Ivanka Trump será a "primeira-filha" mais poderosa da história?

Alessandra Stanley e Jacob Bernstein

  • John Locher/AP

Quando Nancy Pelosi, a líder minoritária na Câmara dos Deputados, telefonou para Donald Trump pouco depois da eleição, em 8 de novembro, eles conversaram sobre política interna e infraestrutura. Mas quando Pelosi levantou o assunto das questões das mulheres, o presidente-eleito fez algo inesperado: passou o telefone para outra pessoa que estava na sala, sua filha Ivanka, de 35 anos.

Mais ou menos nessa hora, Sheryl Sandberg, a chefe de operações do Facebook e autora do best-seller sobre empoderamento das mulheres "Lean In", procurou Ivanka Trump esperando iniciar o que assessores dos dois lados chamaram de "um diálogo".

Anne-Marie Slaughter, ex-assessora política de Hillary Clinton no Departamento de Estado e autora de "Unfinished Business: Women Men Work Family", havia encontrado Ivanka Trump há cerca de um ano na Cúpula das Mulheres Mais Poderosas da revista "Fortune". Ela também enviou uma palavra à próxima primeira-filha uma semana após a eleição, dizendo que esperava entrar em contato com ela depois que o pai assumisse o cargo.

"Ela é realmente séria sobre a 'agenda assistencial' e poderá ser uma força interna", disse Slaughter em uma entrevista.

Talvez mais importante, disse, "não conheço mais ninguém".

Um mês e meio antes de seu pai tomar posse, Ivanka Trump e seu marido, Jared Kushner, 35, são assessores cruciais do presidente-eleito, com Ivanka talvez destinada a ser a mais influente filha de presidente desde Alice Roosevelt Longworth. Eles participaram de reuniões com assessores políticos, candidatos a cargos, líderes estrangeiros e investidores imobiliários ávidos para vender apartamentos de US$ 2 milhões como tendo "a marca do presidente-eleito".

Aaron P. Bernstein/ Reuters
Trump e Ivanka acompanham o discurso do senador Ted Cruz durante a Convenção Republicana

Eles também estão filtrando os telefonemas e e-mails de seus próprios amigos poderosos com tendências esquerdistas e conhecidos que esperam encontrar uma voz para suas causas no governo Trump.

Até Leonardo DiCaprio entrou no jogo. O ator premiado com o Oscar se encontrou recentemente com Ivanka Trump em particular e lhe deu um exemplar de seu documentário sobre a mudança climática, "Antes da Inundação", segundo assessores de ambos.

Conforme sua plataforma aumenta, porém, Ivanka também está recebendo algumas críticas de que sua agenda básica pode ser um reforço à marca Ivanka Trump, que ela construiu cuidadosamente na última década.

Nesse período, publicou uma memória de autoajuda que foi best-seller em "The New York Times" (com mais um livro agendado para a próxima primavera), lançou uma marca de roupas e joias, coestrelou com seu pai o reality show "O Aprendiz" e tornou-se presença constante em desfiles de moda e bailes beneficentes. Mensagens sobre empoderamento das mulheres foram entremeadas a seus comerciais, que misturam lemas inspiradores com apelos para compras em seu site, ivankatrump.com.

Ela disse no programa "60 Minutes" no mês passado que quando seu pai se tornar presidente, ela será apenas "uma filha". Disse que usará sua "visibilidade acentuada" para defender as mulheres trabalhadoras. (Depois do programa, Ivanka foi criticada pela tentativa de sua empresa de vender o bracelete de ouro e diamantes de US$ 10.800 que ela usou durante a entrevista. Mais tarde ela pediu desculpas e disse que sua marca deverá sofrer um "reajuste".)

Algumas figuras proeminentes continuam desconfiadas do comprometimento de Ivanka com suas causas.

"Não acho que seja útil denegrir a imagem que ela projeta como mulher que trabalha, mãe e casada, mas há limites para isso", disse Faye Wattleton, a ex-presidente da Planned Parenthood [entidade de planejamento familiar]. "É fácil falar sobre autoajuda quando você tem acesso aos melhores médicos do mundo por causa de seu nascimento. Não é tão fácil quando você não consegue ter um salário suficiente e tem de sustentar filhos. E não a ouvimos falar sobre essas questões difíceis de sobrevivência."

