Bashar Assad, impenitente, diz que espera governar a Síria até 2021

Anne Barnard

Em Damasco (Síria)

  • Syrian Presidency/AP

    O ditador sírio, Bashar al-Assad, dá entrevista no palácio presidencial em Damasco, na Síria

    O ditador sírio, Bashar al-Assad, dá entrevista no palácio presidencial em Damasco, na Síria

As armas estavam em silêncio no topo do Monte Qasioun e as luzes em suas encostas piscavam sobre Damasco enquanto o ditador Bashar Assad recebia visitantes em seu palácio franco-otomano abaixo. Era possível imaginar por um momento que não havia uma guerra na Síria.

As explosões que até recentemente ecoavam dia e noite do alto da montanha, dos bombardeios aos subúrbios controlados pelos rebeldes, diminuíram e Assad, radiando confiança, estava em uma missão de persuadir o público do Ocidente de que seus governos cometeram um erro ao apoiarem seus oponentes.

Ele prometeu a seus convidados, meia dúzia de jornalistas e analistas de políticas americanos e britânicos, que uma nova era de abertura, transparência e diálogo estava tendo início na Síria, uma mensagem que fazia parte de um esforço orquestrado de relações públicas por parte de seus principais assessores e autoridades. Ele falou de uma luta pela identidade no Oriente Médio e sobre o direito de todo sírio de ser "um cidadão pleno, em todos os sentidos dessa palavra".

Então rejeitou qualquer responsabilidade pessoal pela guerra que devasta seu país, colocando toda a culpa nos Estados Unidos e nos militantes islâmicos, e nenhuma em seu governo ou em suas forças de segurança.

Assad descartou quaisquer mudanças políticas até que as forças do governo vençam a guerra e declarou que espera ser presidente no mínimo até seu terceiro mandato de sete anos chegar ao fim em 2021. E afirmou que o estado do tecido social na Síria, um país onde metade da população foi expulsa de suas casas, centenas de milhares foram mortos, dezenas de milhares foram presos e os centros de cidades foram reduzidos a escombros, está "muito melhor do que antes" da guerra.

Ele projetou confiança de que as forças do governo vão tirar proveito do momento e retomar o controle de todo o país, apesar de mesmo com o apoio aéreo russo, até o momento foram incapazes de remover os rebeldes de metade de Aleppo, antes a maior cidade da Síria.

Ao mesmo tempo em que Assad e seu círculo interno tentam uma nova abertura sobre a situação na Síria, eles endureceram sua posição contra concessões aos oponentes domésticos ou estrangeiros, ou mesmo o reconhecimento de que haja quaisquer queixas legítimas por trás dos protestos em grande parte pacíficos de 2011, que levaram às duras repressões por parte das forças de segurança e então à guerra civil.

Eles argumentam que os Estados Unidos estiveram apoiando ativamente o Estado Islâmico e outros militantes extremistas, assim como chamaram as alegações de crimes de guerra cometidos por autoridades sírias de serem politicamente motivadas, falsas ou ambas.

"Sou apenas uma manchete, um presidente ruim, um bandido, que está matando os mocinhos", disse Assad na noite de segunda-feira, em um salão revestido com painéis de madeira no palácio. "Vocês conhecem essa narrativa. A verdadeira intenção é a derrubada do governo. Este governo não atende aos critérios dos Estados Unidos."

Apesar dos "milhares de sírios mortos pelos terroristas", ele disse, "ninguém está falando sobre os crimes de guerra" cometidos pelos grupos rebeldes.

Na verdade, no dia anterior, o emissário especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, seguido pela Anistia Internacional e outros grupos de direitos humanos, condenou os ataques indiscriminados com morteiros por parte dos grupos rebeldes às áreas de Aleppo sob controle do governo, ataques que mataram um grande número de civis nos últimos dias.

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Todavia, são os aviões do governo que, há anos, atacam indiscriminadamente todo dia as áreas residenciais sob controle dos rebeles; foram as forças do governo que impuseram cercos de fome; e são nas instalações de detenção do Estado onde milhares de pessoas, incluindo manifestantes pacíficos, blogueiros e outros civis aparentemente presos a esmo, definham sem julgamento, com frequência sob tortura.

