Principal aposta para diplomacia, Giuliani tem visão de mundo moldada pelo 11 de Setembro

Alan Feuer e Marc Santora

  • Matt York/AP

Em outubro de 1995, o líder palestino Yasser Arafat se acomodou em uma cadeira no Lincoln Center, em Manhattan, para assistir a uma apresentação da Nona Sinfonia de Beethoven. Mas, antes que começasse o terceiro movimento, pediram a Arafat que se retirasse.

A ordem viera de cima, dada por Rudolph W. Giuliani, prefeito de Nova York na época. E embora a administração Clinton tenha se referido à expulsão como "uma vergonha para qualquer um que tivesse ligação com a diplomacia", Giuliani não se comoveu. No dia seguinte, chamando Arafat de terrorista e de assassino, ele disse: "Eu não convidaria Yasser Arafat para nada, em nenhum momento, em nenhum lugar. Eu não me esqueço."

Os prefeitos de Nova York não costumam conduzir política externa, mas Giuliani, que, segundo assessores de Donald Trump, é o principal nome cogitado para se tornar secretário de Estado do presidente eleito, nunca deixou uma questão como jurisdição política ficar em seu caminho.

Em seus oito anos como prefeito, Giuliani praticou uma forma própria local de relações internacionais, pedindo por tolerância após os ataques terroristas contra o World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001, mas também se recusando a jantar com Fidel Castro e ameaçando expulsar a ONU da cidade por multas não pagas de estacionamento proibido.

Depois de deixar a função pública, Giuliani aprendeu mais sobre relações internacionais, ganhando experiência como advogado internacional, consultor em segurança e candidato à presidência em 2008, ao mesmo tempo em que aperfeiçoava suas posições como uma espécie de neoconservador. Ele tem sido um defensor fiel de Israel, profundamente desconfiado em relação ao Irã e defensor de uma postura militar agressiva.

Matt Campbell/AFP
13.set.1999 - O prefeito de Nova York, Rudy Giuliani (E), e o empresário Donald Trump durante desfile de moda em Nova York

Sua experiência como ex-procurador federal e como prefeito ajudou a moldar parte de seus posicionamentos, mas foi sua experiência ao lidar com os ataques de 11 de setembro que levou ao efeito mais profundo sobre sua visão de mundo.

Para tudo, a abordagem básica de Giuliani tem sido basicamente a mesma: a paz pode ser conquistada demonstrando-se força, e a diplomacia às vezes é melhor quando conduzida de forma não-diplomática.

"Às vezes, na diplomacia, você precisa estabelecer parâmetros, não simplesmente sair dizendo que você vai ser diplomático não importa a circunstância", diz Stuart Gottlieb, professor de relações internacionais na Universidade de Columbia, que trabalhou em várias campanhas de Giuliani. "Nos anos de Obama, especialmente com John Kerry", ele acrescentou, referindo-se ao atual secretário de Estado, "muitas vezes vimos concessões e sujeições como principal princípio. Acho que Giuliani substituiria isso."

As incursões de Giuliani nas relações internacionais como prefeito muitas vezes eram intencionadas para uma plateia local. Boa parte dos líderes da comunidade judaica da cidade, por exemplo, adotaram sua rejeição a Arafat. Quanto à cruzada de Giuliano contra os diplomatas que ignoram as multas de trânsito, os nova-iorquinos via de regra se enfurecem facilmente com qualquer coisa relacionada a estacionar seus carros.

Dada a diversidade racial e étnica da cidade, Giuliani foi um defensor ávido de uma imigração aberta, uma posição que poderia complicar seu potencial trabalho com Trump. Em 1996, ele fez um discurso na Kennedy School of Government em Harvard, no qual ele falou com entusiasmo sobre seu avô, Rodolfo Giuliani, que veio da Itália para os Estados Unidos, e condenou o "movimento de anti-imigração nos Estados Unidos" por fomentar o medo, dizendo que esse é "um de nossos problemas públicos mais sérios."