No mês passado, artistas como Dan Colen e Nate Lowman, ambos parte da coleção de Trump, emprestaram seus nomes à carta aberta "Querida Ivanka", que incluía declarações como "Sou negra e tenho medo de Jeff Sessions" e "Minha mãe vai ser deportada", mas também dizia: "Queremos apelar à sua racionalidade e sua dedicação a proteger os direitos de todos os americanos, especialmente mulheres e crianças". As duas estavam entre as cerca de 200 pessoas presentes na segunda-feira à noite em um protesto diante do Edifício Puck, de propriedade de Kushner e onde o casal tem um apartamento.

Também estava lá a artista Marilyn Minter, expressando confusão por Ivanka Trump ser associada a uma ideologia que Minter considera pessoalmente perturbadora. "Ela deveria ser feminista", disse Minter.

Stella Schnabel, a atriz e filha do artista e diretor Julian Schnabel, parecia pessoalmente indignada com o que considera o apoio de Ivanka às posições de seu pai. "Eu tive um encontro com Ivanka. Eu fui a Mar-a-Lago", disse Schnabel sobre Trump, enquanto estava ao lado do designer de calçados Arden Wohl, um conhecido da futura primeira-filha há décadas e que inclui Ivanka entre seus 33 mil seguidores no Instagram.

"Sempre achei o pai dela brega. Mas ela é elegante, classuda e forte. Ela tinha um ótimo grupo de amigas quando estava no Trinity", disse Wohl, referindo-se à escola particular no Upper West Side que Ivanka frequentou. "Então posso entender isso. Ela não é uma pessoa odiosa e racista. Simplesmente não é."

Diga isso ao magnata Barry Diller, que há conhece há muitos anos e que em 2009 fez um negócio com Kushner.

"Acho ilusório acreditar que haja alguma diferença entre Donald Trump e seus filhos sobre qualquer de suas posições radicais", escreveu recentemente em um e-mail Diller, que foi doador da campanha de Hillary Clinton. "Eles tiveram todas as oportunidades de modificá-las publicamente e não o fizeram."

Houve até alguma dissidência nas fileiras da família.

Mark Wilson/Getty Images/AFP
Donald Trump cumprimenta Jared Kushner e Ivanka Trump após o discurso da vitória

A supermodelo Karlie Kloss esteve recentemente envolvida com o irmão mais moço de Kushner, Joshua, um empresário de Nova York, mas passou o outono fazendo forte oposição a Trump. Pouco antes da eleição, ela postou uma foto no Instagram dela mesma preenchendo um voto de abstenção e colocando embaixo #estoucomela.

Joshua Kushner aprovou em julho e agosto vários tuítes anti-Trump em sua conta no Twitter.

Anna Wintour, a editora-chefe de "Vogue", foi uma mentora de Ivanka Trump, publicou dois perfis dela na revista da Condé Nast e em certo momento lhe ofereceu um emprego lá. (Trump escreveu em sua memória, "Trump Rules" [Trump manda], que ela os recusou.) Mas conforme a eleição se aproximava do fim, enquanto Wintour captava milhões de dólares para Hillary, as duas perderam o contato.

Depois da eleição, Wintour chorou ao falar com membros de sua equipe sobre a necessidade de seguir em frente diante da derrota dolorosa. Solicitada a comentar sobre sua relação com Ivanka, Wintour educadamente declinou por meio de uma porta-voz.

Durante muito tempo, a popularidade de Ivanka Trump se deveu (pelo menos em parte) a sua capacidade de abrandar as arestas de seu pai.

Onde Donald Trump era brusco, Ivanka era habilidosa. Onde Donald Trump parecia egoísta e facilmente distraído, ela era discreta e concentrada, características que demonstrou desde sua juventude no Upper East Side.

Ivanka Trump trabalhou brevemente como modelo quando adolescente, antes de entrar na Universidade Georgetown. Dois anos depois, transferiu-se para a universidade que o pai cursou, Wharton School na Universidade da Pensilvânia.

Após a formatura, ela começou a ser fotografada pela cidade, em festas como a inauguração do Festival de Cinema de Tribeca e no baile anual Frick Gala, onde se destacou como uma mudança revigorante de uma geração de herdeiras festeiras como Paris Hilton, Nicole Richie e Casey Johnson.

Então ela já trabalhava para o pai na Organização Trump, mas construiu uma vida social que de muitas maneiras eclipsava a de seu pai famoso.

Donald Trump e seus filhos mais velhos não são figuras comuns na cena dos poderosos em Nova York, mas Ivanka e Kushner, que comprou o jornal "The New York Observer" em 2006, são mais experientes socialmente.

Ela estava sentada na primeira fila dos desfiles de Carolina Herrera na Semana de Moda de Nova York, andou no tapete vermelho no baile Glamour Woman of the Year no Carnegie Hall e foi convidada a jantares com o astro do cinema Hugh Jackman e o herdeiro da mídia James Murdoch.

Quando Ivanka e Kushner brigaram durante o namoro, uma reconciliação ocorreu no iate de Rupert Murdoch --uma reaproximação que foi mediada pela boa amiga dela Wendi Murdoch, na época ainda casada com Murdoch.

Divulgação
Logo Ivanka se converteu ao judaísmo e casou-se com Kushner em Bedminster, o clube de golfe privado do pai dela em Nova Jersey, com um vestido de Vera Wang, como revelou um fotógrafo da Getty. Eles já tiveram três filhos.

Às vezes há fatos negativos: fofocas em "Gawker" e "Page Six". Mas poucas descortesias com o casal.

"Eles são políticos ideais", disse Peter Davis, o jornalista de sociedade que Kushner contratou em 2011 por sugestão de sua mulher para editar uma revista chamada "Scene". "Porque você sai de qualquer interação achando que eles são ótimos e simpáticos, e não tem sentimentos mais profundos sobre eles."

Assim como muita gente ansiosa para subir na escada social de Nova York, o casal se envolveu em empreendimentos filantrópicos. Mas não deixou pegadas fortes. De fato, examinar os feitos caritativos de Ivanka Trump é encontrar ecos do padrão muito comentado de seu pai de falar muito enquanto dá pouco.

Em 2010, ela se tornou sócia-fundadora da Foundation Girl Up da ONU e então exibiu seu envolvimento no site da Organização Trump, onde continua hoje como a primeira de apenas três causas que a família apoia, juntamente com a Fundação da Polícia de Nova York e a Liga Atlética da Polícia.

A principal contribuição de Trump foi postar um link promocional para sua coleção de joias, onde vendia um bracelete Girl Up, com parte das vendas indo para a iniciativa.

Quando a eleição começou, a fundação da ONU, que é apartidária, afastou-se oficialmente de Ivanka. "Cortamos todos os laços com ela, mas não havia nenhum, de todo modo", disse Beth Nervig, uma porta-voz da organização.

Trump fez ainda menos pela causa dos "diamantes de sangue".

Em 2011, ela anunciou que lançaria uma linha de joias sustentável para noivas, usando diamantes canadenses, de origens éticas. Em uma entrevista a "Women's Wear Daily", Trump falou sobre as "inúmeras maneiras" como pretendia construir sua marca em uma "empresa realmente engajada socialmente e responsável".

Mas usar diamantes canadenses é mais caro, a coleção não pegou firme e logo foi abandonada. Mas Trump conseguiu em 2012 aceitar uma nota "Bom" da Diamond Empowerment Fund, uma entidade sem fins lucrativos fundada por Russell Simmons.

Juntamente com Kushner, Ivanka fez incursões no circuito beneficente, aparecendo em bailes dos Nova-Iorquinos para as Crianças e da Biblioteca Pública de Nova York, onde foram convidados nas mesas de outras pessoas. No ano passado, Ivanka esteve em um baile da amfAR, onde se sentou com Anthony Weiner e Wintour. Ela também foi destaque nos prêmios Glamour Women of the Year.

Ela e o marido foram ainda anfitriões em um evento para angariar fundos para Cory Brooker, o senador democrata de Nova Jersey, em seu apartamento na Park Avenue.

Ivanka inclinava-se a alavancar sua celebridade e dar produtos que levam seu nome, como fez mais de uma vez com o evento Glam4good, de sua conhecida Mary Alice Stephenson.
"Algumas vezes liguei para Ivanka para mandar sapatos e produtos, fosse para combater o câncer de seio ou vestir meninas de abrigos de sem teto", disse Stephenson. "Eles sempre enviaram. Acho-a uma pessoa adorável."

