Trump recua em pelo menos 3 pontos após eleição, mas se mantém inflexível em outros

Michael D. Shear, Julie Hirschfeld Davis e Maggie Haberman

Em Nova York (EUA)

  • Hiroko Masuike/The New York Times

    Donald Trump em encontro com jornalistas, editores e executivos do "New York Times"

    Donald Trump em encontro com jornalistas, editores e executivos do "New York Times"

O presidente-eleito dos EUA, Donald Trump, abrandou na terça-feira (22) algumas de suas promessas de campanha mais radicais, abandonando sua promessa de prender Hillary Clinton, manifestando dúvida sobre o valor de torturar suspeitos de terrorismo e prometendo ser mais aberto em relação à mudança climática.

Mas em uma entrevista abrangente com repórteres e editores de "The New York Times", que durou uma hora --havia sido marcada, cancelada e depois remarcada após uma discussão sobre as regras--, Trump não se desculpou por desprezar algumas das tradições éticas e políticas que há muito moldam a Presidência dos EUA.

Ele disse que não tem obrigação jurídica de estabelecer limites entre seu império comercial e sua Casa Branca, admitindo que a marca Trump "certamente está mais quente do que era antes". Mas disse que tentará descobrir uma maneira de se afastar de seus negócios, que serão conduzidos por seus filhos.

Defendeu seu estrategista-chefe, Stephen K. Bannon, contra acusações de racismo, chamando-o de "um sujeito decente". E ironizou os republicanos que não o apoiaram em sua campanha presidencial heterodoxa.

Hiroko Masuike/The New York Times
Trump nos corredores do "New York Times", onde se encontrou com a direção do jornal

Na reunião por volta do meio-dia no 16º andar, na sala de conferências do editor-chefe do "Times", Arthur Sulzberger Jr., Trump parecia confiante mesmo quando disse estar assombrado com seu novo emprego. "É um cargo avassalador, mas não me sinto oprimido", disse.

Ele exibiu impulsos confusos, muitas vezes conflitantes. Foi magnânimo em relação a Hillary Clinton, mas fanfarrão sobre sua vitória. Mostrou-se aberto em relação a algumas de suas posições, inflexível sobre outras.

A entrevista demonstrou a volatilidade das posições de Donald Trump.

Ele disse que não tem interesse em pressionar para que Hillary seja processada pelo uso de um servidor privado de e-mail ou por atos financeiros cometidos pela Fundação Clinton.

"Não quero prejudicar os Clinton, realmente não quero", afirmou.

Sobre a questão da tortura, Trump sugeriu que mudou de ideia sobre o valor da ameaça de afogamento ("waterboarding") depois de falar com James Mattis, um general aposentado dos Fuzileiros Navais que chefiou o Comando Central dos EUA.

"Ele disse: 'Nunca o achei útil'", explicou Trump. E acrescentou que Mattis encontrou maior valor em conquistar a confiança e recompensar a cooperação com os suspeitos de terrorismo: "'Me dê um maço de cigarros e algumas cervejas e eu farei melhor'. Fiquei muito impressionado com essa resposta", disse Trump.

A tortura, segundo ele, "não vai fazer tanta diferença quanto muita gente pensa".

Trump repetiu que Mattis está sendo "muito seriamente considerado" para ser o secretário da Defesa. "Acho que talvez esteja na hora de um general", disse.

Sobre a mudança climática, Trump se recusou a repetir sua promessa de abandonar o acordo internacional sobre o clima, fechado no ano passado em Paris, dizendo: "Estou a examiná-lo detalhadamente".

Apesar da recente nomeação para sua equipe de transição de um feroz crítico dos acordos de Paris, Trump disse ter "a mente aberta sobre isso" e que o ar limpo e a "água cristalina" são vitalmente importantes.

Ele apresentou garantias de que não pretende adotar posições radicais em certas áreas. Condenou uma conferência nacionalista branca no último fim de semana em Washington, cujos participantes fizeram a saudação nazista e criticaram os judeus.

Indagado sobre seu antagonismo com a mídia noticiosa e sua promessa de endurecer as leis de difamação, o presidente-eleito não deu detalhes, mas disse ao grupo: "Acho que vocês ficarão contentes".

Apesar de seus frequentes ataques ao que ele chamou de "The New York Times em falência", Trump pareceu se esforçar para elogiar a instituição, que chamou de "uma grande joia americana, uma joia mundial". Mas disse acreditar que o "Times" foi duro demais com ele durante a campanha.

Hiroko Masuike/The New York Times
Donald Trump cumprimenta Dean Baquet, editor executivo do "New York Times"

Pressionado a responder a críticas em outras áreas, foi desafiador. Declarou que "a lei está totalmente do meu lado" quando se trata de questões sobre conflito de interesses e leis de ética.

"O presidente não pode ter um conflito de interesses", afirmou.

Trump disse que seria extremamente difícil vender suas empresas porque são holdings imobiliárias. Afirmou que "gostaria de fazer alguma coisa" e criar algum tipo de arranjo para separar seus negócios de seu trabalho no governo. Ele comentou que havia entregue a administração de suas empresas a seus filhos, o que os advogados especializados em ética dizem não ser suficiente para evitar conflitos de interesse.