Depois dos ataques de 11 de setembro, a visão de mundo de Giuliani foi dominada pelo terrorismo e, pelo menos no começo, por uma visão de futuro baseada em inclusão e unidade. Um mês após os ataques, ele falou à ONU de forma entusiasmada a respeito da diversidade racial e religiosa de Nova York. "Somos uma cidade de imigrantes diferente de qualquer outra cidade, dentro de uma nação de imigrantes", ele disse, acrescentando que "a diversidade tem sido nossa maior fonte de força."

Foi principalmente pela força dessa visão bipartida —tolerância e rigor— que Giuliani deixou a função pública e ingressou no setor privado, vendendo-se como um reformador internacional que poderia renovar os departamentos de polícia, o que foi contratado para fazer na Cidade do México, ou erradicar gangues, como ele sugeriu que fosse feito em um discurso em El Salvador.

Seus discursos e contratos privados lhe renderam milhões de dólares, e agora atraíram críticas por seus potenciais conflitos de interesses, entre eles um acordo feito por sua empresa de segurança, a Giuliani Partners, prestando consultoria para a estatal de petróleo do Qatar, um aliado dos americanos que apoiou alguns movimentos islamitas.

Quando Giuliani concorreu a presidente em 2008, ele foi zombado por seus adversários por se referir repetidamente aos ataques terroristas em Nova York. Como o vice-presidente Joe Biden disse durante sua própria campanha presidencial em 2008, havia somente três coisas que Giuliani parecia mencionar em uma frase: "Um substantivo, um verbo e o 11 de setembro."

Obama espera que Trump respeite tratados internacionais

Mas o fantasma do terrorismo continuou a guiar o pensamento de Giuliani, em sua própria campanha fracassada à Casa Branca e este ano, enquanto apoiava Trump. Em uma viagem a Londres no ano de 2007, enquanto concorria nas primárias republicanas, ele disse apoiar as decisões do presidente George W. Bush de invadir o Iraque e o Afeganistão, embora ele criticasse a forma como as guerras foram travadas.

Giuliani, um crítico veemente do acordo nuclear que os Estados Unidos firmaram com o Irã este ano, por muito tempo manifestou preocupação a respeito das intenções desse país. Mesmo quando os Estados Unidos estavam em guerra no Iraque, ele dizia que o Irã poderia representar um perigo maior.

"O Irã em muitos aspectos talvez seja, ou certamente é, mais perigoso do que o Iraque", ele disse em um comício de 2007 durante sua campanha presidencial. "Acho que essa é uma área na qual a clareza é muito importante. Tivemos guerras por falta de clareza; tivemos grandes mal-entendidos que levaram à violência por falta de clareza. Se vocês me elegerem presidente dos Estados Unidos, isso ficará muito claro para o Irã: não permitirei sob nenhuma circunstância que eles se tornem uma potência nuclear. Eles são irresponsáveis demais."

Embora Giuliani não tenha nenhuma credencial formal em política externa, ele viajou pelo mundo se encontrando com dignitários e prestando consultoria a governos estrangeiros; pelo menos uma vez, em um jato particular emprestado por Trump.

"Eu provavelmente viajei para a Europa, a Ásia e a África mais vezes nos últimos cinco ou cinco anos e meio do que qualquer uma das pessoas que estão concorrendo à presidência", ele disse em 2007. "Carreguei a responsabilidade pela segurança nos meus ombros por boa parte dos últimos 20 ou 25 anos. Eu lidei de fato com o terrorismo. Eu lidei de fato com ele em primeira mão."

Mas parte do que essa experiência lhe ensinou foi que, mesmo para um diplomata, a diplomacia tem seus limites. Na Convenção Nacional Republicana no verão passado, ele fez um discurso em apoio a Trump no qual ficou claro que sua posição já dura na política externa que ele sustentava oito anos atrás só endureceu mais após oito anos de administração Obama.

"Não devemos ter medo de definir nosso inimigo. Ele é o terrorismo extremista islâmico", disse Giuliani.

"Vocês sabem quem vocês são", ele disse, provocando aplausos. "E nós vamos pegar vocês."
 

Tradutor: UOL

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