As forças do governo também são responsáveis, segundo a Médicos pelos Direitos Humanos, Médicos Sem Fronteiras e outros grupos internacionais, pela maioria esmagadora dos centenas de ataques a hospitais e trabalhadores médicos, incluindo vários casos de ataques duplos, onde os aviões fazem a volta e realizam um segundo ataque quando as equipes de resgate chegam.

"Vamos supor que essas alegações sejam corretas e este presidente matou seu próprio povo e os Estados Unidos estejam ajudando o povo sírio", disse Assad. "Após cinco anos e meio, quem me apoiou? Como posso ser presidente sem meu povo me apoiar?"

Ele então deu uma pequena risada e acrescentou: "Essa história não é realista".

Assad tem certa razão, como até mesmo seus oponentes reconhecem. Ele se manteve no poder não apenas devido à intervenção decisiva do Irã, Rússia e do grupo militante libanês Hizbollah, mas também graças a um apoio de alguns setores da sociedade maior do que muitos oponentes achavam que ele tinha.

Segundo Assad, grande parte de seu apoio vem de pessoas que podem não gostar de suas políticas ou do Partido Baath que ele comanda, mas que temem que a alternativa seria um governo extremista ou o colapso do Estado. Ele acrescentou que após a guerra, esse apoio pode diminuir. Ele não comentou sobre o papel do governo na repressão à oposição civil e por ter concentrado os ataques nos grupos rebeldes que não são jihadistas, táticas que deixaram as pessoas com poucas alternativas.

"Elas aprenderam o valor do Estado", ele disse, dizendo que esse fato solidificou o tecido social. "Isso é o que as aproximou de nós, não por terem mudado de ideia politicamente."

Os comentários de Assad foram feitos após uma conferência de dois dias organizada pela Sociedade Síria Britânica, chefiada por seu sogro, Fawaz Akhras, que foi considerada como parte da nova abertura e um esforço para competir com o que foi rotulado como guerra na mídia.

Várias dezenas de jornalistas e analistas participaram para obter os difíceis vistos para poder trabalhar e para conseguir um vislumbre parcial da situação na Síria controlada pelo governo. Os repórteres no país são obrigados a viajar na companhia de supervisores do governo e mesmo assim precisam de permissão elaborada para visitar áreas específicas, e não há sinal de que essa política mudará.


Eles estão na linha de frente do resgate na Síria: os Capacetes Brancos


Damasco, a capital, parece menos tensa do que há um ano ou dois. Após os avanços das forças pró-governo e do que o governo chamou de acordos de reconciliação com os subúrbios sitiados, há menos fogo de artilharia, apesar de ainda ocorrerem ataques aéreos em alguns subúrbios. Os morteiros rebeldes atingem a cidade com menos frequência. Os novos bares estão lotados na cidade velha histórica.

A mensagem por parte dos oradores da conferência, muitos deles autoridades, conselheiros e apoiadores do governo, assim como por Assad, é de confiança: eles acreditam que estão vencendo e estão prontos para dialogar com o Ocidente, mas em seus próprios termos.

"Cabe ao Ocidente repensar suas políticas", disse o ministro das Relações Exteriores da Síria, Walid al-Moallen, aos jornalistas na segunda-feira, acrescentando que o governo apreciaria, apesar de não esperar, uma cooperação com os Estados Unidos.

Al-Moallem disse que o governo lutará para derrotar quaisquer militantes que se recusem a se submeter ao governo, sejam eles os grupos curdos no nordeste, os grupos ligados à Al Qaeda ou os rebeldes apoiados pelos americanos em Aleppo. Ele rejeitou a possibilidade de qualquer acordo no qual a oposição local manteria o controle em Aleppo, dizendo que isso "recompensaria aqueles assassinos". Ele negou que as forças do governo atacaram qualquer hospital.

Assad e seus conselheiros têm martelado ultimamente em preocupações que repercutem no Ocidente: a desastrosa invasão e ocupação americana no Iraque em 2003, que está por trás da relutância ocidental em fazer uso de maior força militar contra Assad; a disseminação dos ataques do Estado Islâmico a capitais ocidentais, que fez com que autoridades europeias procurassem discretamente Damasco em busca de informação de inteligência.

"Até o momento, ainda mantemos diálogo por vários canais diferentes", até mesmo com os Estados Unidos, disse Assad. "Mas isso não significa que abrimos mão de nossa soberania ou transformamos a Síria em um país fantoche."

