O dia em que o comboio da embaixadora dos EUA atropelou um menino de 6 anos e o abandonou

Helene Cooper

Em Mokong (Camarões)

  • Andrew Esiebo/The New York Times

As mulheres carregando suas cebolas para o mercado sobre suas cabeças dão um passo ao lado quando um carro se aproxima. Uma vaca perdida segue para o centro, perseguida pelos pastores locais. Homens passam com troncos de madeira balançando, enquanto uma família inteira se equilibra precariamente em uma única bicicleta.

E as crianças, muitas crianças, correm pela pavimentação, de olho no gado enquanto chutam as bolas de futebol.

Assim, os aldeões se reuniram para assistir quando um comboio blindado de autoridades americanas, lideradas por Samantha Power, a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, passou pela estrada que liga as cidades na província de Extremo Norte de Camarões. Eles apontavam para os utilitários esportivos brancos reluzentes e se maravilhavam com o caminhão transportando as forças especiais "B.I.R." camaronesas, homens fortes com fuzis AK-47, coletes à prova de balas e capacetes. Elas espiavam os Seals da Marinha americana que escoltavam a coluna de 14 veículos, com armas automáticas em punho e bandanas cobrindo seus rostos.

Toussaint Birwe, 6 anos, era um dos curiosos. Resoluto e sério, com olhos fundos, ele sempre zanzava pela rua entre a casa de seus avós e o mercado, onde tentava convencer seu ídolo, Aboubakar Oumarou, 18 anos, a lhe comprar doces. Abou estava na escola, de modo que Toussaint estava sozinho enquanto perambulava à margem da estrada.

Enquanto os três primeiros veículos passavam naquele dia em abril, a cerca de 70 km/h, pelo vilarejo às 10h46 da manhã, um forte barulho veio do alto. Os olhos de Toussaint se voltaram para cima, para o helicóptero que apareceu repentinamente. Mais dois carros passaram, então Toussaint correu para o asfalto, apontando para o céu. Ele não viu o sexto carro vindo na sua direção.

A cerca de 30 metros de distância, Pauline Yassedi estava em casa quando ouviu o som de metal atingindo carne e osso. Algum agricultor, ela pensou, ficaria chateado por um carro ter atropelado sua cabra. Curiosa, ela correu na direção da estrada.

Então ela viu seu neto. Com coração apertado, Yassedi correu até Toussaint. Ela soube instantaneamente que ele estava morto, pois sua cabeça foi amassada, seu sangue espalhado no asfalto.

Ao redor dela estava o caos, com pessoas correndo na direção dela gritando. Aos 65 anos, Yassedi sentia com frequência dores em seus ossos, mas encontrou forças para ficar de joelhos e erguer seu neto em seus braços. Ela teve dificuldade em se levantar e alguém a ajudou.

Chorando, ela cambaleou até sua casa e entregou o menino para seu marido, Voumbele Datchaka.

Então ela caminhou até o rio à procura da mãe de Toussaint.

'Você vem aqui para ajudar'

Tentando explicar o acidente meses depois, Datchaka disse à repórter que talvez a morte de seu neto tenha sido a vontade de Deus. "Deus o trouxe ao mundo, e Deus o levou embora", ele disse. Sentada ao seu lado, sua mulher se sobressaltou e encarou o marido. Então ela cruzou os braços e olhou para o outro lado.

Ela ainda se lembra da fúria que sentiu ao ver os utilitários esportivos americanos desaparecendo pela estrada após um deles ter atropelado Toussaint. E não consegue tirar de sua mente a imagem do menino quebrado.

Power descreveu 18 de abril como sendo "o pior dia da minha vida profissional".

"O que posso dizer?" ela disse no programa "Nightline" da ABC após o acidente. "Você vem aqui para ajudar."

A coluna de carros seguia para o campo de refugiados da ONU em Minawao, que abriga 60 mil pessoas que fugiram do Boko Haram, o grupo extremista islâmico que aterroriza a Nigéria há anos e avançou para Camarões, Níger e Chade. O Boko Haram deixou pelo menos 20 mil mortos e tem visado meninas, muitas das quais são estupradas e casadas à força com seus captores.

