Após referendos fracassados, nova onda de fúria popular pode atingir a Europa em 2017

Alissa J. Rubin

Em Paris (França)

  • Andreas Solaro/AFP

    4.dez.2016 - Primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, durante entrevista coletiva na qual anunciou plano de renunciar

    4.dez.2016 - Primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, durante entrevista coletiva na qual anunciou plano de renunciar

Para a Europa, 2016 trouxe uma série de choques políticos: um número quase recorde de imigrantes vindos do Oriente Médio e da África, a votação no Reino Unido pela saída da União Europeia e novas ameaças pela Rússia de interferir no continente.

Mas 2017 pode vir a ser muito pior. Haverá pelo menos três eleições na Europa no ano que vem: na Alemanha, França e Holanda com certeza, e agora talvez na Itália. Por toda parte, os establishments políticos estão sendo culpados pelo crescimento fraco, pela geração insuficiente de empregos e por defenderem os mercados financeiros globais em vez do cidadão comum.

O mais recente indicador do descontentamento popular foi o referendo na Itália no domingo, quando os eleitores rejeitaram as mudanças constitucionais propostas pelo primeiro-ministro Matteo Renzi. O resultado foi um duro golpe contra Renzi, que disse que renunciaria.

Ocorrendo após a votação no Reino Unido pela saída da União Europeia (chamada de Brexit), o resultado italiano foi considerado outra rejeição a décadas de esforços para forjar uma união mais estreita entre os 28 países do bloco. E levantou novas dúvidas sobre se a UE se sustentará no futuro.

"Trata-se de uma crise que atinge o núcleo da União Europeia, de uma forma que nem mesmo a 'Brexit' fez", disse Mujtaba Rahman, diretor administrativo para a Europa do Eurasia Group, uma consultoria de risco.

"O Reino Unido sempre esteve com um pé dentro e um pé fora", ele disse. "A Itália é um país membro fundador, plenamente integrado na estrutura política e econômica da união. Isso é existencial para a UE."

O eleitorado italiano rejeitou uma reforma constitucional que, entre outras mudanças, aumentaria o poder do primeiro-ministro ao reduzir o número de senadores e o poder deles. O efeito político da rejeição está menos em qualquer efeito direto sobre as políticas, mas na abertura que fornece ao movimento populista Cinco Estrelas, que fez campanha contra as mudanças constitucionais. Também provocou a renúncia de Renzi, um forte defensor da UE que estava trabalhando arduamente para estabilizar alguns dos bancos mais frágeis da Itália.

A fúria popular transformou eleições que seriam normalmente rotineiras no que François Heisbourg, uma ex-autoridade de Defesa francesa e presidente do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, descreveu como momentos de "volatilidade e inescrutabilidade".

Isso ocorre especialmente em referendos sim ou não, primeiro no Reino Unido, agora na Itália, onde a rejeição populista ao establishment político pode, por extensão, também ser uma chance de enviar uma mensagem às autoridades eleitas em Bruxelas, que trabalham estreitamente com os líderes de governo europeus.

Nesse contexto, disse Heisbourg, o sentimento anti-UE "é apenas uma manivela para o senso de perda de controle, da perda de ação" que as pessoas sentem.

JUSTIN TALLIS/AFP
Manifestante a favor da saída do Reino Unido da UE
"No Reino Unido, um dos slogans de campanha para a Brexit era 'Vote pela Saída, Assuma o Controle'", ele notou. "A ideia era a de que a UE estava impedindo os britânicos de fazerem isso. A UE é a pinhata para o populismo."

A motivação para os eleitores no Reino Unido e Itália era basicamente a mesma que a dos eleitores americanos de Donald Trump: deixar claro para a elite que o status quo é inaceitável.

Aumentando a frustração em ambos os continentes, especialmente na Europa, está os efeitos persistentes da recessão global de 2008, da qual muitos países europeus nunca se recuperaram plenamente.

"O contrato social que nós, no Ocidente, assinamos (a Europa, os Estados Unidos) não faz mais sentido" para as pessoas, disse Xenia Wickett, que supervisiona o programa para Estados Unidos e Américas da instituição de pesquisa Chatham House.

"A população está envelhecendo, temos muito mais pessoas mais velhas dependendo do apoio das mais jovens, a produtividade está caindo, não temos investido em nossa infraestrutura e educação", disse Wickett. "Você tem os desprivilegiados dizendo: 'Isto não está funcionando para nós'."

