Menina de Aleppo posta no Twitter e ganha simpatia da web, mas será que ela é real?

Rick Gladstone, Megan Specia e Sydney Ember

  • Reprodução/Twitter @AlabedBana

Ela tem 7 anos, covinhas, enfeite de cabelo cor-de-rosa, um dente da frente faltando e fala um inglês sofrível. E chamou a atenção do mundo há três meses, com mensagens pelo Twitter sobre bombas, morte e desespero no leste de Aleppo, a área controlada pelos rebeldes na cidade síria.

A menina, Bana al-Abed, desde então atraiu mais de 220 mil seguidores no Twitter, onde sua conta diz que é administrada pela mãe, Fatemah, que também posta mensagens ali. Os seguidores de Bana no Twitter incluem a escritora best-seller J.K. Rowling, que ficou tão sensibilizada pela história dela de sobrevivência que lhe enviou livros eletrônicos de Harry Potter. Organizações de notícias ocidentais produziram artigos e segmentos de televisão exaltando a bravura de Bana diante do medo, e ela foi tema de uma coluna do "New York Times" em outubro.

Assim, quando a conta de Bana no Twitter, @AlabedBana, foi desativada no último fim de semana, enquanto forças militares sírias avançavam contra o leste de Aleppo, muitos passaram a temer pela vida dela. A conta, entretanto, reapareceu na terça-feira.

E em uma nova postagem na quarta-feira, a conta de Bana sugeriu que tropas terrestres sírias tinham tomado seu bairro.

As imagens de crianças sofrendo na Síria ocasionalmente pontuam a consciência do mundo, ao mesmo tempo em que se tornou acostumada com a violência dos quase 6 anos de conflito do país. Assim como Alan Kurdi, o menino sírio de 2 anos cujo corpo afogado foi descoberto em uma praia na Turquia, e Omran Daqneesh, atordoado e ensaguantedo após sua casa em Aleppo ter sido bombardeada, Bana tocou um nervo.

Mas em um tempo de fraudes pela internet e uso cada vez maior de notícias falsas por todo o mundo para promoção de agendas políticas, a conta de Bana no Twitter também levantou dúvidas sobre a veracidade e autenticidade.

As mensagens dela são sofisticadas para uma menina de 7 anos, por exemplo, particularmente para alguém cuja língua nativa não é o inglês.

Outras apresentam erros gramaticais que desarmam e provocam simpatia.

Algumas pessoas questionam se os vídeos no qual Bana fala foram ensaiados ou alterados.


O fato de grande parte do conflito na Síria ser inacessível aos jornalistas, que com frequência não têm como confirmar a procedência da informação diretamente, amplifica essas preocupações.

Segundo a mãe de Bana, que se descreveu como uma professora de inglês de 26 anos e que conversou como o "New York Times" via Skype e Whatsapp, as postagens no Twitter se originaram no leste de Aleppo, onde Fatemah disse que vive com Bana e os dois filhos mais novos dela, Mohamed, 5 anos, e Noor, 3.

Todos aparecem em fotos e vídeos postados pela conta @AlabedBana. Mas Bana é a única que passa tempo significativo diante da câmera ou que fala com seus seguidores em inglês. Ela aparece em muitos dos videoclipes lendo um cartão ou tendo memorizado suas falas.

Fatemah, que diz que ensinou Bana a falar inglês, parece ser digitalmente astuta ao fotografar e gravar sua filha. Mas uma série de vídeos na conta de Bana parecem ter sido feitos por cidadãos-jornalistas locais, com câmeras de melhor qualidade.

Bana e familiares também são mostrados em um documentário de TV sobre Aleppo, exibido na França no mês passado e produzido pela "Sept à Huit", uma importante revista francesa.

Ativistas antigoverno e médicos que trabalham no leste de Aleppo corroboraram, pelo Skype e Whatsapp, que Bana e sua mãe são quem dizem ser. Mas a conta de Bana no Twitter também atrai um grande número de "trolls" e vozes de apoio ao governo sírio e seus apoiadores russos, que atacam Bana como sendo uma farsa.

Alguns chamaram o pai de Bana de jihadista violento afiliado a combatentes da Al Qaeda abrigados no leste de Aleppo. Outros chamaram Bana e as ficções de sua mãe como criadas pelos Estados Unidos como uma ferramenta de propaganda para difamar os governos sírio e russo.

Há precedentes para esse cinismo, e um exemplo notável também apresentava uma conexão síria. Em 2011, uma mulher que se descrevia como sendo uma blogueira lésbica e usava o pseudônimo de Amina Arraf, que escrevia sobre a perseguição política em Damasco, a capital, desapareceu repentinamente.

A "garota gay de Damasco", como a blogueira passou a ser conhecida, era na verdade um americano de 40 anos do Estado da Geórgia.

O Twitter classificou a conta de Bana como "verificada", o que significa que a empresa estabeleceu a autenticidade da detentora da conta. Além de falar com a mãe de Bana, o "New York Times" pôde verificar, por meio de comparações com mapas por satélite, que ao menos alguns vídeos postados na conta de Bana no Twitter foram gravados em Al Shaar, um bairro no leste de Aleppo.

Mas não está claro se todas as postagens dela no Twitter, que poderiam ser postadas online de qualquer lugar, por qualquer pessoa com a senha de Bana, se originaram no leste de Aleppo. Nem está claro quantas postagens de Bana foram de sua própria autoria.

A mãe de Bana não respondeu imediatamente aos pedidos pelo Whatsapp de esclarecimento dessas questões.

Defensores da ajuda internacional expressaram sentimentos ambíguos sobre a fama de Bana, como satisfação por ela ter aumentado a solidariedade global com as crianças que são vítimas na Síria, mas também preocupação por sua história, da forma como é apresentada no Twitter, poder não ser totalmente verídica.

"Independente de ser Bana, Alan Kurdi ou Omran Daqneesh, eles chamam atenção para o problema, de uma forma que ajuda as pessoas a visualizarem de uma forma um pouco mais clara a situação das crianças", disse Sonia Khush, a diretora para a Síria da ONG Save the Children.

O preocupante desaparecimento de família que tuitava os horrores da guerra

"No caso dessa menina, não sei se é verdadeiro ou falso nesta era de redes sociais", ela disse. "Mas sua vida como criança em Aleppo é consistente com o que ouvimos. O medo, os sons de diferentes aviões e drones. Elas ficam apavoradas e têm dificuldade de dormir à noite."

Juliette S. Touma, uma porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para o Oriente Médio e Norte da África, reconheceu, no caso de Bana, que "não há como verificar de onde vêm os tuites ou se vêm da menina ou de outra fonte".

Ao mesmo tempo, disse Touma, "há algo simbólico nos tweets de Bana, ou dessa conta, no sentido de que realçam a história das crianças que são pegas no fogo cruzado, não apenas uma menina, mas muitos meninos e meninas".

Apesar das dúvidas que cercam a conta de Bana, agências de notícias a abraçaram como uma janela para o conflito na Síria. Quando a conta desapareceu no fim de semana, algumas agências de notícias relataram sua ausência com urgência.

"A conta dela no Twitter foi apagada e ninguém sabe o motivo", disse a "CNN".

"Bana al-Abed, a menina de 7 anos cujos tweets provenientes do leste de Aleppo, controlado pelos rebeldes na Síria, cativaram pessoas de todo o mundo, parece estar sob risco mortal", disse a "CBS News".

Essas reportagens ressaltam o fenômeno que a presença de Bana na rede social se tornou.
 

 

Abdulkhafi Alhamdo, um proeminente ativista do leste de Aleppo que conhece a família, disse pelo Whatsapp, na quarta-feira, que Bana e sua mãe suspenderam temporariamente suas postagens pelo Twitter no fim de semana por razões de segurança.

"O pai dela disse que eles estão com medo de uma vingança por parte do regime", ele disse. "O regime conta com agentes e espiões aqui."

Alguns especialistas em ética na mídia disseram que, apesar do apelo dessa narrativa de partir o coração, ainda mais tendo uma menina pequena em seu centro, os órgãos de notícias deveriam abordar a conta com ceticismo e algumas deixaram muito a desejar.

"Há sempre a dúvida sobre se uma menina de 7 anos está sendo usada como ferramenta de propaganda, e se for o caso, por quem", disse Jane E. Kirtley, uma professora de ética na mídia e direito da Universidade de Minnesota. "Às vezes nos apaixonamos por um conceito e basicamente ignoramos coisas que minariam esse conceito, ignoramos coisas que deveriam ser bandeiras vermelhas."

Ela acrescentou: "Para mim, minha antena sempre fica alerta quando a história é assim atraente".

Kathleen Bartzen Culver, a diretora para o Centro para a Ética no Jornalismo da Universidade de Wisconsin-Madison, disse que alguns órgãos de notícias, incluindo programas matinais de notícias das grandes emissoras nos Estados Unidos, parecem ter "suspendido o ceticismo".

"Há momentos em que leio ou assisto algo em que penso: 'Não acho que estamos empregando nosso pensamento crítico no momento'", ela disse.

Mas ela também disse que o questionamento ou difamação da conta de Bana no Twitter também deveriam ser contestados.

"Não podemos apenas questionar a fonte", ela disse. "Temos que também questionar a pessoa que acusa a fonte de ser parte de um esquema de propaganda."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos