Piratas fluviais aterrorizam barcos na Amazônia: "Não há lei"

Simon Romero

Em Macapá (Brasil)

  • Dado Galdieri/The New York Times

    Barcos de pesca se aproximam do porto de Santana, próximo à cidade de Macapá (AP)

    Barcos de pesca se aproximam do porto de Santana, próximo à cidade de Macapá (AP)

Os piratas do rio Amazonas gostam de atacar após o anoitecer.

Usando balaclavas, 15 dos saqueadores invadiram o barco de Merinaldo Paiva, enquanto dezenas de seus passageiros descansavam em suas redes. De repente, eles acordaram com fuzis apontados para suas cabeças.

Os homens armados levaram dinheiro, joias, celulares, combustível e até mesmo comida, forçando todos a ficarem deitados de bruços no convés. Então desapareceram em lanchas no Amazonas, um rio tão vasto que alguns na fronteira do Brasil o chamam de rio-mar.

"Todo capitão de barco fluvial sabe que está à mercê desses bastardos", disse Paiva, o capitão de 41 anos, que trabalha nos rios da floresta tropical brasileira desde a adolescência.

"Tivemos sorte de não ter sido pior", ele acrescentou sobre o assalto em abril, listando outros ataques nos quais passageiros foram estuprados, torturados ou mortos.

Dado Galdieri/The New York Times
Barco navega pelo rio Amazonas próximo a Santana

A pirataria há muito faz parte da vida nos rios da anárquica selva do Brasil. Mas à medida que cresce a população na Amazônia e gangues de drogas expandem seu controle sobre a região, aumentaram as oportunidades de assalto.

E já que as forças policiais estão tendo dificuldade em acompanhar o aumento da criminalidade, isso culmina em uma série de ataques recentes que estão aterrorizando as tripulações das embarcações fluviais e seus passageiros.

Em outubro, quatro piratas mascarados armados com fuzis tomaram uma embarcação de combustível no rio Solimões e roubaram mais de 10 mil litros de diesel, além de dinheiro relógios e roupas da tripulação.

Em setembro, 10 homens mascarados tomaram uma embarcação de passageiros perto da cidade de Belém (PA), roubando 260 passageiros ao mesmo tempo. Os agressores usaram uma mulher a bordo como escudo humano durante sua ação.

Dado Galdieri/The New York Times
Soldado do Grupo Tático Aéreo faz patrulha próximo ao porto de Santana
No mês anterior, a polícia divulgou um vídeo de homens de uma tripulação, autointitulada Piratas do Rio Solimões, interrogando um gângster rival ao lado de um cadáver, deixando preocupados os moradores ribeirinhos de toda a bacia do Amazonas.

Em um caso anterior perto da cidade de Manaus, Huederson Paulino, um pirata conhecido pelo nome de guerra de Moicano, confessou ter matado e desmembrado dois homens em um barco que vendia sal e gelo. Ele liderou a gangue que roubou dinheiro e combustível das vítimas, e disse que sua meta era conseguir dinheiro para gastar no Natal.

"Estava precisando de dinheiro, então fiz o que era melhor para mim", disse Paulino, 24 anos, aos repórteres.

O crescente alarme com a pirataria acompanha as rápidas mudanças na região. Longe de uma vastidão vazia de floresta tropical pontilhada por minúsculos vilarejos, a Amazônia brasileira conta com quase 25 milhões de habitantes, com cerca de 2 milhões apenas em Manaus (AM). A população da região aumentou 22% de 2000 a 2010, segundo números do Censo, quase o dobro da taxa do país como um todo.

Mas a Amazônia também é uma das regiões mais pobres do Brasil e o crime organizado se disseminou, alimentando uma sensação de ausência de lei na vasta bacia do rio. Em vilarejos remotos às margens do rio, moradores se queixam de que as embarcações da polícia raramente se aventuram até onde ocorrem muitos dos ataques dos piratas.

Dado Galdieri/The New York Times
PM faz busca em barco no rio Amazonas próximo a Macapá
As autoridades dizem que estão se esforçando. Aqui em Macapá (AP), uma cidade de 370 mil habitantes no Norte do Brasil, um esquadrão de elite de policiais em fardas de camuflagem do Batalhão Ambiental patrulha regularmente o rio Amazonas à procura de piratas, com frequência chamados de ratos d'água no jargão local.

"Assim como ladrões de estrada atacam os viajantes em outras partes do Brasil, piratas são o flagelo que enfrentamos aqui na Amazônia", disse o tenente coronel Protásio Barriga Caldas, 47 anos, comandante do Batalhão Ambiental do Estado do Amapá, que conta com 135 membros.