Na França, por exemplo, o crescimento econômico mal atingiu 1% no ano passado. O desemprego entre os jovens ainda paira perto de 25%. (Na Itália, Espanha e Grécia, ele é ainda maior.) Trabalhadores mais velhos e com menor escolaridade se sentem oprimidos por uma economia que parece tê-los deixado para trás.

"O Cinturão da Ferrugem não se restringe à América, há um Cinturão da Ferrugem no norte da França", disse Alexandra de Hoop Scheffer, diretora do escritório em Paris do Fundo Marshall alemão (referindo-se à antiga região manufatureira em decadência). "Eles se sentem privados do que é deles, privados da soberania de seu país e de sua economia."

Longe de aliviar essas ansiedades, a filiação à União Europeia é responsabilizada por exacerbá-las. E o regime de austeridade que as autoridades em Bruxelas e credores internacionais exigiram, especialmente no sul da Europa, alimentou ainda mais a fúria.

A votação na Itália provavelmente aumentará a divisão entre os países do norte da zona do euro, liderados pela Alemanha, e os do sul, disse Pawel Tokarski, um pesquisador sênior do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim.

Muitos na Alemanha e em outros países do norte, ele disse, verão a votação como um sinal de não-disposição por parte da Itália de reformar sua economia da forma como Bruxelas deseja.

"Com certeza esta votação fortalecerá as vozes anti-UE", disse Tokarski.

Essas vozes vêm ganhando força há mais de 25 anos, à medida que a união expandia, a burocracia em Bruxelas crescia e as dores de cabeça das exigências não valiam a pena.

As tensões começaram a se tornar aparentes já em 1992, quando o tratado de Maastricht, que visava unir ainda mais a Europa, foi aprovado por margem estreita na Dinamarca e na França.

Hoje, as posições anti-UE fazem parte da plataforma de quase todo partido populista, incluindo a Frente Nacional de Marine Le Pen, na França, do Partido da Liberdade de Geert Wilders, na Holanda, e do Movimento Cinco Estrelas na Itália, liderado por Beppe Grillo.

O fim político de Renzi, o primeiro-ministro italiano, e de sua agenda de reformas remove um líder assumidamente pró-europeu que esperava estimular o crescimento econômico ao colocar fim a uma era de austeridade orçamentária debilitante. Em vez disso, ele poderá ser lembrado por ter criado a abertura para políticos assumidamente hostis à Europa e ao euro.

"A forma como Washington é vista por muitos americanos é a mesma forma como muitos franceses, alemães ou italianos veem Bruxelas", disse Hoop Scheffer. "Eles percebem Bruxelas quase como uma entidade ilegítima."

Philippe Wojazer/Reuters
27.nov.2016 - François Fillon faz discurso após vitória nas primárias da direita da França, em Paris

Os velhos partidos de centro-direita e centro-esquerda que dividiram o poder em vários países e mantiveram a Europa estável por décadas estão sendo removidos por forças novas e imprevisíveis por quase todo o continente. Os políticos que exploram o nacionalismo e as preocupações com a destituição econômica estão em ascensão. A animosidade em relação à UE anda atrelada com esse sentimento.

"Não existe mais direita contra esquerda", disse Wilders, que é classificado regularmente como o político mais popular na Holanda, em uma entrevista.

Muitos eleitores em ambos os lados do Atlântico parecem saturados dos velhos nomes e rostos políticos, como Hillary Clinton ou Jeb Bush nos Estados Unidos.

Na França, a lista inclui o ex-presidente Nicolas Sarkozy e outra figura de centro-direita, Alain Juppé, ambos já fora da corrida presidencial de 2017, assim como o atual presidente socialista, François Hollande, que decidiu não tentar a reeleição porque seus índices de aprovação são baixos demais.

Com tantas eleições importantes a caminho e tão poucas questões importantes resolvidas, a Europa parece destinada a continuar sujeita a tremores políticos, assim como vulnerável a forças cada vez mais fortes que podem acabar rachando a União Europeia.

"O queremos é trazer de volta os valores, a identidade, a cultura e o dinheiro, e promover de novo os interesses nacionais", disse Wilders.

Se essas mudanças são possíveis é difícil saber, mas os populistas da Europa claramente desejam projetar um ar de inevitabilidade.

"Estou dizendo, o gênio não voltará para dentro da garrafa", disse Wilders. "O processo continuará e mudaremos a Europa para sempre."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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