Violência de gangues impulsiona fuga de famílias na América Central

Kirk Semple

Em Tapachula (México)

  • Mauricio Lima/The New York Times

    Família de imigrantes de El Salvador em um abrigo na Cidade do México

    Família de imigrantes de El Salvador em um abrigo na Cidade do México

Ir embora de El Salvador nunca esteve nos planos de Alberto. Ele e sua mulher tinham empregos estáveis, além de amigos e familiares solidários, e seus cinco filhos eram felizes.

Mas uma gangue local tentou recrutar um dos filhos de Alberto como avião de tráfico e o espancou quando ele resistiu, segundo a família. O líder de uma gangue se aproximou de sua filha quando esta tinha 10 anos de idade, e disse a ela que iria torná-la sua namorada. Depois Alberto e sua família receberam um telefonema ameaçando matá-los se eles não entregassem os filhos para a gangue. O corpo de um menino até apareceu na rua, na frente da casa deles.

A família fugiu para o norte, levando somente o que conseguissem carregar.

"Não podemos simplesmente entregá-los para a gangue", disse Alberto sobre seus filhos, sentado junto com sua família em um abrigo de Tapachula, uma pequena cidade mexicana perto da fronteira guatemalteca. (Assim como outros imigrantes entrevistados, Alberto e sua família pediram para que seus sobrenomes não fossem revelados, por medo de serem encontrados por seus perseguidores.)

A violência das gangues de El Salvador, Honduras e Guatemala combinada a uma situação financeira desesperadora levou a um êxodo inexorável de imigrantes, incluindo famílias inteiras, em busca de segurança em outros países, principalmente nos Estados Unidos.

Apesar de esforços feitos para reforçar fronteiras regionais e atacar pela raiz as causas do êxodo com o apoio dos Estados Unidos, oficiais americanos e de outros países dizem que os números da imigração estouraram nos últimos anos.

"É realmente uma crise de refugiados", diz Perrine Leclerc, diretor do escritório local para a agência de refugiados da ONU em Tapachula.

No ano fiscal de 2016, que terminou em setembro, quase 409 mil imigrantes foram pegos tentando cruzar a fronteira sudoeste dos Estados Unidos ilegalmente, um aumento de 23% em relação ao ano fiscal anterior, de acordo com estatísticas divulgadas pela administração Obama. Oficiais dizem que o aumento refletia o número crescente de pessoas indo para o norte, e não qualquer grande mudança no controle.

A tendência se manteve durante todo o mês de outubro, de acordo com números divulgados na quinta-feira por oficiais da imigração americana: mais de 46 mil pessoas foram pegas no mês passado na fronteira sudoeste, ante cerca de 39.500 em setembro.

O fluxo recente foi particularmente notável pelo número atípico de imigrantes da América Central viajando em família. No ano fiscal mais recente, cerca de 77.700 imigrantes pegos na fronteira sudoeste dos Estados Unidos estavam viajando em família, um número quase duas vezes maior dos que foram detidos em família no ano anterior. Cerca de 91% de todos esses imigrantes eram de El Salvador, Honduras e Guatemala, uma região conhecida como o Triângulo Norte.

Como parte de sua campanha presidencial, Donald Trump prometeu uma abordagem impiedosa em relação à imigração ilegal, incluindo a construção de um muro ao longo da fronteira com o México e um aumento no número de deportações que superaria até mesmo o recorde do presidente Barack Obama.

Agora, entre a série de desafios a respeito da imigração que ele terá de enfrentar uma vez que assuma o cargo, Trump terá de lidar com essa onda de imigrantes, uma questão que foi assoberbante não só para oficiais de fronteira americanos, como também para governos de toda a região.

Alguns oficiais americanos aventaram a teoria de que talvez algumas famílias estejam migrando juntas na esperança de que os adultos tenham uma chance maior de evitar a detenção nos Estados Unidos caso tentem entrar com crianças.

Mauricio Lima/The New York Times
Imigrantes de Honduras em Tapachula, no México

Mas entrevistas feitas com imigrantes e defensores da causa sugerem que as famílias estão fugindo, às vezes em grupos de até 15 pessoas, porque elas não têm alternativas. As gangues em certas comunidades no Triângulo Norte se tornaram tão cruéis, com um controle tão extenso, que muitas vezes uma família se vê diante de uma dura escolha: obedecer, fugir ou morrer.

"Hoje a violência está disseminada, e por estar disseminada está afetando famílias inteiras", diz Diego Lorente, diretor da Fray Matías de Córdova Human Rights Center, em Tapachula.

Quase todos os imigrantes disseram que nunca tinham tido a intenção de ir embora de seus países.

Com o aumento da violência e da impunidade no Triângulo Norte, também aumentou o número de pedidos de asilo vindos desses países, de acordo com a ONU. Quase metade desses solicitantes de asilo neste ano procurou refúgio nos Estados Unidos. Mas os imigrantes estão cada vez mais considerando outros países na região, incluindo Belize, Costa Rica e especialmente o México, como destinos onde pedir asilo.

O governo mexicano, por pressão internacional, tem expandido sua capacidade para receber refugiados. Seu índice de anuência para pedidos submetidos aumentou para cerca de 62% nos primeiros seis meses do ano, ante cerca de 45% em 2015.

Oficiais da ONU e representantes de imigrantes locais acreditam que das centenas de milhares de imigrantes da América Central que entraram no México ano passado, metade pode ter direito à proteção concedida para refugiados.

No entanto, somente cerca de 3.400 pessoas pediram asilo no México, de acordo com números do governo. Em comparação, quase 177 mil centro-americanos foram deportados por autoridades de imigração mexicanas no ano passado.

Os abrigos para imigrantes em Tapachula estão cheios, e defensores da causa estão lutando para abrigar o número crescente de famílias que chegam aqui, seja como uma parada em sua jornada até os Estados Unidos, seja como um lugar para entrar com o pedido de asilo.

"Tapachula é o primeiro lugar aonde eles chegam com uma percepção de segurança", diz Lorente.

Mauricio Lima/The New York Times
Imigrantes de Honduras e El Salvador em abrigo em Tapachula, no México

Os imigrantes contam histórias de assassinatos pavorosos, de como gangues recrutaram meninos como sentinelas e aviões de traficantes e forçaram garotas a se casar com eles. Eles falam em "impostos de guerra", que às vezes chegam a corresponder a metade de sua renda. Quem não obedece, morre. "É uma carnificina", diz Leclerc.

Bairros inteiros agora se encontram sob controle das gangues, incentivadas por funcionários públicos corruptos que constam em suas folhas de pagamento. Vários imigrantes dizem não ter denunciado crimes para a polícia, por temerem que a polícia informe as gangues.

A maioria deles diz que deixaram suas casas sem entender, ou até mesmo conhecer, a política de asilo em outros países, somente com uma determinação de encontrar um lugar mais seguro para viver.

Fatima, 19, conta ter fugido de El Salvador depois que membros de uma gangue mataram seu marido, um aprendiz de mecânico, e a ameaçaram também. Viajando com seu filho de 2 anos e dois parentes próximos, ela esperava chegar à casa dos pais de seu falecido marido no Estado mexicano de Puebla.

As mulheres não sabiam nada sobre as políticas de asilo na região. Então quando oficiais de imigração as pegaram, elas não sabiam que podiam explicar sua situação, segundo elas, e os oficiais de imigração nunca perguntaram por que elas estavam imigrando.

As mulheres dizem que elas e seus filhos haviam sido deportados de volta para El Salvador, mas imediatamente voltaram para o México. Eles foram capturados de novo, mas dessa vez, Fatima conta, ela viu pôsteres da ONU na parede anunciando o programa de asilo do México.

"Nunca passou pela minha cabeça ir embora de meu país", ela disse em um abrigo para imigrantes na Cidade do México.

Tradutor: UOL

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos