Com 17 mil mortos em 2016, México luta para conter escalada da violência

Kirk Semple*

Em Ciudad Juárez (México)

  • Adriana Zehbrauskas/The New York Times

    19.abr.2012 - Crianças observam cena de crime, onde dois homens foram assassinados, em Ciudad Juárez

    19.abr.2012 - Crianças observam cena de crime, onde dois homens foram assassinados, em Ciudad Juárez

Cinco homens foram mortos a tiros em uma barbearia, com seus corpos amontoados perto da entrada. Um corpo decapitado foi descartado perto de um projeto habitacional. Três outros foram mortos atrás de um salão de bilhar e vários outros em um bar chamado Tres Mentiras. 

Até o final de outubro, pelo menos 96 pessoas foram mortas na cidade de fronteira de Ciudad Juárez. Foi o maior número mensal desde 2012, semeando o medo de um retorno do caos das gangues que já rendeu a esta cidade o título de lugar mais violento do mundo. 

Naquela época, o derramamento de sangue nesta cidade estava em uma categoria própria. Mas agora ela conta com companhia, com outras cidades mexicanas em situação tão ruim ou pior. No ano passado, o número de homicídios no México subiu para níveis não vistos em anos. 

Katie Orlinsky/The New York Times
Cena de assassinato em Ciudad Juárez em janeiro de 2011

Nos primeiros 10 meses deste ano, foram 17.063 casos de homicídio no México, um número já maior do que o total do ano passado e o número mais alto para 10 meses desde 2012. A recaída na segurança enerva o México e leva muitos a se perguntarem se o país está à beira de uma guerra sangrenta total entre grupos criminosos. 

"Há um trauma, uma espécie de medo, entre todos nós que vimos uma morte, que ouvimos disparos", disse Carlos Nájera, um ativista em Juárez. "Todos temem um retorno ao passado." 

O aumento da violência por todo o México reflete um cenário criminal cada vez mais volátil e as limitações da estratégia da América do Norte para combate aos narcóticos, que têm contribuído para a queda dos índices de aprovação do presidente Enrique Peña Nieto. 

Uma antiga pedra angular da luta do governo mexicano contra o crime organizado, apoiada por centenas de milhões de dólares de ajuda americana, é visar os chefões, na teoria de que cortar a cabeça murchará o corpo. Mas a tática tem ajudado a fragmentar os empreendimentos criminosos hierárquicos e monolíticos em uma diversidade de grupos que são mais violentos e incontroláveis, disseram analistas. 

A crescente insegurança representa um problema para o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, que ofereceu poucas pistas de como pretende abordar a batalha contra o narcotráfico e a criminalidade no hemisfério. 

Sua campanha sugeriu uma estratégia de contenção, tendo como elemento central a construção de um muro ao longo da fronteira americana para impedir a entrada de drogas e a imigração ilegal. Alguns analistas temem que, como parte dessa abordagem, Trump possa retirar o apoio americano já limitado às iniciativas no México que buscam fortalecer o Estado de Direito, as instituições do Estado e reparar as comunidades  prejudicadas pela criminalidade. 

Mas uma abordagem americana de não envolvimento poderia dar mais espaço aos grupos criminosos violentos no México e em outros lugares, desestabilizando a região, disseram analistas. 

"Uma resposta de isolamento americano como uma fortaleza provavelmente provará muito rápido ser insuficiente", disse Alejandro Hope, um importante analista de segurança no México. 

Ele notou que toda a heroína consumida por ano nos Estados Unidos, grande parte proveniente do México, "caberia em 1.800 a 2.000 peças de bagagem". "Você não impede isso com um muro", ele disse. 

México encontra corpos e cabeças em fossas clandestinas

O governo mexicano combate os narcotraficantes há décadas, mas a luta ganhou nova intensidade em 2006, quando o presidente na época, Felipe Calderón, declarou "guerra" contra o crime organizado. 

Os militares mexicanos foram parcialmente bem-sucedidos nessa abordagem, capturando ou matando muitos dos narcotraficantes mais procurados do país. Os números mensais de casos de homicídio, após atingirem um pico de 2.131 em maio de 2011, começaram a cair. 

Juárez viu parte do pior da violência, tornando-se símbolo da disfunção e tragédia mexicana: no auge do derramamento de sangue, em outubro de 2010, a cidade sofreu 359 homicídios, segundo o Grupo de Trabalho Segurança e Justiça em Juárez, uma força-tarefa independente que inclui representantes da sociedade civil e do governo. Mas uma resposta intensiva, incluindo uma alta presença na cidade das forças de segurança do governo e um engajamento robusto pela sociedade civil, ajudaram a reverter a situação. 

Mas a estratégia nacional de visar os chefões ficou aquém em um aspecto importante: o narcotráfico continuou florescendo. E à medida que os líderes caíam, a grandes organizações do narcotráfico se fragmentaram em grupos criminosos menores, que passaram a travar batalhas pela sucessão que resultaram em uma violência ainda maior. 

"Esses grupos, se você meio que os deixarem em paz, eles são muito poderosos", disse Steven Dudley, codiretor da InSight Crime, uma fundação que estuda o crime organizado nas Américas. "E se você mexer com elas e se fragmentarem, transformando-se em bestas múltiplas e difíceis de lidar." 

Desde o final de 2014, o número de homicídios passou a crescer, um aumento que Eduardo Guerrero, um consultor de segurança na Cidade do México, chamou de "segunda onda de violência".

Setembro, com 1.976 casos de homicídio no país, foi o mês mais mortífero no México desde maio de 2012, e um dos mais mortíferos já registrados, segundo o Ministério do Interior do México. 

E enquanto a violência ocorrida durante a presidência de Calderón se concentrava principalmente em alguns poucos lugares, como Juárez, o aumento nos homicídios agora está mais disperso. 

"O que há é uma transição no submundo criminoso de organizações criminosas de grande escala, com estruturas hierárquicas e relativamente identificáveis, cujo negócio era principalmente o tráfico de drogas para os Estados Unidos, para gangues menores, diversificadas, de escopo mais local, de natureza mais predatória", disse Hope. 

Mas apesar da natureza das operações criminosas do México ter mudado, a resposta do governo não mudou, ele disse. 

"Eles foram ótimos na captura de El Chapo, mas não tão bons em tratar da extorsão das lojas familiares em Guerrero", ele disse, referindo-se ao capturado chefão das drogas Joaquín Guzmán Loera.

As respostas fizeram com que muitos analistas concluíssem que o governo carece de uma estratégia coerente para tratar do problema. 

"A única coisa que fazem é enfrentar as consequências, mas não as causas, e o fazem de forma bastante marginal", disse Francisco Rivas, diretor do Observatório Nacional do Cidadão, um grupo que estuda questões de segurança e justiça no México. 

Mesmo assim, autoridades do governo expressaram de forma privada profunda preocupação com o aumento dos números e até mesmo a possibilidade de um retorno de uma guerra total das drogas. 

Em Juárez, essa possibilidade é palpável. O aumento deste ano nos homicídios agravou um tipo de transtorno de estresse pós-traumático comunal, mesmo com os números ainda longe do pico da violência que envolveu a cidade vários anos atrás, caindo de 96 em outubro para 33 em novembro, segundo o jornal "El Diario" de Ciudad Juárez. 

"Eles dizem que Juárez renasceu, que é nova. Mentiras horríveis!" disse Sergio Meza de Anda, diretor do Plano Estratégico de Juárez, uma organização comunitária. "As causas por trás persistem." 

*Azam Ahmed e Paulina Villegas, na Cidade do México, contribuíram com reportagem. 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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