Durante a Convenção Nacional Republicana, em que seu pai foi oficialmente aceito como candidato do partido, o escrutínio de Ivanka começou a assumir um viés mais negativo. 

Embora seu discurso tenha sido amplamente elogiado, os amigos ficaram decepcionados pela rudeza de alguns outros oradores (como os que incentivaram o coro de "Prendam-na" contra Hillary) e se perguntaram quando ela se manifestaria para denunciá-los.

Em setembro, Ivanka ficou irritada com um repórter da "Cosmopolitan" que a fritou sobre aparentes inconsistências entre suas declarações feministas e a campanha que ela defendia tão ardentemente. "Eu acho que você tem muita negatividade nessas perguntas", disse ela, segundo a transcrição.

Na semana seguinte, Ivanka recebeu mais um sinal de que seu pai na corrida presidencial não estava ajudando muito a reputação dela ou sua marca global.

Ocorreu no que deveria ser seu espaço seguro: uma reunião a portas fechadas de seus amigos plutocratas.

Em Aspen, no Colorado, na conferência anual Weekend With Charlie Rose em setembro, Ivanka e Kushner juntaram-se a pessoas como Jeff Bezos, Tim Cook, Ari Emanuel e Jeffrey Katzenberg em um jantar no restaurante do Hotel Jerome.

Hasan Minhaj, 31, o popular comediante do "Daily Show", era a atração em um jantar na quinta-feira e delicadamente brincou com alguns dos presentes sobre seu poder e sua riqueza.
Mas as piadas foram mais fundo quando Minhaj, cujos pais emigraram da Índia para os EUA pouco antes de ele nascer, virou-se para Ivanka.

"Por que vocês estão fazendo isso?", perguntou ele, em um tom que sugeria que outros na sala faziam a mesma pergunta. Ouvindo os ataques de Donald Trump aos muçulmanos, como sugerir que eles sejam proibidos de entrar nos EUA, Minhaj implorou a Ivanka que parasse de proteger seu pai e então concluiu com uma piada áspera:

"No fim das contas, seu pai quer denunciar o meu pai", disse.

Ela ficou ali sentada, segundo Minhaj, "parecendo desconfortável".

Quando uma hoje infame fita de Donald Trump e Billy Bush foi divulgada algumas semanas depois, Shannon Coulter iniciou um boicote da marca de Ivanka nas redes sociais, com um #GrabYourWallet [segure sua carteira] que se tornou viral.

"As pessoas acham que, como ela é educada e fina, não é igual a ele", disse Coulter. "Acho que ela é mais perigosa porque é mais educada."

Então veio "Vicuña" no Kirk Douglas Theater em Culver City, Califórnia, a última obra do dramaturgo nomeado para o Tony Jon Robin Baitz. Sua sátira se concentra em um candidato presidencial parecido com Trump e sua filha adorável e fiel, Srilanka, que luta para defender o pai monstruoso e o marido faminto de poder e acaba sendo uma pária social e profissional. (A vitória surpreendente de Donald Trump foi uma virada na trama que o autor não previu.)

"Todo mundo que conhece Ivanka diz: 'Como ela consegue suportar o pai que tem?'", disse Davis, o jornalista de sociedade. "Mas ela trabalha para o pai. O lema dos Trump é: Vença a qualquer custo."

Segundo velhos amigos, Ivanka --que, com seu marido, recusou vários pedidos de entrevista para esta reportagem-- está mantendo uma expressão de superioridade.

"Ela não se queixa de nada, e raramente manifesta fraqueza", disse Maggie Cordish, uma amiga desde a faculdade que conheceu seu marido, um investidor imobiliário de Baltimore, por meio de Ivanka. Cordish diz que seu interesse pela causa das mulheres trabalhadoras é sincera: "Ela elevou questões que não faziam parte da agenda republicana, porque se importa com elas".

O magnata de Hollywood David Geffen, um antigo defensor de candidatos democratas, disse que tem carinho por Ivanka e Kushner, apesar de não ter votado no pai dela.

"Conheço Ivanka e Jared há anos", disse ele. "Ela é uma mulher adorável e inteligente, e Jared é um genro leal. Trump conta com ele. É um sujeito muito inteligente. Ele é um gênio? Não, mas veja só: todos os gênios perderam."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos