Nos EUA, cada vez mais idosos decidem morar juntos sem se casar

Paula Span

  • Mark Makela/The New York Times

    Karen Kanter e Stan Tobin, que moram juntos desde 2004 sem se casar, em sua casa na Filadélfia

    Karen Kanter e Stan Tobin, que moram juntos desde 2004 sem se casar, em sua casa na Filadélfia

De várias maneiras, a vida que Karen Kanter e Stan Tobin levam na Filadélfia parece muito típica. Os dois têm 75 anos e ficam felizes quando assistem juntos a filmes e peças de teatro, visitam seus filhos e netos e experimentam novos restaurantes (mas evitam sushi).

Tobin, contador com um pequeno escritório tributário, consegue tempo para se reunir com um grupo de amigos todos os meses. Professora de ensino médio aposentada, Kanter se divide entre grupos de leitura e apreciação de arte enquanto faz trabalhos voluntários e escreve um romance histórico.

Anos atrás, ele a apoiou durante um tratamento de câncer de mama bem sucedido. Ela vem alertando o companheiro sobre os quilos a mais, então ele voltou para as reuniões do Vigilantes do Peso.

Cuidadosos sobre os arranjos financeiros e legais, eles possuem juntos um apartamento perto do Museu de Arte e uma casa de campo no norte do estado de Nova York. Ela tem uma procuração dele para assuntos legais e de saúde e vice-versa.

"Nós nos amamos e queremos ficar juntos, e selamos um compromisso de nos mantermos unidos até que a morte nos separe", diz Kanter.

Mas apesar de serem um casal desde 2002 e de compartilharem uma casa desde 2004, eles não são casados. Entre os idosos, esse tipo de relacionamento é cada vez mais comum.

O número de pessoas acima de 50 anos que coabitam com um parceiro sem que sejam casados cresceu 75% de 2007 a 2016, segundo um relatório do Pew Research Center divulgado no mês passado – o maior aumento entre todas as faixas etárias.

"Foi uma descoberta surpreendente. Normalmente achamos que coabitar é coisa de jovem", afirma Renee Stepler, analista do Pew.

E a maioria é. Mas o número de pessoas morando juntas acima dos 50 anos subiu de 2,3 milhões para quatro milhões em uma década, segundo Stepler, e a quantidade daqueles acima dos 65 anos dobrou para cerca de 900 mil.

Os demógrafos estão prestando atenção a essa tendência. No encontro anual da Associação Americana de População em Chicago, no mês passado, em uma sessão sobre "novas parcerias" entre os adultos mais velhos, o palestrante Jonathan Vespa, do Escritório de Recenseamento dos Estados Unidos, citou o assunto diretamente em uma apresentação chamada "A Revolução Cinza nos Arranjos dos Lares".

A tendência reflete em parte o grande número de integrantes da geração dos baby boomers, assim como um aumento em suas taxas de divórcio.

O chamado divórcio cinza praticamente dobrou entre as pessoas com mais de 50 anos desde os anos 1990. O divórcio libera duas pessoas para novas parcerias, claro, enquanto perder um esposo deixa disponível apenas uma, e hoje em dia isso tende a acontecer mais tarde.

Mas as atitudes também mudaram. "As pessoas que se divorciaram têm uma visão mais ampla do que são as relações", explica Deborah Carr, socióloga da Universidade Rutgers que foi presidente do painel da Associação de População.

"A ideia de casamento como o status ideal começa a desaparecer, e a felicidade pessoal se torna mais importante."

Além disso, claro, os baby boomers praticamente inventaram a coabitação generalizada antes do casamento quando estavam com 20 ou 30 anos – ou pelo menos é o que eles pensam.

"Costumava ser chamado de "se juntar", e não era aprovado", conta Kelly Raley, socióloga da Universidade do Texas, em Austin, que foi editora do "Journal of Marriage and Family". As famílias e os grupos religiosos frequentemente condenavam que as pessoas vivessem juntas sem se casar.

Mas os americanos aceitam muito mais hoje, diz ela, e as pessoas que estão na casa dos 60 anos "são muito diferentes daquelas que tinham essa idade 20 anos atrás".

Kanter, por exemplo, já havia se divorciado duas vezes depois de casamentos longos – 38 anos no total – quando conheceu Tobin no Match.com. "Quando nos divorciamos temos muitas questões para resolver", afirma.

"Nossa vida é boa juntos, por que mexer nisso? Eu não vejo a importância daquele pedaço de papel."

Tobin, que também se divorciou depois de um casamento longo, não é contra se casar com a parceira – ele na verdade lhe pediu a mão de joelhos uma vez, apesar de saber que Kanter lhe diria não –, mas não vê problemas em apenas morarem juntos.

"O relacionamento é mais folgado. Não fazemos exigências sobre o tempo um do outro. Ela tem sua vida, eu cuido da minha e curtimos nosso tempo juntos."

Para as pessoas mais velhas, as vantagens e desvantagens são diferentes daquelas das pessoas mais novas, quando esse tipo de relacionamento tende a ser mais instável. Os demógrafos veem a maioria das coabitações de jovens como um prelúdio do casamento ou apenas um arranjo de curto prazo.

Mais tarde na vida, no entanto, a coabitação – como o novo casamento – aumenta o companheirismo e os círculos sociais, além da intimidade sexual, em uma idade em que as pessoas podem, de outra maneira, ficar isoladas. Financeiramente, juntar os recursos em uma casa só em geral melhora a estabilidade econômica, especialmente das mulheres, que correm mais risco de ficar pobres.

A coabitação também oferece algumas proteções econômicas. Os idosos hoje têm mais dívidas do que os de gerações anteriores, afirma Carr, entre hipotecas e empréstimos para a faculdade dos filhos. "Você se torna responsável pela dívida de seu cônjuge legal, mas não por aquela da pessoa que coabita com você", explica ela.

Casar-se também pode interferir na aposentadoria e nos benefícios do governo.

Jane Carney e Norm Stoner, que vivem em Oklahoma City, por exemplo, eram viúvos. Por anos, mesmo depois que ele se mudou para a casa dela em 2004, discutiram se deviam ou não tornar a união legal.

"A lista de motivos a favor era muito curta e dos contra bem longa", conta Carney, de 69 anos. Entre os contra: cada um recebia benefícios de viúvos do Serviço Social, que acabariam se os dois se casassem novamente. Além disso, os ativos de um impediriam o outro de se qualificar para o Medicaid.

Outros fatores são difíceis de quantificar. Os casais monitoram a saúde um do outro, então é melhor coabitar, física e mentalmente, do que viver sozinho, explica Carr.

Mas os relacionamentos com filhos adultos podem balançar. Matthew Wright, candidato a doutor em Sociologia na Universidade Estadual Bowling Green, afirmou no encontro da Associação de População que as pessoas que coabitam têm menos contatos frequentes com seus filhos e os relacionamentos são mais complicados do que os das pessoas que permaneceram casadas ou dos pais viúvos.

Os relacionamentos das pessoas que moram juntas com seus filhos, no entanto, não são diferentes dos de pais que se casam de novo ou dos divorciados, o que sugere que é a dissolução conjugal em si, e não o status legal da nova parceria, que cria essas tensões.

E quanto aos cuidados com a saúde? Os cônjuges se comprometem explicitamente a cuidar uns dos outros; e, na verdade, a relutância em assumir esse fardo pode dissuadir as mulheres mais velhas, principalmente as viúvas, de se casar de novo.

Idosos que coabitam, segundo uma grande pesquisa nacional, têm menos probabilidade de prestar assistência de saúde do que cônjuges – embora quando o façam, devotem tanto tempo quanto as pessoas casadas.

"Talvez eles dependam mais dos filhos", especula Carr. Se o divórcio tiver esfriado o relacionamento, no entanto, as crianças talvez estejam menos dispostas a ajudar.

O que acontece quando as pessoas que coabitam chegam a idades avançadas com a saúde ruim ainda permanece uma questão em aberto – mas é uma que os casais devem considerar.

Deixar documentos sobre quais são os desejos no final da vida, designar quem tomará decisões e escrever um testamento é até mais importante do que para casais legalizados. De outra maneira, as leis estaduais podem contrariar as preferências do parceiro.

De várias maneiras, a coabitação entre idosos permanece uma improvisação, um fenômeno que vem se tornando comum apenas recentemente, que os casais transformam como querem. "Não há regras fortes estabelecidas. As pessoas vão inventando", diz Raley.

Ou seguem um padrão marital sem assinar um documento legal.

Carney e Stoner, que está com 74 anos, nunca se casaram. Mas quando ele teve uma doença hepática e uma demência vascular, ela cuidou dele como se fossem marido e mulher. E quando ela não conseguia mais mantê-lo seguro em casa, Carney e os filhos de Stoner concordaram em colocá-lo em uma casa de repouso, onde ela o visita quase que diariamente.

Casados ou não, "temos um compromisso", afirma Carney. "Não posso nem imaginar ele ficando doente e eu dizendo aos filhos dele, 'É problema seu'. Depois de 20 anos? Não."

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