Empresa comandada por Tillerson tem bilhões em jogo na Rússia

Andrew E. Kramer, de Moscou (Rússia), e Clifford Krauss, de Houston (EUA)

  • Mike Stone/ Reuters

    Rex Tillerson é CEO do gigante petrolífero Exxon Mobil

    Rex Tillerson é CEO do gigante petrolífero Exxon Mobil

Agora que o presidente eleito Donald Trump escolheu Rex W. Tillerson, executivo-chefe da Exxon Mobil, para ser o próximo secretário de Estado, a gigantesca companhia de petróleo também deverá ter altos ganhos: ela tem bilhões de dólares em negócios que só poderão prosseguir se os EUA suspenderem as sanções contra a Rússia.

Como chefe da maior companhia de petróleo dos EUA, Tillerson ganhou um prêmio de amizade da Rússia e manifestou ceticismo sobre as sanções americanas que frearam alguns dos maiores projetos da Exxon Mobil no país.

Mas a aposta de Tillerson na indústria de energia russa poderia criar uma linha muito imprecisa entre seus interesses como petroleiro e seu papel como chefe da diplomacia dos EUA.

"As probabilidades de que ele verá a Rússia com o DNA da Exxon Mobil são próximas de 100%", disse Robert Weissman, presidente da Public Citizen, um grupo de interesse público sediado em Washington.

Um texano alto e forte, Tillerson conduziu a entrada da Exxon na agressiva política de petróleo da Rússia depois da ruptura da União Soviética. Ele sempre elogiou o país por seu vasto potencial como fornecedor de petróleo e desenvolveu laços estreitos com a liderança do Kremlin.

A Exxon Mobil tem vários projetos em andamento na Rússia que são permitidos sob as sanções americanas. Mas outros foram interrompidos pelas sanções, incluindo um acordo com a companhia de petróleo estatal russa para explorar e bombear na Sibéria, que pode valer dezenas de bilhões de dólares. As autoridades russas, otimistas, disseram que o acordo chegaria a US$ 500 bilhões.

Quanto a Tillerson pessoalmente, deverá se aposentar da Exxon Mobil no ano que vem. Segundo documentos da empresa deste ano, Tillerson possui US$ 218 milhões em ações da companhia e seu plano de aposentadoria vale cerca de US$ 70 milhões.

A Rússia já era um foco de preocupação depois que a CIA disse que o Kremlin interferiu na eleição presidencial para ajudar a candidatura de Trump. Agora a carreira de Tillerson está alimentando o debate sobre a mistura de negócios com política --e se isso poderá inclinar a balança a favor da Rússia em grandes decisões políticas como as sanções.

Falando em Moscou na segunda-feira (12), Carter Page, um apoiador de Trump que descreveu seu antigo trabalho na campanha de Trump como encontrar "novas ideias" sobre política externa, disse que está entusiasmado porque Tillerson provavelmente dará mais ênfase às oportunidades de negócios no setor privado nas relações entre a Rússia e os EUA.

"O que me deixa animado sobre novas possibilidades é a chance de realmente trabalhar em coisas novas para progredir do ponto de vista empresarial", disse Page em uma entrevista coletiva.

Outros ficaram bem mais preocupados com a indicação de Tillerson.

"Como secretário de Estado, ele teria de negociar com líderes mundiais como Vladimir Putin", disse Michael T. Klare, professor no Hampshire College e autor de "The Race for What's Left" [A corrida pelo que restou], que trata da corrida por petróleo no Ártico em fusão.

"Nessas negociações, devemos nos perguntar o que influenciaria os tipos de acordos que ele faz", disse Klare. "Surgem perguntas sobre se seus atos estariam beneficiando sua empresa ou os interesses dos EUA e seus aliados."

Trump chamou Tillerson de "jogador". Em uma reunião anual para chefes corporativos com o presidente Putin no fórum econômico de São Petersburgo, Tillerson era frequentador assíduo, com sua cabeleira prateada se destacando na multidão de ex-espiões que se tornaram autoridades do governo e chefes de empresas e hoje promovem o evento.

Juntamente com outros altos executivos americanos, Tillerson evitou o fórum em 2014, atendendo à pressão da Casa Branca para isolar a Rússia, e os executivos da Exxon Mobil insistem que cumprem as sanções.