Trump insistiu que ainda poderá convidar parceiros de negócios à Casa Branca para tirar fotos. Disse que os críticos o estão pressionando a ir além do que ele pretende fazer, incluindo distanciar-se de seus filhos enquanto estiverem na direção de seus negócios.

"Se fosse pela vontade de certas pessoas, eu nunca mais veria minha filha Ivanka", disse.

Trump não negou relatos de que usou uma reunião na semana passada com Nigel Farage, o líder do Partido pró Independência do Reino Unido, para declarar sua oposição às fazendas eólicas em alto-mar. Trump há muito se queixou de que esses parques prejudicariam a vista de seu campo de golfe em Aberdeenshire, na Escócia.

"Eu posso ter puxado o assunto", disse Trump, que depois afirmou tê-lo feito por preocupações políticas sobre parques eólicos, e não por algum interesse pessoal.

Hiroko Masuike/The New York Times

O presidente-eleito rejeitou a ideia de que seja impedido pelas leis federais antinepotismo de instalar seu genro, Jared Kushner, em um cargo na Casa Branca. Mas disse que desejaria evitar a aparência de um conflito e poderia tentar fazer de Kushner um enviado especial encarregado de mediar a paz no Oriente Médio.

"O presidente dos EUA tem permissão para ter os conflitos que ele ou ela quiser, mas eu não quero fazer isso", disse Trump. Mas afirmou que Kushner, que é um judeu praticante, "poderia ser muito útil" na reconciliação da antiga disputa entre israelenses e palestinos.

"Eu adoraria ser a pessoa que fez a paz com Israel e os palestinos", declarou Trump, acrescentando que Kushner "seria muito bom nisso" e que "ele conhece a região".

"Muita gente me diz, pessoas realmente ótimas, me dizem que é impossível --você não pode fazer isso", acrescentou Trump. "Eu discordo. Acho que você pode fazer a paz."

"Tenho razões para acreditar que eu posso", acrescentou.

Trump falou só em termos gerais sobre política externa. Disse que os EUA não devem ser um "construtor de nações", repetiu sua fala da campanha de que lutar a guerra no Iraque foi "um dos grandes erros na história de nosso país" e que tem algumas "ideias muito fortes" e "definitivas" sobre como lidar com a violenta guerra civil que devasta a Síria. Ele não quis dizer quais são essas ideias, apesar de vários pedidos nesse sentido.

"Temos de pôr fim a essa loucura que está acontecendo na Síria", disse.

Vitória em Estados-chave fez de Trump o 45º presidente dos EUA

O presidente-eleito afirmou que conversou com o presidente russo, Vladimir Putin, depois que venceu a eleição, mas não deu detalhes. Disse que seria "bom" que ele e Putin se entendessem, mas rejeitou a ideia de que um aquecimento das relações seria chamado de "reinício", comentando a crítica que Hillary recebeu depois que suas tentativas de melhorar as relações entre os países fracassaram.

"Eu não usaria esse termo depois do que aconteceu", disse Trump.

Ele fez uma defesa intensa de Bannon, que nomeou seu principal estrategista e que atraiu acusações de racismo e antissemitismo. Neste verão, Bannon chamou o site Breitbart News, o qual dirige, de "a plataforma da direita alternativa", um movimento branco nacionalista.

Trump disse que Bannon ficou decepcionado com a reação a sua contratação.

"Conheço Steve Bannon há muito tempo. Se eu achasse que ele é racista ou da direita alternativa eu nem pensaria em contratá-lo", disse.

E acrescentou: "Acho que ele está enfrentando dificuldades com isso porque [esse] não é ele. Acho que está sendo tratado muito injustamente".

Trump também defendeu o Breitbart, que divulgou conteúdo racista e antissemita, dizendo que não difere do "Times", só que "muito mais conservador".

Trump declarou que espera desenvolver um "ótimo e duradouro relacionamento" com o presidente Barack Obama, com quem disse que teve um entendimento inesperado.

"Eu realmente gostei muito dele, e estou um pouco surpreso de estar dizendo a vocês que realmente gostei muito dele", afirmou Trump.

E gabou-se por ter contestado as pesquisas e as expectativas de seu próprio partido ao ganhar a Presidência, e de que se vingou dos republicanos que o mantiveram à distância e depois perderam suas próprias corridas.

Trump disse que um deles, a senadora Kelly Ayotte, de New Hampshire, "adoraria ter um cargo no governo".

"Eu disse 'Não, obrigado'", afirmou sobre Ayotte, que perdeu o lugar no Senado para a governadora de New Hampshire, Maggie Hassan. "Ela se recusou a votar em mim."

Ele também criticou o deputado Joe Heck, de Nevada, que vacilou sobre apoiar Trump depois que surgiu uma gravação de 11 anos atrás em que Trump se gabou em termos obscenos de bolinar mulheres sem seu consentimento.

"Ele caiu como um balão de chumbo", disse Trump sobre Heck. "Eu disse: 'Aqui entre nós: espero que você perca'."

O presidente-eleito disse que os líderes republicanos se sentem endividados com ele por sua vitória surpreendente. "Agora eles estão apaixonados por mim", afirmou. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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