As declarações confiantes surgem em meio a um quadro cada vez mais complicado.

O governo depende do apoio aéreo russo e da ajuda de milhares de milicianos do Iraque e do Hizbollah para retomada da metade de Aleppo ainda controlada pelos rebeldes. Mesmo assim, ele ainda enfrente forte resistência e contra-ataques, e a expectativa é de que a batalha ainda durará meses, no mínimo.

Soldados convocados para servirem por dois anos já estão lutando há cinco. Oficiais militares, até mesmo alguns dos participantes pró-governo na conferência, reclamaram que o crescente papel da Rússia e do Hizbollah no esforço de guerra representou uma grande perda de soberania.

Resgatista na Síria se emociona ao embalar bebê retirada dos escombros

A libra síria está valendo um décimo de seu valor pré-guerra frente ao dólar. Milhões de crianças sírias não podem ir à escola. O grupo militante Estado Islâmico, apesar de estar na defensiva contra as forças apoiadas pelos Estados Unidos no Iraque e nordeste da Síria, ainda controla uma grande área do país de Assad.

Assad, como de costume, recebeu os visitantes na segunda-feira no alto de uma escadaria do palácio, dizendo que o considera "mais aconchegante" do que o palácio oficial, usado para cerimônias, em uma colina com vista para o centro de Damasco. Não houve revistas de segurança.

Pendurado na grande entrada estava uma lembrança de dias mais tranquilos, quando Assad e sua esposa, Asma, tinham mais tempo para se dedicar como patronos das artes. Era uma pintura de um rosto distorcido fazendo careta, uma obra característica do artista sírio Sabhan Adam, que busca inspiração para seus "monstros humanos", como diz em seu site, da "dor, medo e fobia de que nossa sociedade sofre constantemente".

Assad brincou sobre seu amor por tecnologia ("Eu checo os aparelhos diariamente") e notou com orgulho que a tecnologia de celulares 4G foi introduzida na Síria durante a guerra. Mas negou os relatos de que adora videogames.

"O último videogame que joguei foi o Atari", ele disse. "Space Invaders."

Ao ser pressionado sobre como a Síria poderia ser reestruturada ou reformada, ele disse que a primeira mudança necessária seria no "sistema operacional" mental da região, que ele disse ser baseado na religião.

Ele disse que isso por si só não é ruim, mas as ideologias radicais islâmicas baseadas em "interpretações ruins" se enraizaram antes da guerra e a alimentaram. Ele rejeitou as afirmações dos analistas de que o governo dele acelerou o processo ao construir mesquitas e canalizar combatentes jihadistas ao Iraque durante a ocupação americana.

"Islamização significa 'não acredito em ninguém que não se parece comigo, se comporta como eu, pensa como eu'", ele disse. "Secular significa liberdade da religião."

Ele endureceu quando perguntado por que não soltou os prisioneiros políticos e detidos acusados apenas de protestar ou escrever contra o governo, mas não de atos violentos.

Primeiro, ele contestou a existência de presos políticos. "Não há presos políticos. Temos criminosos legais", ele disse, "Os criminosos legais são aqueles que violaram as leis, sejam elas de aspecto político, militar ou de segurança."

"Se você apoia terroristas, você não é um preso político", ele acrescentou. "Você está apoiando assassinos."

Ele disse que soltou dezenas de milhares de prisioneiros por meio de anistias, para abrir caminho para "alguma solução em nossa sociedade", mas que só tinha autoridade de soltar apenas os que já foram julgados e sentenciados.

Ao ser perguntado sobre a lista de detidos cujas famílias não têm notícias deles há anos, ele pediu por prova de que estavam na prisão.

"Você tem documentos?" ele perguntou. "Eles foram vistos na prisão?"

Ele disse que as famílias deveriam "voltar à instituição" e interpelar judicialmente. Mas inúmeras famílias tentaram fazer isso, repetidamente, pagando propina por informação, apenas para saírem de mãos vazias. Ex-presos, advogados sírios e grupos de direitos forneceram ampla documentação de que presos carecem de direitos básicos de habeas corpus e que os julgamentos com frequência duram apenas poucos minutos.

Assad disse que está lutando para preservar as instituições do Estado, "bem ou mal", ele disse, criticando a intervenção ocidental que ajudou a derrubar o governo da Líbia em 2011. "Não é nossa missão mudá-lo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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