Mobilização de porta-aviões mostra falta de opções de Trump para enfrentar Coreia do Norte

Mark Landler e Choe Sang Hun

Em Washington (EUA)

  • AFP PHOTO / JIM WATSON

    7.abr.2017 - Trump durante encontro com o líder chinês Xi Jinping em Mar-a-Lago, na Flórida, horas depois de ordenar o ataque aéreo dos EUA contra uma base aérea na Síria

    7.abr.2017 - Trump durante encontro com o líder chinês Xi Jinping em Mar-a-Lago, na Flórida, horas depois de ordenar o ataque aéreo dos EUA contra uma base aérea na Síria

A mobilização pelo presidente Donald Trump de um porta-aviões nas águas da península da Coreia aumentou as tensões em todo o leste da Ásia. Mas a demonstração de força oculta uma falta de melhores opções para lidar com as provocações do governo beligerante da Coreia do Norte.

O presidente chinês, Xi Jinping, não fez um compromisso público de aumentar a pressão sobre a Coreia do Norte durante sua reunião com Trump em Palm Beach, na Flórida, na semana passada.

Mesmo em particular, segundo autoridades, ele foi cauteloso. E um ataque à Coreia do Norte encerra riscos muito maiores do que o ataque de mísseis que Trump ordenou na semana passada para punir o presidente Bashar al-Assad, da Síria, por seu ataque mortífero com armas químicas.

Isso deixa a Casa Branca em uma difícil situação sobre uma questão de segurança que Trump descreveu como a mais urgente de sua Presidência. Trump advertiu antes da reunião com Xi que os EUA agiriam sós contra a Coreia do Norte se a China não aderisse a sua campanha de pressão.

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Uma autoridade graduada manifestou esperança de que o tom produtivo da reunião acabasse levando a novas ações da China. Mas o ataque de mísseis de Trump, que ocorreu enquanto ele e Xi jantavam, poderá ter consequências mistas: membros do governo disseram que ele convenceria o líder chinês sobre a decisão de Trump, enquanto alguns especialistas disseram que ele irá reforçar os temores em Pequim de que ele seja uma pessoa indecisa e imprevisível.

Uma demonstração de força militar dos EUA isoladamente não deverá impedir que o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, teste bombas nucleares e mísseis balísticos. O ex-presidente Barack Obama ordenou que o porta-aviões USS George Washington se deslocasse duas vezes ao mar Amarelo para intimidar o pai de Kim, Kim Jong-il, sem convencê-lo a mudar seu comportamento.

"Isso é déjà vu mais uma vez", disse Jeffrey Bader, que assessorou Obama sobre a China. "Eles indicaram uma nova abordagem, mas estão descobrindo que as novas abordagens não são especialmente interessantes."

A Casa Branca provavelmente aplicará sanções secundárias, que visam empresas e bancos chineses que ajudam a Coreia do Norte a obter moeda estrangeira e financiar seus programas de armamentos. A questão é se o governo chinês irá cooperar com a iniciativa, e caso contrário se Trump irá impor as sanções unilateralmente, mesmo sob o risco de romper o relacionamento entre Washington e Pequim.

No último domingo (9) Wu Dawei, o principal enviado chinês para iniciativas internacionais para pôr fim ao programa nuclear da Coreia do Norte, reuniu-se com seu homólogo sul-coreano, Kim Hong-kyun, em Seul, para discutir o que fazer sobre o avanço dos programas nuclear e de mísseis do Norte.

Kim disse que ele e Wu não falaram sobre um possível ataque militar dos EUA contra a Coreia do Norte.

Nas últimas semanas, assessores de Trump advertiram que não estão descartando "opções militares". No fim de semana, Tillerson disse que o ataque aéreo na Síria foi um sinal para outros países de que "é provável que haja uma reação" se eles representarem um perigo.

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Analistas e autoridades da Coreia do Sul temem que um ataque militar preventivo contra a Coreia do Norte --mesmo que se limite às bases nucleares e de mísseis-- poderia desencadear uma retaliação catastrófica e uma guerra em grande escala. Seul fica ao alcance da artilharia e dos foguetes da Coreia do Norte agrupados perto da fronteira.

Os planejadores militares no Pentágono compartilham esses temores. "Enquanto os militares estão muito concentrados em manter uma forte posição de dissuasão na península, estão agudamente conscientes dos perigos da escalada", disse Derek Chollet, um ex-vice-secretário de Defesa para assuntos de segurança internacional.

O risco da escalada na Síria era menor, disse Chollet, porque Assad é mais fraco que Kim e havia menos preocupação de que o arsenal sírio de armas de destruição em massa caísse em mãos erradas.

"Uma Coreia do Norte com armas nucleares é outra história", disse ele.

Na Coreia do Sul, a perspectiva de um ataque preventivo é há muito tempo considerada irreal. Mas "sob o presidente Trump, temos medo de que não seja mais assim", disse Cheong Seong-chan, um analista do grupo de pensadores Instituto Sejong, na Coreia do Sul.

Alguns analistas americanos afirmam que a imprevisibilidade de Trump poderá lhe dar vantagens com os chineses. Michael Green, um assessor para a Ásia do presidente George W. Bush, lembrou de negociações com a China e a Coreia do Norte quando Bush começou a invasão do Iraque em 2003. Os chineses visivelmente mudaram de tom, disse ele, e pressionaram mais os norte-coreanos.

"Todo mundo aposta na imprevisibilidade da Coreia do Norte", disse Victor Cha, que também trabalhou sobre a Ásia durante o governo Bush. "A maioria dos outros atores aposta na previsibilidade e confiabilidade dos EUA. A única vez que eu já vi os chineses preocupados é quando não têm certeza do que os EUA farão."

Os aliados dos EUA na região ofereceram apoio geral para dissuasão, mas não necessariamente para uma ação preventiva. No Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe disse que apoia a "resolução" dos EUA ao impedir que a Síria use armas químicas. Mas não comentou diretamente a mobilização do porta-aviões na região.

Para os sul-coreanos, a ordem de Trump de lançar uma chuva de mísseis sobre a Síria demonstrou sua disposição a usar meios militares contra um adversário considerado particularmente agressivo. E a ordem para que o porta-aviões USS Carl Vinson voltasse a águas próximas da península da Coreia pareceu incomum porque ele realizou exercícios na área no mês passado.

Moon Sang-gyun, um porta-voz do Ministério da Defesa sul-coreano, disse que o grupo de ataque está voltando para dissuadir as provocações norte-coreanas nas próximas semanas. A Coreia do Norte observa datas importantes neste mês, incluindo o aniversário de seu fundador, Kim Il-sung, o avô de Kim Jong-un, em 15 de abril, o que aumenta os temores de que possa realizar testes de armas como comemoração.

Na terça-feira (11), a Coreia do Norte atacou os EUA pela mobilização do Carl Vinson. A Agência de Notícias Central Coreana citou um porta-voz do Ministério do Interior: "Vamos responsabilizar totalmente os EUA pelas consequências catastróficas decorrentes de seus atos revoltantes".

"A grave situação predominante prova mais uma vez que a República Democrática Popular da Coreia foi totalmente justa quando aumentou de todas as maneiras suas capacidades militares de autodefesa e ataque preventivo com uma força nuclear como eixo", disse a reportagem da agência.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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