Ladrões atacam nesses rios há anos. Em um caso notório, piratas mataram a tiros sir Peter Blake, um iatista campeão mundial da Nova Zelândia, em 2001. Homens armados tomaram seu iate, o Seamaster, e roubaram e atacaram a tripulação. Blake conseguiu atirar na mão de um dos assaltantes, mas morreu após ser baleado no pulmão e coração.

Atualmente, com mais alvos nos rios e mais grupos criminosos envolvidos, os operadores de embarcações no rio alertam que os piratas estão se tornando ainda mais impiedosos e sofisticados.

Em um caso neste ano, a polícia no Estado do Amazonas capturou José Conceição de Souza, um pirata que confessou ter matado dois narcotraficantes colombianos e roubado cerca de 260 quilos de cocaína que os traficantes levavam de barco para Manaus.

Dado Galdieri/The New York Times
Policiais voltam a seu barco depois de fazer buscas por desmatamento ilegal próximo a Macapá
Galdino Alencar, o presidente do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas, disse que os piratas cada vez mais visam navios transportando grandes cargas para a crescente população amazônica, incluindo gás de cozinha, eletroeletrônicos, cimento e carne seca. Mas a carga mais cobiçada pelos piratas, ele disse, é combustível.

"É um produto que podem roubar e vender para os garimpeiros que operam ilegalmente na floresta", disse Alencar. Ele acrescentou que os piratas também estão aumentando os ataques às embarcações ancoradas em grandes cidades como Manaus, o que tem feito sua organização pedir pela criação de uma força policial fluvial federal.

Caldas disse que os piratas costumam viajar em lanchas, o que lhes dá mais rapidez e agilidade do que os barcos fluviais mais pesados. Ele acrescentou que eles costumam vir de áreas urbanas pobres ou vilarejos ribeirinhos remotos, e atacam os moradores da floresta que dependem das embarcações fluviais para comprar comida, visitar parentes ou conseguir atendimento médico nas cidades amazônicas.

Patrulhar os colossais rios da Amazônia à procura de piratas pode lembrar um jogo fútil de gato e rato. Em uma missão fluvial em outubro, policiais interrogaram os moradores de um vilarejo perto do Porto de Santana que descreveram viver sob constante medo dos piratas.

"Não há lei no rio Amazona", disse Odete Souza França, 49 anos, cuja família ganha a vida com pesca e com o cultivo de açaí, um cobiçado fruto muito consumido aqui. Ele descreveu um ataque recente no qual piratas tomaram a canoa de seu filho de 17 anos, o amarraram e roubaram seu aparelho de GPS e o cilindro de gás de cozinha.

Dado Galdieri/The New York Times
Antonio, 12, se equilibra nas docas enquanto vende comida em Santana, próximo a Macapá
Pegar os culpados envolve imensos desafios.

Para começar, os rios da bacia do Amazonas cortam uma região quase do tamanho dos Estados Unidos. As embarcações nos principais rios podem passar dias sem ver uma embarcação da polícia ou da Marinha. Os piratas com frequência conhecem melhor os rios e o terreno ao redor do que as forças de segurança, e podem sumir de vista em vilarejos remotos.

Os policiais aqui no Estado do Amapá também se queixam que os piratas com frequência realizam seus ataques em um Estado, apenas para cruzar a divisa para um Estado vizinho, com jurisdição diferente.

"Pegar os piratas é como travar uma guerra contra guerrilheiros", disse o capitão Lúcio Lima, o chefe de uma unidade das operações especiais da força policial do Amapá que caça os bandidos fluviais. "Eles são adversários esquivos que exploram ao máximo seu conhecimento das correntes dos rios, geografia e topografia."

Quando dois exploradores poloneses, Dawid Andres, 41 anos, e Hubert Kisinski, 33 anos, percorreram todo o curso do rio Amazonas neste ano em bicicletas adaptadas em flutuadores, eles enfrentaram desafios que variaram de águas infestadas de piranhas a redemoinhos.

"É coisa de pesadelo quando uma tripulação usando Ray-Bans e empunhando armas enormes aborda você no rio", disse Kisinski. Lembrando um episódio, ele disse que ele e Andres explicaram calmamente que estavam viajando sem itens de valor, e então perguntaram aos piratas se tinham alguma cerveja para aliviar o estresse da situação.

"Eles então se acalmaram um pouco, até mesmo começaram a rir", disse Kisinski. "É preciso manter a cabeça fria ao lidar com os piratas no Amazonas."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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