'É seguro?' Alunos estrangeiros reconsideram estudar nos EUA sob Trump

Nida Najar e Stephanie Saul

Em Nova Déli (Índia)

  • Vivek Singh/NYT

    Naina Lavakare, aluna do último ano da Escola Britânica em Nova Déli, descartou universidades de Estados republicanos por estar preocupada com o discurso anti-imigrantes de Trump

    Naina Lavakare, aluna do último ano da Escola Britânica em Nova Déli, descartou universidades de Estados republicanos por estar preocupada com o discurso anti-imigrantes de Trump

Em uma feira universitária na quarta-feira (16) no hotel Le Méridien daqui, 20 universidades americanas apresentaram suas propostas para estudantes potenciais, muitos dos quais há muito esperavam estudar nos Estados Unidos. Mas, enquanto eles conferiam as apresentações de diversas instituições de ensino americanas, variando da Universidade Estadual de Nova York, em Binghamton, até a Universidade Cristã de Abilene, no Texas, vários expressaram preocupações em ir para os Estados Unidos sob um governo Donald Trump.

"É o principal tema de conversa entre meus amigos", disse Palak Gera, 21, que está se candidatando a programas de pós-graduação em ciência farmacêutica na Carolina do Norte, em Illinois e em Dakota do Norte. "Eles não querem ir para os Estados Unidos sob Trump."

Aman Kumar, 18, que está procurando por universidades na Califórnia, disse: "Em sua campanha, ele discriminou contra muçulmanos e outras pessoas de pele morena e escura", acrescentando, "assim, estou pensando em ir para o Canadá".

Neste ano, o número de estudantes estrangeiros nas faculdades americanas ultrapassou 1 milhão pela primeira vez, trazendo mais de US$ 32 bilhões por ano para a economia e injetando dinheiro em faculdades em dificuldades financeiras.

As autoridades responsáveis pelas admissões nas faculdades americanas alertam que é cedo demais para conclusões a respeito dos pedidos de admissão por estrangeiros, porque os prazos geralmente terminam em janeiro e fevereiro. Mas temem que a eleição de Trump como presidente possa resultar em um declínio dos candidatos estrangeiros.

As universidades canadenses já detectaram um aumento no interesse por estrangeiros após a eleição.

"Vimos um aumento dos requerimentos de matrícula por parte de estudantes americanos e estrangeiros na última semana", disse Jocelyne Younan, diretora de recrutamento global de estudantes da Universidade McGill, em Montreal, por e-mail. "Também vimos um aumento de estudantes perguntando sobre a McGill nas redes sociais."

O tráfego na página do site da Universidade de Toronto para candidatos estrangeiros aumentou um dia depois da eleição, disseram representantes de lá, sendo que grande parte do interesse era por americanos.

"As visitas por americanos ao nosso site de recrutamento costuma ser em torno de 1.000 por dia", disse Ted Sargent, o vice-presidente da universidade. "Em 9 de novembro, esse número saltou para 10 mil."

Kim Raff/NYT
Diretores da Universidade Estadual de Idaho estão preocupados com série de transferências de alunos, muitos deles sauditas, ocorrida neste ano
No mesmo dia, houve um aumento de visitantes do Reino Unido e da Índia, disse Sargent.

"Nossa mensagem positiva como universidade, assim como uma cidade e país, com certeza envolve abertura a pessoas de todo o mundo e verdadeira inclusividade", ele disse.

Uma disrupção no fluxo de estudantes estrangeiros poderia ser particularmente preocupante para universidades que equilibram seus livros contábeis com a receita de estudantes estrangeiros, que geralmente pagam valores mais altos.

Na Universidade Estadual de Indiana, 1.000 dos 13.500 alunos são estrangeiros, incluindo muitos sauditas que se transferiram neste ano da Universidade Estadual de Idaho, e seus diretores estão preocupados, disse Santhana Naidu, vice-presidente associado para comunicações e marketing.

"Nós já recebemos perguntas de alunos potenciais que estão no pool de candidatos", disse Naidu. "Eles perguntam, 'É seguro para mim ir para aí?', geralmente buscando saber o estado das coisas." Naidu estará entre as autoridades da universidade que se reunirão nesta semana em Terre Haute para determinar o que podem fazer para tranquilizar os candidatos.

Scott Manning, o diretor de programas globais da Universidade de Susquehanna, uma instituição de artes liberais em Selinsgrove, Pensilvânia, disse que soube antes da eleição que dois alunos potenciais da China estavam aguardando até depois da votação para apresentar os documentos necessários para cursar a faculdade.

