Análise: Palavras ofensivas sobre mulheres têm um propósito para os homens

Claire Cain Miller

  • Paul J. Richards/ AFP

    O candidato republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton participam do último debate presidencial

    O candidato republicano Donald Trump e a democrata Hillary Clinton participam do último debate presidencial

"Que mulher desagradável."

Ao se aproximar o final da campanha de calúnias, Donald Trump cunhou um clássico nos anais dos insultos contra mulheres poderosas.

O comentário que Trump dirigiu a Hillary Clinton durante o terceiro debate presidencial, na quarta-feira (19), enquanto ela falava sobre um tema especialmente desagradável, a seguridade scial, teve todos os elementos de um "meme" feminista. Ele surgiu como impulsivo e petulante, com nuances sexistas, embora sem a sofisticação de alguns antecessores:

Ela tem "os lábios de Marilyn Monroe e os olhos de Calígula" --o ex-presidente francês François Mitterrand, falando de Margaret Thatcher [a ex-primeira-ministra britânica].

Os insultos são uma parte inextricável da política, é claro, e não apenas disparados por homens contra mulheres. Trump suportou uma carga justa nesta eleição (o senador Mark Kirk, de Illinois, disse no Twitter este mês: "DJT é um palhaço maligno").

Alguns dos mais memoráveis vieram de mulheres: Dorothy Parker, ao ouvir que Calvin Coolidge tinha morrido [em 1933], disse: "Como podem saber?" Barbara Bush, durante a campanha de Reagan-Bush contra Walter Mondale em 1984, descreveu Geraldine Ferraro, a nomeada democrata à vice-presidência, como "não posso dizer, mas rima com luta". Bush mais tarde pediu desculpas e afirmou que a palavra que pensou foi "batuta" [em inglês "rich", na primeira frase, e "witch", na segunda].

Trump em particular também é um xingador oportunista --basta ver as coisas que ele disse sobre seus adversários homens durante as primárias.

Mas insultos feitos por homens a mulheres poderosas desempenham um papel especial, segundo os pesquisadores, reduzindo-as em estatura e jogando com o mal-estar das mulheres no poder.

Historicamente, houve uma alta penalização por atacar explicitamente mulheres, disse Kathleen Hall Jamieson, professora de comunicação e diretora do Centro Annenberg de Políticas Públicas na Universidade da Pensilvânia. Em consequência, raramente os insultos a mulheres são tão abertos quanto "mulher desagradável" [em inglês, "nasty woman", que também poderia ser traduzido como mulher terrível, suja, indecente, repugnante etc.], ou algumas outras declarações de Trump:

"Vejam aquela cara! Alguém votaria nela? Podem imaginar aquilo como o rosto de seu próximo presidente?" --Donald Trump sobre Carly Fiorina.

Os insultos geralmente são mais sutis, e talvez mais perniciosos, ao jogar com os estereótipos das pessoas sem que elas saibam. Chamar Hillary de "irritada", como fez Trump diversas vezes na quarta-feira, ou "emotiva", como fez John McCain, evoca estereótipos de gênero negativos para as mulheres como sendo histéricas e irracionais, disse Jamieson.

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Ao questionar a "energia" de Hillary, Trump implica que ela é fraca para ser a comandante-em-chefe. Termos carinhosos fazem coisa parecida:

"Acalme-se, querida" --o primeiro-ministro David Cameron para a política britânica Angela Eagle.

As pessoas tendem a se incomodar mais quando homens e mulheres não se encaixam nos estereótipos que esperam --os homens como líderes fortes e confiantes e as mulheres como humildes, cooperantes e apoiadoras, segundo uma pesquisa da psicóloga Laurie Rudman, da Universidade Rutgers.

Questionar a gentileza de uma mulher --como algumas pessoas pensaram que Barack Obama fez quando disse a Hillary que ela era "bastante amável" em um debate em 2008-- serve a esse objetivo, e também torna mais difícil para uma mulher revidar, porque ela só parecerá menos amável, disse Jamieson.

Enquanto as mulheres com filhos foram diminuídas como não tendo capacidade suficiente para liderar enquanto criam os filhos, as mulheres sem filhos também recebem críticas cáusticas por não preencherem as expectativas da sociedade sobre as mulheres:

"Alguém que escolheu ficar deliberadamente estéril não tem ideia do que é a vida" --o senador australiano Bill Heffernan sobre Julia Gillard, que depois seria primeira-ministra.

A condescendência é outra ferramenta comum para esvaziar mulheres poderosas.

"Deixe-me ajudá-la sobre a diferença, Ferraro, entre o Irã e a embaixada no Líbano" --George H. W. Bush, interrompendo Ferraro durante um debate vice-presidencial.

Atacar a aparência das mulheres serve a um duplo objetivo: o ataque em si, e a implicação de que uma mulher vale mais por seu visual do que por suas ideias. O mesmo se aplica a comentários sexuais, que algumas pessoas ouviram no uso por Trump da palavra "nasty", embora seja possível que ele não pensasse nesse significado.

Trump é especialista em mirar na aparência de uma mulher, mas não é o primeiro a fazer isso.

"Michelle Obama, seu projeto é a obesidade. E vejam que bunda grande" --deputado Jim Sensenbrenner, segundo um observador. (Sensenbrenner depois pediu desculpas.)

"Vocês viram Nancy Pelosi no plenário? Um nojo total. Se você passar por todas as cirurgias, fica o nojo" --senador Lindsey Graham, fazendo uma piada sobre cirurgia plástica.

"Você é mais bonita que inteligente" --ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, para Rosy Bindi, uma deputada de oposição.

Atacar as mulheres no poder remonta a séculos:

"A concubina, a demônia, a prostituta" --Eustace Chapuys, embaixador imperial na Inglaterra, sobre Ana Bolena.

Mas o negócio dos insultos de gênero é que eles podem sair pela culatra, reunindo pelo menos metade da população. Quando Patty Murray ouviu de um deputado estadual que ela não poderia fazer diferença porque era apenas "uma mãe de tênis", ela deu a volta e usou a frase como slogan na campanha que a levou ao Senado.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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