Os soldados dos países na região, com a ajuda das forças das Operações Especiais dos Estados Unidos, tiveram algum sucesso em fazer o grupo recuar nos meses que antecederam a visita da embaixadora, apesar de ataques esporádicos do Boko Haram ainda ocorrerem.

Os militantes nunca atacaram Mokong, que fica a 40 km da fronteira nigeriana, onde 55 mil pessoas estão dispersas em casas de barro lotadas, ao longo das margens dos riachos que transbordam durante a estação das chuvas.

Mas o grupo islâmico atacou vilarejos mais próximos da fronteira e da floresta de Sambisa, onde oficiais militares americanos acreditam que a maioria dos combatentes está escondida. Duas semanas antes da passagem do comboio de Power, o Boko Haram sequestrou três crianças de Maroua, a capital do Extremo Norte de Camarões.

Para os aldeões em Mokong, o ataque ocorreu a distantes 30 quilômetros. Para as autoridades de segurança americanas que escoltavam o comboio, aquele ataque ocorreu perto demais. Essa diferença de percepção diz muito sobre as culturas africana e americana, e suas diferentes tolerâncias ao risco.

As pessoas em Mokong dirão que sua aldeia é segura. "A área é protegida pelo Exército e pelos comitês de vigilância", disse Datchaka. "Quando algum estranho vem aqui, nós informamos o chefe tradicional imediatamente."

Os assassinos conhecidos pelos aldeões não são homens armados. A malária tirou a vida de uma das irmãs de Toussaint de 2 anos. Água contaminada adoeceu fatalmente outra irmã de 3 anos. A fome e a pobreza cobram seu preço: pode não haver comida ou dinheiro suficiente caso uma família perca algumas poucas cabras ou vacas, ou se as plantações (sorgo, painço, feijão-de-corda, arroz) murcham. E a estrada também deixa suas vítimas. Dois adolescentes morreram e outro ficou ferido nos últimos dois anos em acidentes em uma curva perigosa perto de onde Toussaint foi atropelado.

Mas para os encarregados de garantir a segurança de autoridades do governo americano no exterior, o mundo é um mapa marcado com áreas de risco: zonas de guerra, o terreno que muda constantemente ocupado por terroristas do Estado Islâmico ou da Al Qaeda, insurreições em pequena escala e outras ameaças. O simples fato de ser uma autoridade americana em alguns países pode transformar alguém em alvo.

O fracasso é inaceitável: painéis no Congresso passaram dois anos e gastaram mais de US$ 7 milhões investigando por que o Departamento de Estado, o Pentágono e a CIA não conseguiram impedir a morte de quatro americanos, incluindo o embaixador na Líbia, quando o complexo diplomático americano em Benghazi foi atacado em 2012.

Depois que Toussaint foi atropelado, os agentes de segurança decidiram não parar a coluna de carros por preocupações de segurança. Uma ambulância que viajava com o grupo parou para oferecer ajuda, mas não havia nada que pudesse ser feito. Os agentes de segurança americanos deram ordens para que as pessoas no sexto utilitário esportivo, que parou brevemente após atropelar o menino, voltasse imediatamente a acompanhar o comboio.

"Não pare!" disse uma voz.

Quinze minutos depois, os carros chegaram a Mokolo, a capital da província. Colin Thomas-Jensen, um assessor de Power, desceu do sexto carro. Seus olhos estavam marejados.

A repórter do "Times" o abordou. "Você acha que o menininho está vivo?" ela perguntou.

"Como posso saber?" disse Thomas-Jensen, acrescentando que ele estava no carro que não parou após o atropelamento da criança. Ele parecia abalado.

'Voltar ao X'

Nos minutos, e então horas, após o acidente, os aldeões seguiram para o ponto de encontro de sua cidade: a estrada.

Eles estavam vestidos de todas as cores, muitos deles com roupas usadas com logos de equipes esportivas americanas e europeias. Havia um menino com uma camiseta vermelha do Chicago Bulls, perto de um homem jovem com uma camisa amarela com patrocínio da Samsung, do Chelsea Football Club.

Entre eles estava Aboubakar Oumarou. Por motivos que Abou nunca entendeu, Toussaint se apegou a ele. Abou passou a se ver como um irmão mais velho para o menino, que estava sempre descalço pedindo carona até o mercado.

