Análise: Trump age como participante do "Big Brother" e reage como espectador

James Poniewozik

  • Jim Urquhart/ Reuters

O presidente eleito Donald Trump apareceu recentemente em uma fábrica de fornalhas Carrier em Indiana e explicou por que estava lá, tendo idealizado um acordo para impedir que alguns empregos da empresa fossem para o México.

Tudo aconteceu porque ele viu algo na televisão: ele próprio.

"Há cerca de uma semana, eu estava vendo o noticiário da noite", disse ele. "Não direi qual, porque não quero lhes dar crédito." (Foi o da NBC.) Um trabalhador da Carrier tinha desafiado Trump a cumprir sua promessa de impedir que a fábrica deixasse o Estado.

Isso foi novidade para Trump, que não acreditou que tivesse feito a promessa até que o programa mostrou um vídeo dele fazendo-a. Estava lá, na TV. Então lá estava ele.

Foi uma confissão notável. E captou, em miniatura, o que significa ter um presidente eleito que é tão completamente da, por e para a televisão.

Sim, o ex-apresentador de "O Aprendiz" é um artista televisivo. Ele é um produtor de TV instintivo, com um sentido visceral do que mantém a luz vermelha da câmera acesa. (Ele também é, aliás, um produtor-executivo de "The Celebrity Apprentice", na NBC, cujas antigas e pegajosas intrigas envolvendo Trump agora se estenderão à Presidência do homem que seus repórteres terão de cobrir.)

Mas ele também é o espectador de TV definitivo. No ano passado, Trump disse a Chuck Todd, da NBC, que obtinha assessoria militar assistindo "aos programas", isto é, programas de entrevistas com políticos. Ele quase não lê, dorme poucas horas por noite e, segundo todas as reportagens, assiste à TV constantemente, preferindo os programas sobre ele mesmo. A esta altura, o que não é?

Assim, entender Trump é perceber que ele não é apenas uma celebridade da TV; ele é, de uma maneira estranha e "meta", um espectador de sua própria apresentação. Nos próximos quatro anos, pelo menos, estaremos vivendo em um programa de TV no qual Trump simultaneamente está estrelando, consumindo e tuitando ao vivo.

Suas escolhas para o gabinete foram tão "The Bachelor" quanto "O Aprendiz", com cenários luxuosos (Trump Tower, o clube de Trump em Bedminster, Nova Jersey), tiroteios públicos entre associados sobre os candidatos e até um jantar à luz de velas, no Jean-Georges, com o pretendente a secretário de Estado Mitt Romney.

Reprodução
Alec Baldwin imita Donald Trump no programa Saturday Night Live

Todo o processo reflete a visão de mundo de Trump, que foi "reality show" mesmo antes de "reality show" existir: ver a vida, mesmo em um time, como um combate de gladiadores. Em "O Aprendiz", ele adorava deixar os candidatos se agredirem na sala de reuniões. Agora foi Newt Gingrich, um dos primeiros apoiadores de Trump, a chamar Romney de um potencial "desastre" na Fox News.

Mas além de certo ponto a analogia da Presidência como "reality show" se desfaz. Os programas-realidade têm estrutura, coesão. Como astro-realidade, Trump teve produtores e editores para reinserir lógica em suas decisões.

Em um especial em outubro de CineMontage, ex-membros da produção de "O Aprendiz" lembraram que Trump muitas vezes "demitia" participantes por motivos que não tinham nada a ver com seu desempenho. Jonathon Braun, um editor-supervisor, disse: "Nossa primeira prioridade em cada episódio como esse era fazer engenharia reversa do programa para parecer que seu julgamento teve alguma base na realidade".

Hoje estamos vendo Trump sem edições; é a gravação crua, a câmera ao vivo 24 horas de "Big Brother".

O símbolo mais surreal da transição presidencial foi uma verdadeira webcam: o vídeo ao vivo da C-Span no saguão de mármore e bronze da Trump Tower (que fica aberta ao público das 8h às 22h).

Turistas e consumidores natalinos admiram e fofocam com a equipe de câmera entediada. De vez em quando aparece um nome famoso --Al Gore, Scott Brown-- e a conversa se anima. O Caubói Pelado, um músico de rua que ultimamente passou a usar cuecas Trump, embarca em um elevador; a senadora Heidi Heitkamp se espreme com ele.

É uma janela para a capital do império como shopping de luxo, dourado, cheio de cochichos e intrigas, sutil como uma tonelada de bronze.

Diante desse aquário chique dos anos 1980, os noticiários a cabo se tornaram uma matilha caçando as bolas coloridas que Trump atira em todas as direções. Ele faz um comício de agradecimento e as redes de notícias vão de parede a parede. No Twitter ele ataca o elenco de "Hamilton" e faz uma acusação inventada de que "milhões" de pessoas votaram ilegalmente, definindo a pauta dos noticiários do dia.

Sam Hodgson/The New York Times
Câmera de emissora de TV reflete a entrada do Trump Tower, em Nova York

Os críticos de Trump atribuíram a seus rompantes todo tipo de artimanhas do xadrez em 3D. Ele está tentando nos distrair de seus conflitos de interesses, ou ele está atraindo os liberais para lutas culturais invencíveis, ou ele está transformando sua conta no Twitter em um canal de propaganda estatal.

Talvez. Mas ao mesmo tempo que Trump pressiona o ciclo de notícias, também parece atraído por ele.

Vejam quantos de seus rompantes no Twitter, apenas desde a eleição, foram sobre algo na TV que o enfureceu. Ele atacou repetidamente o "Saturday Night Live". (Uma dica: se Trump chamar alguma coisa de "inassistível" --o "SNL", "Morning Joe", a CNN--, quer dizer que a assiste obsessivamente.)

Ele sugeriu que quem queimar a bandeira deve ser privado da cidadania, pouco depois da transmissão de um segmento relacionado na Fox News. Ele retuitou a seus seguidores atacando um repórter da CNN por questionar suas afirmações infundadas sobre fraude eleitoral. Ele atacou uma reportagem da CNN sobre a continuação de seu papel em "Celebrity Apprentice" --um tuíte sobre uma reportagem na TV sobre sua carreira na TV, talvez o mais imaginável ato trumpiano.

Trump e a TV a cabo têm o mesmo metabolismo. A TV a cabo exige um fluxo contínuo de excitações e atualizações "de última hora", uma constante instabilidade que nos mantém sintonizados.

Trump fica feliz em fornecer isso, e a TV a cabo fica feliz em responder. Isto cria uma máquina de moto contínuo. Trump vê algo no noticiário; ele se irrita; ele tuíta; isso se torna notícia; repete. Ele é o Assistidor-Chefe do Ódio.

O último presidente que teve uma história no entretenimento, Ronald Reagan, veio do cinema via mansão do governo da Califórnia. Ele sabia ler um script e já tinha aprendido a casar a política com a encenação sem tropeços.

Trump, por outro lado, é todo fluxo de consciência, improvisação, "liguem as câmeras e limpamos na pós-produção". É desequilibrante, desorientador. A narrativa nacional se torna um rolo de explosões e contradições sem sequência. As controvérsias se seguem rápido demais para nos lembrarmos de qualquer uma. A semana passada parece um ano atrás.

Esse caos pode beneficiar só o presidente eleito, porque quando não há certeza, quando não há lógica, resta só o líder --só Trump.

Antes de 8 de novembro houve especulações de que Trump fundaria um canal Trump TV depois da eleição. Mas afinal foi um pouco diferente: isto é a própria Trump TV.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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