"Nós seguimos a lei", disse Alan Jeffers, um porta-voz da Exxon Mobil. "Se uma lei diz que uma corporação dos EUA não pode participar de atividades em uma determinada jurisdição, é o que fazemos."

As sanções se destinam a aplicar pressão econômica sobre a Rússia por sua intervenção letal no leste da Ucrânia, com o objetivo de forçar a liderança russa a mudar de rumo.

Mas Tillerson deixou claras suas críticas às políticas dos EUA.

Na reunião anual da Exxon em 2014, Tillerson disse: "Não apoiamos sanções, em geral, porque não as consideramos eficazes, a menos que sejam muito bem implementadas de modo abrangente, e isso é uma coisa muito difícil de fazer. Por isso sempre incentivamos as pessoas que tomam essas decisões a considerar os amplos danos colaterais aos que elas realmente prejudicam".

Depois, durante uma etapa de perguntas e respostas em uma conferência em Houston no início de 2015, Tillerson comentou que sua companhia espera que as sanções sejam levantadas.

"Vamos esperar um tempo em que o ambiente de sanções mude ou as exigências das sanções mudem", disse ele sobre os projetos da Exxon Mobil.

A abordagem de Tillerson na Rússia segue o que Robert Amsterdam, um advogado do magnata do petróleo russo Mikhail Khodorkovsky, que tinha sido preso, descreveu como "a geopolítica da sinalização" ao Kremlin, uma técnica de sobrevivência e sucesso para executivos do petróleo na Rússia.

"A Exxon se dispôs a participar de práticas que a tornam um candidato de primeira linha para novos ativos russos", disse Amsterdam. "O modo como se fará isso é chegando o mais perto do limite quanto for humanamente possível para apoiar os russos" sem infringir a lei.

As sanções ocidentais foram aplicadas pela primeira vez à Rússia em março de 2014, em reação à anexação da Crimeia por Moscou. Então os EUA e seus aliados, incluindo a Holanda, implicaram a Rússia na derrubada do voo 17 da Malaysia Airlines sobre o leste da Ucrânia em julho. Todos a bordo morreram, incluindo 193 holandeses que iam à Ásia a trabalho e em férias, passando por um breve momento sobre a zona de guerra.

Isso provocou mais sanções. Um mês depois, tanques russos entraram no leste da Ucrânia, virando a maré contra as forças do governo central da Ucrânia, apoiado pelos EUA. Hoje, cerca de 300 soldados americanos percorrem a Ucrânia como treinadores.

Depois da incursão russa em 2014, os EUA proibiram a transferência à Rússia de tecnologia avançada de petróleo para plataformas marítimas e de petróleo de xisto. O governo americano anunciou em 12 de setembro que a Exxon devia suspender toda a assistência de perfuração offshore à Rosneft, a companhia de petróleo estatal russa, até 26 de setembro.

Mas a plataforma de alta tecnologia da Exxon Mobil já estava perfurando no mar de Kara, em um projeto inacabado de US$ 700 milhões que ainda não tinha encontrado petróleo. Seria inútil se não fosse concluído.

Executivos russos disseram então à Exxon Mobil que os serviços de segurança russos enviariam uma tripulação russa --para basicamente ocupar a plataforma-- se a Exxon Mobil acatasse a lei americana e deixasse o poço sem conclusão, segundo um executivo da companhia que havia visitado a plataforma no Ártico.

A Exxon transmitiu a ameaça ao governo americano, e o Departamento do Tesouro cedeu, permitindo uma ampliação do período de trabalho até 10 de outubro. Em uma declaração de 2014, a companhia de petróleo estatal russa negou ter feito a ameaça à empresa de Tillerson.

Com a prorrogação em mãos, a Exxon Mobil descobriu um grande campo com cerca de 750 milhões de barris de petróleo novo para a Rússia uma semana depois. Igor Sechin, executivo-chefe da companhia russa, chamou o novo campo de Pobeda --"vitória" em russo.

É um dos projetos no Ártico em que a Exxon Mobil tem o direito de seguir trabalhando caso as sanções sejam suspensas.

*Colaborou Neil MacFarquhar, de Moscou.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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