Dois clubes, uma história: como uma guerra dividiu um time de futebol no Kosovo

James Montague*

Em Mitrovica (Kosovo)

  • James Hill/The New York Times

    Estádio Olímpico Adem Jashari em Mitrovica, Kosovo, hoje utilizado pelo KF Trepca

    Estádio Olímpico Adem Jashari em Mitrovica, Kosovo, hoje utilizado pelo KF Trepca

Mesmo entre as bandeiras, as camisas patrocinadas e todos os outros elementos do jogo moderno, Bardhec Seferi podia fechar seus olhos e ainda ver a grama na altura da cintura. 

Seferi estava no campo de futebol do Estádio Olímpico Adem Jashari, em Mitrovica, uma cidade no norte de Kosovo. Alto e agora quinquagenário, ele tinha acabado de ver o Trepca, seu antigo clube, a equipe para a qual entrou ainda menino e atuou como volante como profissional, perder para o atual campeão kosovar, o Feronikeli. 

O ex-jogador parecia desanimado. A partida foi jogada em uma tarde de meio de semana, de modo que o público era minúsculo, apenas algumas poucas centenas de pessoas. Pior, a derrota por 1 a 0 fez o clube cair para as últimas posições. Era uma pílula amarga para alguém associado a um clube orgulhoso, que nos anos 70 se tornou o primeiro time de Kosovo a jogar na primeira divisão da então Iugoslávia. 

Naqueles tempos, 20 mil torcedores compareciam para assistir uma equipe de sérvios, bósnios, croatas e kosovares albaneses jogando juntos. Mas eram outros tempos, outro país, antes das guerras que dividiram a cidade de Seferi e sua equipe. 

Hoje há dois Trepcas em Mitrovica: uma equipe kosovar albanesa no sul, chamada KF Trepca, e uma equipe kosovar sérvia no norte, chamada FK Trepca. Ambas possuem virtualmente o mesmo escudo e jogam com uniforme verde e preto. Ambas reivindicam orgulhosamente uma história que começou quando o Trepca original foi formado em 1932. E apesar de jogarem atualmente em ligas nacionais diferentes, ambas alegam ser as verdadeiras herdeiras do passado do clube. 

James Hill/The New York Times
Parte sérvia da cidade de Mitrovica, com vista para o lado sul, no Kosovo

Depois que a guerra do Kosovo de 1998 redesenhou o mapa étnico da cidade, o FK Trepca agora joga nas divisões inferiores do campeonato sérvio, removido do que considera como sendo seu estádio ancestral. O KF Trepca começou como um protesto em prol da independência antes de ingressar na recém-reconhecida federação de futebol de Kosovo, jogando em um estádio que reivindica por herança espiritual. 

"Quando voltei aqui depois da guerra, a grama estava tão alta que não dava para ver o próprio umbigo", disse Seferi sobre o campo que agora é a casa do KF Trepca, fazendo um movimento como se estivesse empunhando uma foice. "Não dava para ver nada. Então os próprios jogadores a cortaram. Mas estávamos em casa." 

Mitrovica antes era uma das cidades mais ricas e vibrantes da Iugoslávia. Uma cidade de minaretes e igrejas ortodoxas, ela tinha uma população mista albanesa e sérvia que desfrutava de emprego quase universal graças às minas próximas de Trepca, que deram nome ao clube de futebol da cidade. Até 70% do produto interno bruto anual de Kosovo vinha das minas, que produziam zinco, prata, ouro e chumbo em quantidades imensas ano após ano. 

A vasta riqueza da cidade ajudou a conduzir seu clube de futebol à primeira divisão da Iugoslávia em 1977 e à sua primeira final um ano depois. 

"Foi um dos melhores campeonatos", lembrou Seferi, que jogou nos anos 80 e 90. Os jogadores, fossem eles da Sérvia ou Bósnia, eram como uma família, ele disse. Ele mostrou orgulhosamente uma foto que mantém em seu celular; ela exibe uma versão mais jovem dele mesmo, com cabelo escuro encaracolado, marcando um gol de cabeça contra o Red Star Gjilan, diante de um grande público. 

"Nós nos dávamos bem", ele disse sobre as equipes multiétnicas que conhecia. 

Mas em 1989, o Trepca enfrentava dificuldades na terceira divisão da Iugoslávia. E a equipe logo ficaria tão dividida quanto seu país. 

Divisão e subtração 

Após a morte em 1980 do líder comunista Josip Tito, a Iugoslávia começou a se desfazer. No final dos anos 80, a ascensão de um novo líder iugoslavo, Slobodan Milosevic, um sérvio, levou a uma repressão à autonomia kosovar. 

Protestos ocorreram por toda a província, colocando a maioria de etnia albanesa em conflito aberto contra o Estado. Mais de mil mineiros de Trepca promoveram uma greve subterrânea por oito dias e noites. Em 1991, os jogadores kosovares do Trepca decidiram deixar a equipe. 

"Fazia parte da política do lado sérvio", disse Seferi. "Eles disseram, se vocês quiserem continuar jogando conosco, terão que aceitar nossas leis, nosso governo. Éramos contra aquilo." 

Em vez disso, Kosovo formou um campeonato de futebol paralelo, ilegal, realizando partidas em campos improvisados avisadas com pouca antecedência. 

"A polícia parava os jogos no meio e prendia todos, às vezes os mantendo detidos por três dias, às vezes deixando todos irem embora", disse o presidente do KF Trepca, Ajet Shosholli. 