Naquela manhã, Abou estava assistindo uma aula de matemática quando o acidente aconteceu. Juntamente com outros alunos, ele correu para a estrada. E ele permaneceu lá, andando de um lado para outro, com a raiva fervilhando. Ele podia ver o ponto, marcado com sangue, onde seu pequeno amigo morreu.

Toussaint era diferente da maioria das crianças que brincam ao longo da estrada em Mokong. O pai dele, Emmanuel Dague, posteriormente o descreveu como "excepcional", dizendo que seu filho era pensativo e evitava problemas.

Abou foi à casa de Toussaint após o acidente, mas a mãe do menino, Fanta Makachi, estava chorando. Yassedi foi buscá-la no rio, onde estava lavando roupa. O pai de Toussaint estava em uma fábrica de roupas em outra cidade; ele não ficou sabendo do ocorrido porque não podia usar seu celular no trabalho.

Cinco horas depois, policiais e agentes de segurança estavam gritando com os aldeões para que se afastassem. A importante dignatária americana retornaria.

Por estar viajando à frente da coluna de carros naquela manhã e com problemas com e-mail em seu BlackBerry, Power só ficou sabendo do acidente após chegar a Mokolo, perto do campo de refugiados da ONU, disseram seus assessores.

Primeiro, ela se encontrou brevemente com os líderes provinciais. Começou a garoar e, do lado de fora da prefeitura, mulheres dançando e percussionistas em trajes tradicionais, assim como moradores locais, aguardavam para recebê-la.

Então Thomas-Jensen, Gideon Maltz, o vice-chefe de gabinete de Power, e Kurtis Cooper, seu porta-voz, chamaram Power de lado. Eles então lhe contaram que o carro no qual Thomas-Jensen estava tinha atropelado, e provavelmente matado, uma criança.

"Oh, meu Deus", disse Power, a mãe de um menino de 7 anos e de uma menina de 3, como narrou Cooper. "Temos que voltar."

Os agentes de segurança não gostaram da ideia, disseram funcionários americanos, que falaram apenas sob a condição de anonimato por estarem falando de discussões internas. Eles chamaram de "voltar ao X", uma frase de segurança diplomática que significa algo que não se deve fazer. Não refaça seus passos. Não deixe de mudar rotas. E, especialmente, não volte à cena de um acidente onde aldeões e parentes enfurecidos estão aguardando.

Ao longo da tarde, Power percorreu taciturna o campo de refugiados, sentando-se com mulheres que foram brutalizadas pelo Boko Haram. Mas ela insistia em voltar a Mokong.

Mawitawa Kitkel, 80 anos, se juntou a Abou, o amigo de Toussaint, à margem de estrada juntamente com mais de 300 outros aldeões. Quando o comboio se aproximou, as forças especiais camaronesas e outros agentes de segurança margearam a estrada, protegendo os veículos dos aldeões.

O humor deles estava muito diferente das boas-vindas de horas atrás. Onde antes havia vivas, agora havia silêncio. Onde antes mãos aplaudiam, agora braços estavam cruzados.

Kitkel, apoiado em sua bengala, olhou para o comboio. "Fiquei pensando o tempo todo em como Toussaint era especial", ele disse posteriormente. "Americanos não vêm aqui. Fiquei feliz por estarem vindo, mas isso se transformou em revolta pelo que fizeram aqui."

Power caminhou até a casa da família de Toussaint. Ela tentou transmitir por meio de intérpretes seu pesar pelo que tinha acontecido, disseram funcionários americanos; os avós do menino não falavam nem inglês e nem francês, apenas mofu. A mãe de Toussaint estava abalada demais para dizer algo. O pai ainda estava no trabalho, sem saber da morte de seu filho.

Datchaka disse que se recorda do momento em que Power entrou em sua casa. Ele ficou perplexo, ele disse, porque esperava um presidente. Quem mais comandaria tantas pessoas, tanta segurança, em um comboio passando tão depressa por uma cidade cheia de pessoas, com um helicóptero no alto?

O que ele viu foi uma mulher comum, ele disse. Ele não conseguiu entender as palavras de desculpas, mas ele se recordou de que ela estava chorando.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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