhe oferecendo uma passagem de avião para visitá-lo em Nova York. Ela ficou temerosa, mas também lisonjeada, e pensou que talvez ele a pudesse ajudar a encontrar trabalho. Então em 1998 começou a sair com ele.

Eu lhe perguntei: Por que uma mulher que acusou Trump de tentativa de estupro saiu com ele?

"Eu estava assustada, pensando no que iria fazer", disse ela. "Quando ele me procurou e tentou me seduzir de novo, pensei que talvez devesse tentar --talvez, se ele ainda estiver interessado, eu deva dar uma chance a esse homem rico."

Eles namoraram durante vários meses em 1998, quando Trump se separou de Maples, segundo Harth. Afinal, ele foi um namorado decepcionante, que só assistia televisão e raramente dava apoio emocional", diz ela.

"Foi um divórcio difícil, e eu não parava de chorar", lembra ela. "Sabe o que ele pensava? Que eu devia aumentar meus seios. Marcou uma hora para eu fazer implante de seios com um médico em Miami."

Harth diz que finalmente o deixou, entediada, e que pouco depois ele começou a namorar Melania, sua atual mulher.

Hope Hicks, uma porta-voz da campanha de Trump, reagiu quando este artigo foi publicado online: "O senhor Trump nega todas as declarações dadas pela senhora Harth". De fato, Trump há muito deu uma versão dos fatos que é muito diferente.

Em 1996, depois que Harth denunciou o assédio sexual, a revista "The National Enquirer" citou Trump como tendo dito a um amigo próximo: "A verdade é que Jill Harth é obcecada por mim e faria o possível para ter sexo comigo".

Em abril deste ano, Trump disse a "The Boston Globe" que Harth e Houraney tinham alegado assédio sexual só porque seu processo de quebra de contrato não estava dando certo, e negou como "um absurdo total" a ideia de que ele tinha entrado na cama da jovem em Mar-a-Lago. Trump também negou que tivesse recusado candidatas negras.

A campanha de Trump divulgou e-mails dos últimos outono e inverno em que Harth, que hoje é uma maquiadora em Nova York, envia seus bons votos e pede trabalho cuidando de seu cabelo e maquiagem. "Sou definitivamente do Time Trump", declarou ela à campanha um ano atrás, e em um evento de Trump em janeiro foi levada aos bastidores para vê-lo.

Eu perguntei a ela: Se ele a traumatizou e enganou, por que mandar e-mails para seus assessores e encontrá-lo?

"Pensei que se eu fosse boazinha, talvez eles me chamassem para fazer maquiagem, talvez eu conseguisse algum tipo de trabalho fora do habitual", disse- me Harth. "Mas não pensei direito e a coisa saiu pela culatra. Fiquei parecendo uma tonta."

Falando com Harth e Houraney e revendo os processos e depoimentos da época, convenci-me de que eles diziam a verdade. Também ajuda o fato de que muitos outros depoimentos sobre o comportamento de Trump corroboram elementos da história --o sufocamento dos parceiros comerciais, a predação sexual-- e que ele mesmo promoveu sua própria vulgaridade.
"Ele só pensa nele", diz Harth, resumindo o que aprendeu sobre o homem que poderá ser nosso próximo presidente. "Ele é uma fraude."

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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