Trump pode ser eleito por algo que ele tem em comum com Obama

Nate Cohn

  • Damon Winter/The New York Times

    Simpatizantes aguardam discurso do candidato republicano Donald Trump durante campanha em Hershey, Pensilvânia

    Simpatizantes aguardam discurso do candidato republicano Donald Trump durante campanha em Hershey, Pensilvânia

Às vésperas da eleição, Donald Trump está muito perto de vencer, e na verdade existe somente uma razão para isso: entre os eleitores brancos sem curso superior, ele lidera por uma ampla margem.

Pesquisas nacionais recentes apontam que Trump está à frente de Hillary Clinton com 59% contra 30% entre esse grupo. É uma vantagem maior do que os 57% contra 35% que Mitt Romney teve entre esses eleitores nas últimas pesquisas de 2012.

A vantagem de Trump nesse grupo foi sozinha suficiente para anular quatro anos de uma migração do voto de hispânicos e de eleitores brancos com nível superior a favor dos democratas.

Ele até conquistou simpatizantes entre alguns dos mesmos eleitores brancos que apoiaram Barack Obama em 2008. Isso sugere que Trump e Obama podem ter mais em comum do que as pessoas possam imaginar. Pelo menos de um ponto de vista político.

Se Trump vencer a eleição presidencial, essa terá sido a razão. Foi um padrão consistente ao longo do ano. Sempre que Trump entra em uma disputa apertada com Hillary, é porque ele consegue de lavada os votos entre eleitores brancos da classe trabalhadora.

Na última semana, uma análise da votação antecipada deixou claro que a participação eleitoral será mais do que suficiente para que um democrata vença uma eleição presidencial. A participação latina será alta. A participação negra talvez não atinja os mesmos níveis de 2012, mas não será tão baixa a ponto de alguém culpar a participação negra por uma derrota de Hillary.

Mas a força de Trump entre a classe trabalhadora branca lhe dá uma verdadeira chance de vitória, uma possibilidade que muitos desconsideravam até o último verão. Ele poderia conquistar votos de colégios eleitorais sem vencer o voto popular através de vitórias apertadas em swing states do meio-oeste ou do norte como Wisconsin e New Hampshire, onde os democratas dependem de apoio entre eleitores da classe média baixa. A força de Trump entre esse grupo pode até ser suficiente para que ele vença na Flórida, onde o abundante apoio a Hillary entre eleitores latinos quase condenaria um republicano.

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O senso comum depois de 2012 dizia que Obama era um candidato historicamente fraco entre eleitores da classe trabalhadora e que não havia muito espaço para os republicanos conseguirem vantagens adicionais. Havia o argumento de que os republicanos poderiam conquistar muito espaço entre esse grupo, ganhando o apoio de eleitores brancos que não votam, um grupo que na verdade parece ser mais democrata do que os eleitores brancos que de fato vão votar.

Mas as pesquisas de boca de urna tendem a registrar de forma incompleta o número de eleitores com menos instrução, e as pesquisas de boca de urna nacionais subestimaram a força de Obama entre eleitores brancos no Norte. Elas lhe atribuíam um desempenho pior entre eleitores brancos do que qualquer outro democrata desde Walter Mondale, mas isso foi exclusivamente por causa de sua fragilidade no Sul. Em muitos Estados do Norte, como Iowa e Ohio, Obama se saiu melhor entre eleitores brancos do que outros democratas.

Para muitos, era bem difícil imaginar que Hillary, uma democrata branca que se saiu muito bem entre eleitores da classe trabalhadora nas primárias democratas de 2008, pudesse perder eleitores que apoiaram Obama na eleição de 2012, ou que aprovem o desempenho dele hoje. É ainda mais estranho se você acredita que o racismo está no cerne do apelo de Trump: se os eleitores de Trump são encorajados pelo racismo, então por que tantos deles votaram em Obama?

O racismo pode até encorajar a base de Trump, mas seu apelo entre alguns eleitores brancos de Obama sugere que Trump e Obama possam ter algo em comum.

Trump mudou o enredo das eleições de 2012 e de 2008, e se aproveitou de algumas das mesmas questões que ajudaram Obama.

Em 2008, Obama se colocou como agente da esperança e da mudança: ele competia contra Washington, o establishment e lobbies. Em 2012, a campanha de Obama atacou seu adversário republicano, Mitt Romney, como um plutocrata que terceirizaria empregos e ajudaria os ricos, não a classe média.

Esses são os tipos de razões pelas quais democratas da classe média baixa em lugares como Scranton, Pensilvânia, e Youngstown, Ohio, permaneceram do lado dos democratas.

Nestas eleições, Trump virou esse quadro. Ele concorreu contra o establishment e contra uma candidata que o representa muito mais do que John McCain ou Romney. Ele retratou Hillary como alguém que apoia interesses corporativos, e até globais, mais do que os da classe média em questões como comércio e imigração. As diversas alegações contra Hillary complementam bem a noção de que ela não está tentando ajudar americanos comuns,

Enquanto isso, Hillary enfatizou mais a adequação de Trump para a presidência do que a tradicional mensagem da campanha democrata sobre a economia.

Espera-se que Trump não consiga a presidência, em parte por causa de suas dificuldades em capitalizar os profundos pontos fracos de Hillary entre os eleitores da classe trabalhadora. Provavelmente existem muitos jovens brancos sem nível superior, por exemplo, que gostavam de Obama e que não gostam nem de Trump, nem de Hillary.

Independentemente do resultado, esses eleitores irão pairar sobre a política americana. Grande parte do establishment do Partido Republicano sem dúvida preferiria um candidato que fosse mais simpático às suas visões sobre imigração e comércio. Se Hillary vencer com força entre os eleitores de alto nível de instrução e hispânicos, boa parte do establishment republicano concluirá que esses grupos também estão em seu interesse eleitoral.

Mas os eleitores receptivos às visões de Trump sobre essas questões teriam levado Trump terrivelmente perto da vitória, mesmo com um candidato tão problemático. Eles também estão entre os eleitores com maior probabilidade de ceticismo em relação a Hillary daqui a quatro anos. Seria difícil o partido não atender a suas demandas.

Já os democratas teriam o desafio oposto. Quatro anos depois de mudanças demográficas receberem o crédito pela vitória de Obama, o partido provavelmente perceberia até que ponto eles permanecem dependentes do apoio de eleitores dos quais eles podem ter achado que não precisariam mais. Ao mesmo tempo, a coalizão vencedora teria maior nível de instrução e seria mais diversificada do que nunca. Sem um republicano como Trump como contraste, pode ser difícil planejar uma agenda e uma mensagem que mantenham unida a coalizão de Hillary.

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