Fotógrafo que cobriu Trump por um ano para "NYT" conta sobre restrições e clima sombrio

Damon Winter*

  • Damon Winter/ The New York Times

*Damon Winter é um fotógrafo do "New York Times". Ele ganhou um prêmio Pulitzer de Fotografia Especial por sua cobertura da campanha presidencial de Barack Obama em 2008

O desafio para qualquer fotojornalista que realiza a cobertura de uma corrida presidencial moderna é como registrar a essência de um candidato em um ambiente tão rigidamente controlado, quando a campanha tenta manter o controle sobre sua imagem pública.

Mas independente de quão restritiva seja a campanha, geralmente há algumas oportunidades para capturar os momentos pequenos e reveladores que ocorrem nos bastidores dos comícios, durante as desgastantes viagens pelo país, enquanto os candidatos cortejam os eleitores. Esses são tradicionalmente os elementos vitais da cobertura de campanha, que nos permitem produzir um relato mais rico e mais cheio de nuances. Na campanha de Trump, não houve quase nenhum.

Até recentemente, o único local de onde podíamos fotografá-lo era do "cercado da imprensa", uma área fechada no fundo do local de seus eventos, que oferecia apenas uma vista de frente. Trump não gosta de ser fotografado por trás, de lado ou de baixo, assim, em consequência, tivemos pouco acesso às áreas mais próximas do palco.

Damon Winter/ The New York Times


Os fotógrafos que cobriram a campanha dele passaram semanas sem vê-lo interagir com os eleitores atrás dos cordões de isolamento após seus comícios. Nas últimas semanas de campanha, com frequência éramos conduzidos para fora antes de ele concluir seu discurso. Em setembro, ele deixou para trás o corpo de imprensa enquanto seguia para um comício em New Hampshire, e então se gabou disso ao subir ao palco sem a nossa presença.

Apesar das restrições, tentei o melhor que pude transmitir o tom e teor da campanha e registrar um senso dos eventos de Trump, que às vezes podem parecer sombrios, tanto visualmente como em tom.

Damon Winter/ The New York Times


Nos comícios, a imprensa é rotineiramente molestada pelos simpatizantes e insultada pelo próprio candidato. Eu ouvia com frequência comentários racistas e violentos e via crianças pequenas cantando "Prendam-na! Prendam-na!" (referindo-se a Hillary Clinton) juntamente com seus pais. Perto de Milwaukee, um homem se reclinou sobre a barricada de metal que nos separava e me sussurrou que se Hillary estivesse lá, eles a fariam em pedaços.

Trump é um tema visual fascinante. Ele pode ser reconhecido instantaneamente por quase qualquer ângulo e qualquer distância. Seu cabelo característico reflete mais luz do que qualquer coisa ao seu redor, o que o faz se destacar em qualquer cena. Isso me dá uma grande margem para ser criativo na forma como o cubro. Ele também é muito expressivo quando fala, o que pode representar um desafio: ele faz grandes gestos com tanta frequência que eles começam a perder qualquer significado ou importância.

Por esse motivo, com frequência me vejo atraído pelos seus momentos mais serenos. Na primeira vez que Trump usou um teleprompter, eu o fotografei olhando diretamente para as palavras refletidas no vidro transparente, direto para minha câmera. Após meses criticando sua oponente por usar um e ter se visto em apuros com seus discursos improvisados, o candidato parecia mortificado por ter que contar com um.

Damon Winter/The New York Times


Apesar de todas as limitações ao nosso acesso na campanha, Trump concordou em se sentar para retratos comigo em três ocasiões nesse período. Durante essas sessões ele sempre foi cordial e agradável, mas tinha ideias bem firmes sobre como queria ser mostrado. Meu maior desafio foi superar seu repertório padrão de poses e a expressão franzida que parece gostar mais. Em uma sessão de fotos em sua sede de campanha, sua equipe deu uma mão e passou a aplaudi-lo enquanto jogávamos uma grande quantidade de confete vermelho e azul sobre ele.

Damon Winter/ The New York Times


Em uma das últimas fotos, quando os aplausos e vivas pararam e ele saiu do palco em meio aos últimos confetes, eu vi Trump em um momento que permitiu um vislumbre da sensação ao sair de sob os holofotes e de quando a festa acabou.

Eu descobri que alguns dos retratos mais reveladores nem sempre mostram o rosto da pessoa. Uma foto que tirei em Greensboro, Carolina do Norte, mostrando Trump diante de uma bandeira americana pouco iluminada, com apenas um dedo apontado e seu icônico cabelo dourado visível, é um dos retratos mais reveladores que fiz dele, não apenas pelo que é mostrado, mas principalmente pelo que está oculto.

Damon Winter/ The New York Times


Inicialmente relutei em cobrir outra eleição, mas percebi rapidamente que neste ano era mais importante do que nunca estar em ação com um olho vigilante, refletido e crítico. À medida que endureciam as restrições à imprensa, eu senti que era meu dever em todo momento possível subvertê-las, encontrar fotos que fossem honestas e reveladoras. Toda situação, independente de quão controlada, planejada ou mundana, era uma oportunidade para fazer algo real.

Sei que não posso explicar as notícias do dia da forma como fazem nossos redatores, mas o que posso fazer é ajudar o leitor a sentir como é estar lá e tirar fotos com um significado além dos objetos enquadrados.

Meu papel não é fazer o candidato parecer bem ou fazer o público parecer impressionante. Meu trabalho é contar a história.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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