Enquanto o novo Trepca jogava em campos ruins e se lavava em rios gelados após suas partidas, o FK Trepca continuava jogando nas divisões inferiores do campeonato iugoslavo sem a maioria de seus jogadores albaneses. 

"Era horrível ver o time jogar", disse Seferi. "Nós jogávamos no interior, nos machucávamos. Éramos presos. Sofríamos bullying. Mas continuávamos jogando." 

Após oito anos no campeonato kosovar improvisado, os jogadores voltaram após a guerra do Kosovo. O Estádio Olímpico agora ficava no sul, na metade kosovar albanesa de Mitrovica. Sua grama tinha crescido demais e as arquibancadas se tornaram lar para dezenas de famílias de refugiados da sangrenta guerra civil. Todas as taças e medalhas do clube, mais de 60 anos de história, desapareceram. 

"Não sei se foram queimadas, se foram roubadas, mas o fato é que não estavam aqui", disse Shosholli. "Toda a história foi apagada." 

Petar Milosavljevic se recorda da última partida do Trepca como uma equipe unida, em 1991. O Trepca venceu, 2 a 0, mas o clima mudou. 

James Hill/The New York Times
Petar Milosavljevic, dirigente do FK Trepca, que se deslocou para a Sérvia após a guerra iugoslava

"As pessoas estavam apavoradas", ele disse. "Coisas políticas se infiltraram no estádio." 

Milosavljevic, o dirigente de 76 anos do FK Trepca, estava sentado no pequeno escritório do clube  a uma curta distância a norte do Ibar, o rio que divide a cidade (albaneses ao sul, sérvios ao norte). Ele estava cercado por fotos do passado da equipe. O nome do clube está escrito em cirílico acima da porta. 

A sede do FK Trepca possui uma coleção de taças e medalhas, mas nenhuma de antes de 1991. Milosavljevic achava que os troféus antigos ainda estavam no estádio, ou tinham sido roubados durante a guerra. Quando a guerra chegou a Mitrovica em 1998, o FK Trepca, assim como fizeram os albaneses antes, teve que deixar o estádio. E nunca mais voltou. 

O FK Trepca agora joga na quarta divisão do campeonato sérvio, viajando longas distâncias até as cidades sérvias em vez de jogar com outras equipes em Kosovo. O clube compartilha um estádio minúsculo no vilarejo próximo de Zvecan e tem pouco dinheiro. Mas, disse Milosavljevic, pelo menos está vivo. 

De sua sacada, ele pode ver o outro Trepca jogando as partidas do campeonato kosovar ou treinando no Estádio Olímpico. 

"Vejo todo dia os jogadores albaneses jogando ali e não estou lá", ele disse. "É a minha casa. E tenho vontade de chorar quando vejo aquilo." 

Orgulho e revolta

Em uma manhã de domingo, os jogadores e dirigentes sérvios do FK Trepca se reuniram em uma casa de apostas local antes de tomarem seu ônibus para a próxima partida. Seria uma viagem de quatro horas para o norte, até o coração da Sérvia, para enfrentar o FK Orlovac Mrcajevci. A estrada para o norte serpenteia acompanhando o rio Ibar e, enquanto o ônibus seguia viagem, os jogadores cantavam velhas canções iugoslavas, parando ocasionalmente para permitir que um jogador que passou a noite toda na farra descesse para vomitar. 

James Hill/The New York Times
Jogadores do FK Trepca, de Mitrovica, que joga a quarta divisão do futebol sérvio

Todos os jogadores cresceram durante a guerra e poucos conseguem imaginar quando os dois Trepcas poderiam voltar a jogar juntos. 

"Eles tomaram nosso clube", disse Strahinja Jevtic, um zagueiro que estava aguardando um visto de trabalho para viajar ao Alasca. 

Atualmente há pouco trabalho em Mitrovica, tanto no norte quanto no sul. A mina é atrapalhada pela burocracia e política e está operando em uma fração de seu vasto potencial econômico. Apenas poucas centenas de pessoas trabalham em Trepca no momento, principalmente no lado kosovar albanês. 

"Antes jogávamos unidos", acrescentou Jevtic, "mas isso não ocorrerá de novo". 

O ônibus chegou a um minúsculo estádio, recebido por um campo esburacado e um público de 30 pessoas. 

O Trepca logo ficou em desvantagem, 2 a 0. No intervalo, a equipe discutiu furiosamente no vestiário sobre seu desempenho antes de reagir. O Trepca reduziu a vantagem do adversário e perdeu uma chance de empatar, antes do Orlovac aumentar a vantagem. O placar final foi de 3 a 1. 

Os jogadores do FK Trepca falaram pouco durante a primeira hora da longa viagem de volta a Mitrovica tarde da noite. 

"Quando vencemos, o clima é muito melhor", disse o zagueiro Branislav Radovic, rindo. 

Político e pessoal

Milosavljevic permanece esperançoso de que algum dia as relações entre as comunidades sérvia e albanesa melhorem. 

Ele disse que recebeu no ano passado uma visita de Fadil Vokrri, da Federação de Futebol do Kosovo. Agora que Kosovo tem sua própria seleção nacional, a federação está à procura de jogadores de etnia sérvia que queiram representar Kosovo, onde vivem cerca de 150 mil sérvios. Mas é improvável. 

"Por ora, as condições não existem", disse Milosavljevic. Seferi, que ainda mantém contato com seus velhos companheiros de time no norte, compartilha a esperança dele de algum tipo de reconciliação entre os dois grupos, entre os dois Trepcas. 

"Há um convite aberto para eles", ele disse. "Eles podem se juntar a nós quando quiserem."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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