"Eles estavam um tanto assustados com as ameaças feitas por Trump a respeito do Mar do Sul da China, a discussão com o Japão em torno de algumas ilhas desabitadas e questões de comércio em geral", disse Manning.

Os alunos, que estavam considerando o programa de língua inglesa com início em janeiro, como precursor para o início do ano letivo em setembro, ainda não apresentaram os documentos, segundo ele.

Representantes da Universidade Estadual de Ohio disseram que é cedo demais para saber qual será o efeito da eleição sobre os alunos estrangeiros, acrescentando que até o momento houve um aumento neste ano, apesar de grande parte disso ter ocorrido antes da eleição.

A presença de alunos estrangeiros é historicamente afetada por forças sociais. Acredita-se que ataques contra estudantes indianos na Austrália em 2009 e 2010 tenham sido em parte responsáveis por uma queda acentuada de candidatos da Índia.

Especialistas em ensino internacional levantaram em maio a preocupação com a eleição de Trump, quando um estudo foi apresentado em uma reunião da Associação de Educadores Internacionais (Nafsa), indicando que uma presidência de Trump poderia dissuadir estudantes estrangeiros de virem aos Estados Unidos.

O estudo, pela Intead e FPP EDU Media, duas empresas especializadas no recrutamento de estudantes estrangeiros para as instituições de ensino superior, apontou que 60% dos alunos estrangeiros potenciais teriam uma probabilidade menor de cursar uma faculdade nos Estados Unidos caso Trump fosse eleito.

"Nós ficamos realmente surpresos, mas não chocados, com os resultados", disse Benjamin Waxman, presidente-executivo da Intead.

Mais recentemente, especialistas em educação internacional que estiveram na China e na Índia, os dois países que mais enviam estudantes para as faculdades americanas, também disseram ter percebido preocupações após a eleição.

Andrew Chen, o diretor-chefe de desenvolvimento da WholeRen, uma empresa de consultoria de educação internacional em Pittsburgh, voltou da China para os EUA nesta semana. Ele percebeu ali que faculdades de outros países estavam tentando explorar o temor a respeito de Trump.

"Mais organizações e programas estão começando a usar isso para promover o ensino no Reino Unido, Austrália e Cingapura", disse Chen. "Esses concorrentes pintam os EUA como não sendo seguros. Agora, com Trump, estão dizendo que será inamistoso."

Mas Chen disse acreditar que o temor dos estudantes estrangeiros é infundado. "Ele não gosta de refugiados do Oriente Médio, e disse que quer realizar uma checagem de antecedentes para todos os muçulmanos", disse Chen. "E também pessoas do México. Ele não gosta dessas pessoas."

Chen acrescentou: "Mas não acho que ele disse não gostar de estudantes estrangeiros que pagam para estudar nos EUA".

Rahul Choudaha, um consultor de educação internacional em Nova Jersey, viajou ao longo da última semana pela Índia, onde disse que há uma preocupação palpável entre os estudantes e seus pais.

"Eles não veem mais os EUA como um destino seguro", disse Choudaha, fundador da interEdge, uma empresa que ajuda estudantes estrangeiros. "Eles agora estão optando pela Austrália ou Cingapura."

"É o tom anti-imigrantes", ele acrescentou. "Em termos de estilo, ele parece ser uma pessoa muito diferente do que as pessoas imaginam assumindo a liderança na América."

Vivek Singh/NYT
Com eleição de Trump, Naina Lavakare pensa, agora, em estudar em alguma universidade do Reino Unido ou do Canadá
Enquanto preparava seus requerimentos para universidades americanas de prestígio, Naina Lavakare, uma aluna do último ano da Escola Britânica em Nova Déli, desenvolveu um plano B.

"Era uma brincadeira na família", disse a mãe de Lavakare, Jyoti Pande. "Você pode tentar se matricular onde quiser. Mas se Trump chegar à Casa Branca, não sabemos se vamos querer enviar você para os EUA."

Lavakare, 17, ajustou suas aspirações universitárias. Apesar de ainda ter várias faculdades americanas em sua lista, em Nova York, Califórnia e Rhode Island, ela descartou as universidades nos Estados republicanos para se concentrar em outras no Reino Unido e no Canadá, disse sua mãe, por estar preocupada com o discurso anti-imigrantes de Trump.

Segundo Pande, Lavakare e suas amigas "veem Trump como intolerante e misógino". Ela acrescentou: "Acho que é o que mais as assusta do que qualquer outra coisa".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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