Conhecido por argúcia em acordos, novo líder da ONU enfrentará duros desafios

Somini Sengupta

Nas Nações Unidas

  • Li Muzi/Xinhua

    António Guterres fala à Assembleia Geral da ONU após ser apontado como o novo secretário-geral, na sede do organismo em Nova York

    António Guterres fala à Assembleia Geral da ONU após ser apontado como o novo secretário-geral, na sede do organismo em Nova York

O Quênia estava em ebulição. Em maio de 2015, seus líderes se queixavam de que uma onda de ataques terroristas tinha sido planejada em um campo de refugiados para somalis. O Quênia exigia que a agência das Nações Unidas para refugiados o fechasse, ou ele mesmo o fecharia e enviaria os somalis de volta ao seu país.

O homem encarregado de proteger os refugiados do mundo na época, António Guterres, partiu de seu gabinete em Genebra para Mogadício para se encontrar com o presidente da Somália, depois seguiu para Nairóbi para se encontrar com o presidente queniano, e então para o campo de refugiados, em Dadaab.

Sua diplomacia levou a um acordo para manutenção do campo aberto, o envio para casa apenas dos somalis que quisessem retornar e a uma maior mobilização internacional em ajuda à Somália e o Quênia.

Não foi um acordo perfeito, disse Bill Frelick, o especialista em refugiados da organização de diretos humanos Human Rights Watch, mas Guterres conteve uma situação potencialmente explosiva, pelo menos por algum tempo.

"Ele estava administrando uma situação muito politizada com muitos nervos à flor da pele", ele disse.

Muitas situações tensas é o que certamente encontrará Guterres quando assumir como secretário-geral da ONU em janeiro. O Conselho de Segurança, composto por 15 membros, o escolheu na semana passada e a Assembleia Geral o confirmou na quinta-feira (13).

Guterres assumirá em um momento em que a credibilidade da ONU está sob intenso escrutínio e em que o desentendimento entre a Rússia e Ocidente traz de volta o que o antecessor de Guterres, Ban Ki-moon, chama de "fantasmas da Guerra Fria".

Um engenheiro por formação e um católico por convicção, Guterres, 67 anos, natural de Portugal, se descreve como "um mediador honesto". Ele disse que como secretário-geral, ele personificará "os valores realmente universais consagrados na Carta da ONU". Mas ele também cita repetidamente a necessidade do que chama de "diplomacia discreta".

Aqueles que trabalharam estreitamente com ele citam com frequência sua habilidade política. Como primeiro-ministro de Portugal no final dos anos 1990, ele promoveu os amplos cortes de gastos necessários para que o país pudesse adotar a moeda comum europeia. Ele negociou a transferência de Macau, que era uma colônia portuguesa, para o controle chinês.

E como chefe da perenemente carente de dinheiro agência de refugiados de 2005 a 2015, ele viajava constantemente, cultivando a confiança de líderes tanto dos países que recebiam os refugiados quanto daqueles que pagavam por eles.

Os críticos dizem que a inclinação de Guterres por fechar acordos o limita, especialmente quando tenta persuadir os países poderosos dos quais depende para apoio financeiro.

Logo após Guterres ter voltado de Dadaab em 2015, a Médicos Sem Fronteiras acusou a agência de refugiados e os governos europeus pelo "fracasso esmagador" em ajudar e proteger os centenas de milhares de refugiados que seguiam para a Europa.

Na época, a agência de Guterres nem intensificou suas operações para administrar as caóticas e sujas cidades de tendas que inchavam na Grécia, nem conseguia proteger os refugiados enquanto cruzavam o continente, enfrentando cercas de arame farpado e canhões de água.

Arjan Hehenkamp, o chefe da divisão holandesa da Médicos Sem Fronteiras, disse que Guterres poderia ter pressionado os países mais ricos e poderosos do mundo, incluindo os Estados Unidos, a responderem de forma mais robusta e receberem muito mais pessoas que estavam fugindo dos campos de batalha mais mortais do mundo.

"Sinto que ele estava fazendo principalmente o que era viável, tentando arduamente fechar acordos bilaterais com países específicos para manutenção de suas fronteiras abertas", disse Hehenkamp. "Mas no meu entender, ele deveria ter exigido que o mundo fizesse o que era necessário."

A porta-voz da agência de refugiados, Melissa Fleming, que trabalhou com Guterres por sete anos, disse que ele relutava em gastar os recursos limitados da agência para ajudar países ricos a administrarem os refugiados em seus territórios. "Esta é a Europa", ela se recordou dele ter dito. "Nós atuamos em países que carecem de recursos."

Nascido em 1949, Guterres estudou engenharia e lecionou brevemente enquanto fazia pós-graduação.

Mas ele encontrou sua vocação quando deu início a trabalho voluntário em um cortiço em Lisboa. Ele se juntou aos protestos que levaram à derrubada do governo autoritário em 1974. Ele ajudou a fundar o Partido Socialista de seu país e se tornou seu líder. Ele adicionou uma rosa vermelha ao logo de punho cerrado do partido, em uma tentativa de remodelá-lo como menos militante.

Guterres apregoa as cotas de gênero adotadas pelo seu partido no início dos anos 1990 para promover mulheres no partido. Ele faz isso para ressaltar o que chama de seu compromisso com os direitos da mulher, e prometeu paridade de gênero nas nomeações para a ONU.

Como primeiro-ministro entre 1995 e 2001, ele ganhou a reputação de "hábil negociador", segundo um ex-ministro de seu governo, João Cravinho, que lhe deu crédito por fechar acordos com a direita e a esquerda em uma época em que seu próprio partido não contava com maioria parlamentar.

Uma de suas medidas mais famosas foi a descriminalização do uso de drogas, em resposta a um aumento do vício em heroína em Portugal. Menos bem-sucedido foi o esforço de seu partido de relaxar as restrições ao aborto. A maioria no Partido Socialista era a favor da medida, apesar de Guterres ter dito que, como católico, era contrário. A lei foi abandonada após sua derrota em um referendo.

Em 2015, ele foi nomeado alto comissário das Nações Unidas para refugiados.

Ele nunca abandou seu pensamento matemático. Certa vez, durante uma visita a crianças refugiadas no vale de Bekaa no Líbano, ele começou a dar uma aula de matemática, como lembrou Fleming, sua ex-porta-voz.

T. Alex Aleinikoff, um professor de Direito americano que serviu como seu vice, refere-se parcialmente brincando a Guterres como o sujeito com viseira verde de contador, debruçado sobre os orçamentos da agência. Geralmente, ele encontrava um erro.

Durante a gestão de Guterres, o orçamento da agência de refugiados cresceu acentuadamente, apesar de ainda estar aquém do necessário para atender o número recorde de pessoas deslocadas em todo o mundo. Atendendo aos doadores, Guterres deslocou os funcionários da agência, reduzindo o número de pessoas na sede em Genebra e adicionando mais pessoas nos escritórios de campo.

"Ele entende das coisas tanto política quanto operacionalmente", disse Aleinikoff.

Nervos à flor da pele costumam ser difíceis de ser superados com diplomacia. Nos últimos meses, o Quênia voltou a querer enviar parte dos refugiados de volta à Somália e retomou sua exigência de fechamento do campo de Dadaab. E neste ano a União Europeia fechou um acordo altamente criticado com a Turquia, prometendo bilhões em ajuda em troca da colaboração desta para impedir que os refugiados cruzem o Mediterrâneo.

Guterres herda desafios que testarão sua capacidade de equilibrar as exigências dos países mais poderosos do mundo com as necessidades das pessoas mais vulneráveis do mundo, começando, sem dúvida, com as guerras na Síria e no Iêmen.

Ele já mencionou uma lição aprendida com sua falecida primeira esposa, uma psicanalista. Quando duas pessoas se encontram, ela lhe disse, há pelo menos seis percepções para administrar: como percebem a si mesmas, como pensam que o outro as percebe, como as duas percebem a outra.

Guterres disse que a lição também se aplica aos países e que seu papel é ajudá-los a enxergar através da moita.

"Não me vejo como uma ameaça", ele disse.

Alison Smale, em Berlim (Alemanha), e Raphael Minder, em Madri (Espanha), contribuíram com reportagem

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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