Fãs de teorias da conspiração veem em Trump um político em quem acreditar

Campbell Robertson

Em Kenner (Louisiana)

  • William Widmer/NYT

    Roger Stone em sessão de autógrafos após palestra na conferência anual Oswald

    Roger Stone em sessão de autógrafos após palestra na conferência anual Oswald

"O que o governo fala para você raramente é a verdade, e nunca é a completa verdade", proclamou Roger Stone, o veterano estrategista político e confidente há muitos anos de Donald Trump.

Diante dos aplausos de dezenas de membros da plateia no domingo, em uma sala de eventos do Crowne Plaza New Orleans Airport Hotel, Stone argumentou que seu candidato não era nenhuma ferramenta dos "power brokers" da elite na Comissão Trilateral ou nas reuniões do Bilderberg. Ele afirmou, então, que há acobertamentos de paternidade dentro da família Clinton, declarou que um grupo que apoiava Hillary era uma "operação criminosa de lavagem de dinheiro" e prometeu revelações "devastadoras" entre os e-mails hackeados que ainda não foram divulgados.

E, em um breve aparte, explicou que Lyndon B. Johnson ajudou a orquestrar o assassinato de John F. Kennedy.

A última parte, embora não fosse o foco do discurso de Stone, foi o que o trouxe, pelo segundo ano consecutivo, para a conferência anual Lee Harvey Oswald, uma reunião de fãs de teorias da conspiração e de autores prolíficos, que é organizada em uma data próxima do aniversário de Oswald (18 de outubro). A conferência é dedicada à proposta, como o organizador da conferência explicou em sua fala de abertura, de que "Lee Harvey Oswald era um bode expiatório e que foi um golpe de Estado que aconteceu, e perdemos nosso país".

Em uma época em que anda muito em voga dizer que se perdeu o país, juntamente com profundas suspeitas de que existe uma elite poderosa e furtiva, o simpósio parecia notavelmente atual.

Entre uma análise e outra de acontecimentos de 53 anos atrás, as falas sempre acabavam voltando para as atuais eleições. Trump, o candidato republicano, que durante anos levantou dúvidas sobre se o presidente Barack Obama havia nascido nos Estados Unidos ou não, tachou as eleições de serem "totalmente armadas" e acusou Hillary de se encontrar secretamente com potências financeiras mundiais "para planejar a destruição da soberania dos Estados Unidos", tudo isso enquanto oficiais da inteligência alertavam sobre tentativas secretas dos russos de manipular a votação.

A ideia de que figuras políticas estão à mercê de forças ocultas é um dos princípios norteadores da conferência. A teoria de que as eleições sempre foram armadas foi repetida por pelo menos um palestrante: Sean Stone, filho do diretor Oliver Stone, cujo filme de 1991 "JFK" é na verdade um dos documentos fundadores da conferência. Também houve muitas discussões, em geral favoráveis, sobre alegações feitas por Trump de que o pai do senador Ted Cruz participou da conspiração por trás do assassinato de Kennedy.

Mas a conferência Oswald não é fácil de se classificar do ponto de vista político. Se existe qualquer tipo de lealdade "partidária", ela é em relação a Oswald, que é considerado um patriota honrado que foi manipulado e impugnado por conspiradores, e em relação a Kennedy, descrito por um dos participantes como um dos grandes conservadores do país, e por um palestrante como uma "espécie de Bernie Sanders mais bonito".

Kris Millegan, um simpático editor de livros sobre teorias da conspiração e organizador-chefe da conferência —e um autoproclamado "seguidor de Bernie"—, disse que a política aqui desprezava os rótulos de costume. "Quando você reúne pessoas da extrema esquerda e da extrema direita, elas, na verdade, estão meio que dizendo as mesmas coisas", diz ele.

Ainda assim, ele reconhece que algumas das coisas que eles dizem têm sido adotadas pela campanha de Trump. A confiança no governo começou a decair pouco depois do assassinato, de acordo com pesquisas, e nunca mais esteve tão alta desde então. Embora a confiança na grande imprensa fosse grande em meados dos anos 1970, recentemente, ela atingiu seu nível mais baixo em décadas.

Várias vezes durante a conferência, foi mencionado que existe a impressão de que se perdeu algum tipo de essência nacional vital no dia 22 de novembro de 1963. Também existe uma convicção de que as forças que acabaram com ela ainda estavam no controle.

William Widmer/NYT
Ao final da conferência foi servido bolo com a imagem de Lee Harvey Oswald
"Se eles fizeram isso conosco há mais de 50 anos, o que eles estariam fazendo hoje?", perguntou o reverendo Hy McEnery, 65, um capelão de Nova Orleans e apoiador devoto de Trump, que também levantou dúvidas sobre se o derramamento de petróleo da BP havia sido planejado.

No quintal de um bar de motoqueiros no sábado à noite, uma celebração do aniversário de Oswald incluiu até um bolo, um "Parabéns a Você" e música ao vivo tocada por Saint John Hunt, filho de E. Howard Hunt, um dos agentes de Richard M. Nixon envolvido no arrombamento de Watergate.

Sentado a uma mesa de piquenique, George Noory analisava o cenário político. Noory, que foi um dos principais convidados na conferência, apresenta um popular programa de rádio da madrugada, chamado "Coast to Coast AM", no qual magia negra financiada pelo governo e militares tentando esconder provas de uma antiga raça de gigantes são considerados juntamente com histórias que podem já ter parecido altamente improváveis, mas que agora vêm direto do noticiário noturno. Noory recebeu um convidado na semana passada para discutir sobre o suposto papel da Rússia no hackeamento do Comitê Nacional Democrata.

"Aquilo tudo sobre o que vínhamos falando há mais de 14 anos, sobre conspirações, sobre o desconhecido, se mostrou verdadeiro", disse Noory. "Essas coisas são reais e estão acontecendo."

Para algumas pessoas na conferência, não havia muito o que fazer a esse respeito além de se desesperar. Os livros à venda falavam sobre forças alinhadas contra a verdade em uma escala quase incompreensível, argumentando que a população está sendo enganada a respeito do assassinato de Kennedy, de Watergate, dos ataques de 11 de setembro, da origem do HIV e da Aids, dos julgamentos de Nuremberg, do Federal Reserve, das vacinas, dos óvnis e de inúmeras outras questões. A ideia de que o voto em qualquer candidato que seja faria alguma diferença parecia simplesmente ingênua, disseram várias pessoas, desanimadas.

Mas a intrépida confiança de Stone convenceu os outros de que essa eleição seria uma chance de contra-atacar. E quando a conexão da internet na sala de eventos caiu de repente durante o discurso de Stone, eles viram isso como sinal de que alguém via Trump como uma ameaça a ser eliminada.

Stone terminou suas observações para uma plateia um tanto dividida --alguns murmuravam sua discordância, outros aplaudiam ruidosamente-- e, então, começou a autografar cópias de seu livro sobre os segredos da família Bush.

Um homem se aproximou e levantou o tema da morte do juiz do Supremo Antonin Scalia, em fevereiro. Ele sugeriu que parecia incrivelmente conveniente sair do Supremo Tribunal em meio a um impasse ideológico de 4 votos contra 4 antes de uma eleição potencialmente apertada, e ele perguntou a Stone se ele achava que a morte poderia ter sido orquestrada.

Stone respondeu com uma discrição atípica. "Acredito que sim", ele disse. "Mas essa é só minha opinião."

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Tradutor: UOL

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