Washington prepara segurança pesada contra protestos e terrorismo na posse de Trump

Nicholas Fandos

Em Washington (EUA)*

  • Todd Heisler/The New York Times

    Telões em frente ao Memorial Lincoln exibem o slogan de Trump "Tornar a América Grande de Novo" dias antes da posse do empresário na presidência americana

    Telões em frente ao Memorial Lincoln exibem o slogan de Trump "Tornar a América Grande de Novo" dias antes da posse do empresário na presidência americana

As autoridades policiais estão nas etapas finais de fechar uma zona de segurança fortificada que envolve o Capitólio e o histórico National Mall [Passeio Nacional] em Washington, preparando-se para a posse do presidente Donald Trump na sexta-feira (20) e os protestos substanciais que ela deverá provocar.

Além da série habitual de ameaças, as autoridades de agências federais, estaduais e municipais estão se preparando este ano para o que, segundo elas, poderão ser protestos de grande escala destinados a perturbar a cerimônia e registrar a reprovação à presidência de Trump, no momento em que o mundo estará assistindo a sua ascensão ao cargo. Uma marcha planejada para o sábado (21) poderá atrair até 500 mil pessoas, segundo uma autoridade, aumentando a pressão sobre os policiais.

Essas ameaças estão transformando as comemorações desta semana no maior desafio de segurança desde a posse do presidente Barack Obama, em 2009, que atraiu à cidade uma multidão recorde, estimada em 1,8 milhão de pessoas, e produziu pelo menos uma ameaça estrangeira, depois desmentida, segundo as autoridades.

"Precisamos estar vigilantes, temos de planejar, nos preparar", disse Jeh Johnson, o secretário de Segurança Interna, durante uma entrevista na semana passada.

Sam Hodgson/The New York Times
Policiais patrulham região da Casa Branca dois dias antes da posse de Trump

Os órgãos de inteligência disseram que não têm informações verossímeis sobre ameaças à posse ou a eventos relacionados, mas que as equipes de segurança estão mobilizadas em plena capacidade.

Durante um jantar em Washington na terça-feira (17), Trump previu que sua cerimônia de posse atrairá uma multidão "recorde" e elogiou um grupo de motociclistas que, segundo ele, protegerá sua celebração de manifestantes.

Membros do governo dizem que não há evidências que confirmem essa alegação. Eles estão prevendo um público de 700 mil a 900 mil pessoas, mas as autoridades advertiram que este poderá variar dependendo do clima.

Uma multidão dessas proporções seria comum na posse de um novo presidente, mas significativamente menor que os cerca de 1,8 milhão que se reuniram em 2009 para ver Obama prestar o juramento. Uma multidão relativamente menor, calculada em 300 mil pessoas, compareceu à posse de George W. Bush em 2001.

Mas desta vez, refletindo as profundas e persistentes divisões políticas do país, os espectadores que participarem da posse deverão ser acompanhados de milhares de outros que pretendem se manifestar contra e a favor de Trump. Johnson disse que as autoridades policiais registraram 99 grupos que planejam atos para o período da posse, incluindo 63 somente na sexta-feira.

A polícia de Washington e do Serviço Nacional de Parques tentou separar os grupos pró e contra Trump entre si e dos principais eventos da posse, quando possível.

A maior demonstração deverá ocorrer no sábado, quando centenas de milhares de pessoas deverão participar da Marcha das Mulheres em Washington.

Christopher T. Geldart, diretor de segurança interna no Distrito de Columbia, disse que sua equipe se prepara para 400 mil a 500 mil pessoas na marcha e espera atos de protesto menores em outros locais da cidade no sábado.

Esses números provavelmente serão maiores que os vistos em posses desde pelo menos a época da guerra do Vietnã. A posse de Bush em 2001 teve uma manifestação de protesto modesta, a maior na história recente, mas foi muito desorganizada e não causou perturbações significativas. A oposição à guerra no Iraque atraiu manifestantes mais uma vez em 2005. Muito poucos manifestantes protestaram contra Obama em 2009 ou 2013.

Sam Hodgson/The New York Times
Fachada oeste do Capitólio norte-americano na semana da posse de Donald Trump

Para as autoridades de segurança, a presença de manifestantes --e potenciais choques entre grupos favoráveis e de oposição a Trump-- acrescentará uma camada de preocupação ao complexo plano de proteção à transmissão de poder, que foi desenvolvido durante a maior parte do último ano e provavelmente custará mais de US$ 100 milhões.

Os órgãos de inteligência estão rastreando cuidadosamente um amplo leque de novas e antigas ameaças potenciais, de ataques cibernéticos a extremismo violento nacional e complôs estrangeiros.

Operando em um posto de comando unificado, dezenas de agências vão comandar uma equipe de aproximadamente 28 mil funcionários de segurança, monitorando a capital nas ruas, do ar e de dois rios que cortam a cidade.

Essas forças, que se aproximam do número mobilizado em 2009, deverão incluir cerca de 7.800 membros da Guarda Nacional, 5.000 policiais de Washington e de todo o país, assim como 10 mil representantes do Departamento de Segurança Interna, incluindo a Guarda Costeira, o Serviço Secreto e a Administração de Segurança nos Transportes.

Johnson disse que os planejadores da posse deram especial atenção às ameaças de terroristas individuais, os chamados "lobos solitários", diante da evolução da ameaça do terrorismo global nos últimos quatro anos.

As autoridades começarão aplicando uma série de perímetros "suaves" e "duros" ao redor de Washington nas primeiras horas de sexta-feira. Caminhões de lixo, de cimento e outros objetos pesados serão usados para erguer uma barricada ao redor do perímetro interno, para evitar a possibilidade de um ataque de um veículo grande dirigido contra a multidão, como ataques terroristas recentes em Nice, na França, e em Berlim.

Cinco dos maiores hospitais de Washington --Sibley Memorial, Universidade Howard, Universidade George Washington, MedStar Washington Hospital Center e Centro Médico Nacional Infantil-- foram postos em alerta. As equipes médicas de cada um deles foi solicitada a não marcar cirurgias eletivas na sexta-feira, para manter o maior número possível de leitos livres.

O sistema de metrô da cidade, que foi prejudicado por um plano de manutenção que durou um ano, estará operando em plena capacidade na sexta-feira, quando as autoridades preveem grandes multidões no sistema, entrando e saindo de Washington. Fora algumas estações fechadas perto do Mall, no centro de convenções e diante do Pentágono, todas as linhas estarão funcionando em nível de horário de pico desde as 4h até a noite de sexta-feira. Trens extras serão acionados no sábado para atender aos manifestantes.

As vias ao redor do Capitólio, da Casa Branca, do Mall e de locais que abrigam eventos da posse serão progressivamente fechados a partir de quinta-feira (19).

Autoridades policiais disseram que estão se preparando para que os manifestantes tentem forçar algumas barreiras, incluindo as na Pennsylvania Avenue, na qual o cortejo presidencial seguirá até o Capitólio e ocorrerá o desfile da posse.

Um dos principais grupos que planejam manifestações, o #DisruptJ20, viu seus números incharem nos últimos dias, enquanto pessoas de todo o país começavam a chegar a Washington. Os organizadores do grupo disseram na quarta-feira (18) que planejaram uma série de comícios permitidos e outros "atos" não permitidos para os próximos dias.

O mais perturbador poderá ser uma série de bloqueios no início da manhã planejados para os postos de checagem de segurança no perímetro da posse, pelos quais todos os que participarão da cerimônia terão de passar.

"Pretendemos basicamente definir aqui o tom da resistência para os próximos anos", disse Lacy MacAuley, uma porta-voz do grupo.

Johnson disse que as autoridades estão cientes desses planos e de outros, e que "precauções especiais" serão tomadas para garantir que a posse não seja interrompida.

A marcha das mulheres no sábado, que começará com um comício na base da Colina do Capitólio, deverá causar menos distúrbio. Os organizadores vêm trabalhando estreitamente com a polícia, e como as festividades da posse já terão terminado quando a marcha começar, Geldart disse que o dia apresentará um desafio de segurança muito mais simples.

"Basicamente não vamos diminuir nada depois da posse", disse Geldart. "Vamos deixar as coisas no lugar."

*Nick Corasaniti colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos