Eleição de Trump é vista com bons olhos pela Rússia de Putin

Neil MacFarquhar

A vitória de Donald Trump, declarada na madrugada de quarta-feira (9), foi um bônus inesperado para o Kremlin, que usou a longa e tortuosa campanha eleitoral americana para provar o alcance global de suas operações disruptivas de desinformação visando colocar em dúvida todo o processo democrático do Ocidente.

De certa forma, o resultado foi menos importante para o presidente Vladimir Putin do que o fato de Moscou ter podido explorar toda a campanha como uma evidência de que o Ocidente está em declínio caótico.

Mesmo assim, dadas as declarações positivas de Trump a respeito da Rússia em questões cruciais como sua anexação da Crimeia e o senso de que sua falta de experiência em política externa pode ser algo a ser explorado, analistas russos previram que seria aberta champanhe no Kremlin.

"A presidência de Trump fará os Estados Unidos afundarem em uma crise plena, inclusive econômica", disse Vladimir Frolov, um proeminente analista de assuntos internacionais.

"Os Estados Unidos estarão ocupados com suas próprias questões e não incomodarão Putin", ele disse. "Em consequência, Moscou terá uma janela de oportunidade em termos geopolíticos. Por exemplo, ela poderá reivindicar o controle sobre a antiga União Soviética e parte do Oriente Médio. O que há para não gostar?"

O sentimento se estende além do Kremlin. A mídia controlada pelo Estado tem dado atenção constante à campanha, particularmente ao fato de Trump, longe de satanizar Putin como a maioria dos políticos ocidentais, o ter elogiado como um forte líder.

"Trump disse que respeita o presidente. Ele disse que conversará com a Rússia", disse Maria Katasonova, de 21 anos, organizadora de uma festa em apoio a Trump no pub Union Jack, em Moscou, que durou a noite toda. "É um momento positivo que reduzirá a temperatura das relações internacionais."

Havia pouco amor por Hillary Clinton na Rússia. Putin sempre a acusou de apoiar os protestos em massa que acompanharam seu retorno à presidência em 2012, e altos funcionários repetidamente a desprezavam como uma das principais arquitetas da mudança de regime que provocou a guerra no Oriente Médio e na Ucrânia.

"Muitos russos gostam de Trump. Uma frase explica isso: Guerra e paz", disse Katasonova, que vestia uma camiseta azul Trump-Pence. "Hillary é guerra, Trump é paz".

Ao amanhecer, os cerca de 100 simpatizantes da noite anterior minguaram para cerca de uma dúzia. Ainda bebendo uísque e cerveja, eles comemoravam cada anúncio de vitória de Trump na "CNN".

A parede do bar foi decorada com retratos de Putin, Trump e Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional de extrema direita da França. A Rússia tem dado apoio financeiro a Le Pen, uma grande crítica da União Europeia e do tapete de boas-vindas da Europa aos imigrantes, e para outras organizações de extrema direita e extrema esquerda na Europa.

Desde que anexou a Crimeia em março de 2014, a Rússia tem intensificado uma campanha de desinformação no Ocidente, o pintando como violento, desordeiro, tomado por imigrantes e inerentemente não democrático. Explorando as tradições da Guerra Fria, as "medidas ativas" promovidas pela Rússia incluem falsa cobertura de estupros cometidos por imigrantes ou vendas de armas para o Oriente Médio.

Veículos de notícias como a rede de televisão por satélite "RT" e "Sputnik" mostram a Europa Ocidental como tomada por manifestações, assim como também apoiou a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como "Brexit".

Mas se a Europa era importante, encontrar meios de semear dúvida e insegurança a respeito do sistema político dos Estados Unidos, a última superpotência restante, foi um grande prêmio.

A televisão tem sido implacável em tentar pintar o sistema americano como falho, sugerindo que o processo não é melhor que o da Rússia. Um político russo proeminente até mesmo fez piada a respeito antes do resultado dos votos ser divulgado.

Gennady Zyuganov, o líder de longa data do Partido Comunista, disse que Hillary era inteligente, mas não boa para o país. "Se os americanos votarem honestamente, acho que Trump vencerá, mas se votarem como aqui, então Hillary vencerá", ele disse.

Se a Guerra Fria estava enraizada em diferenças ideológicas, a nova meta russa é mostrar que todos os sistemas políticos são igualmente ruins. Além disso, ao interferir em conflitos como os da Ucrânia e Síria, Putin tem buscado reafirmar o papel da Rússia como uma potência global que precisa ser reconhecida.

Dmitri Kiselyev, o âncora mais importante da televisão estatal, chamou a campanha eleitoral americana de a mais suja da história do país, dizendo que provocava "repulsa" ao que de alguma forma ainda era chamado de democracia. Ele também disse que quem quer que fosse eleito não seria legítimo e seria contestado legalmente.

Assim que a votação teve início, Margarita Simonyan, a chefe da rede de televisão por satélite "RT" e uma ex-aluna colegial de intercâmbio em New Hampshire, postou no Twitter "Democracia, descanse em paz".

Mais diretamente, altas autoridades de segurança em Washington ligaram a Rússia aos ataques de hackers contra a sede do Partido Democrata, que levaram aos e-mails vazados em outubro, que provaram ser embaraçosos para a campanha de Hillary.

Trump encorajou a Rússia a revelar mais sobre os e-mails de Hillary, fazendo com que ela o acusasse de ser um "marionete russo". Trump, no último debate, reagiu, "Não sou marionete, não sou marionete".

Putin negou qualquer papel direto do Estado nos vazamentos, dizendo que a mídia americana deveria prestar atenção no conteúdo, não na fonte. Mesmo assim, ele se gabou do fato de a Rússia estar no centro da campanha, não mais ignorada.

"Hoje, o problema número 1 de toda a campanha eleitoral é a Rússia. É o principal assunto", Putin disse a um grupo composto principalmente em especialistas estrangeiros em Rússia, em outubro.

"Isso, é claro, é muito apreciado, mas apenas em parte", ele prosseguiu. "Por que em parte? Porque todos os participantes nesse processo estão abusando da retórica antirrussa e minando nossas relações. E isso é ruim para ambos os países e para a toda comunidade internacional."

À medida que os resultados começaram a indicar uma vitória de Trump, seus apoiadores russos mal podiam acreditar. "Operação Impensável. A história mundial mudou seu curso", escreveu Egor Kholmogorov, um nacionalista, em sua página no Facebook.

É claro, vários analistas se mostravam mais sóbrios sobre se as declarações positivas de Trump a respeito da Rússia resultariam em laços melhores e talvez um relaxamento das sanções econômicas impostas após a anexação da Crimeia e a desestabilização da Ucrânia.

"Não acho que devemos exagerar a importância das palavras gentis de Trump a respeito da liderança russa", disse Aleksei Arabatov, um especialista em relações internacionais, em uma entrevista para a emissora de rádio "Eco de Moscou". "Ele disse boas coisas no início, ele disse coisas ruins, e agora disse que não sabe. Trata-se de um homem que se ajusta às circunstâncias e ao público ao qual está se dirigindo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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