A líder filipino, Trump elogiou política antidrogas que executa pessoas sem condenação

David E. Sanger e Maggie Haberman

  • Carlo Allegri/ Reuters e Romeo Ranoco/ Reuters

O presidente Donald Trump elogiou o presidente Rodrigo Duterte, das Filipinas, em um telefonema no mês passado, por fazer "um trabalho incrível sobre o problema das drogas" no país-ilha, cujo governo sancionou matar os suspeitos a tiros nas ruas. Trump também se gabou de que os EUA têm "dois submarinos nucleares" ao largo da Coreia do Norte, mas disse que não quer usá-los.

Os comentários fazem parte de uma transcrição feita nas Filipinas de uma ligação em 29 de abril que circulou na terça-feira (23), sob uma capa marcada "confidencial", pela divisão das Américas do Departamento de Relações Exteriores das Filipinas.

Reprodução via Washington Post
Trecho do elogio de Trump a Duterte; transcrição foi publicada pelo "Washington Post"

Em Washington, uma autoridade graduada confirmou que a transcrição é uma representação exata do telefonema entre os dois líderes heterodoxos. A autoridade não tinha autorização para falar em público sobre o telefonema e o confirmou sob a condição do anonimato.

A Casa Branca também guarda transcrições de telefonemas do tipo, mas eles são habitualmente mantidos em sigilo. A interpretação filipina do telefonema oferece uma rara percepção de como Trump fala com seus homólogos: ele parece usar o mesmo tom com que fala em público, colocando as questões em termos definidos, muitas vezes elogiando líderes autoritários, geralmente despreocupado com as violações aos direitos humanos e genuinamente incerto sobre a natureza de seu adversário na Coreia do Norte.

Trump fez a ligação e a iniciou cumprimentando Duterte pelos ataques endossados pelo governo a suspeitos de envolvimento com drogas. O programa foi condenado por grupos de direitos humanos do mundo todo, porque as execuções extrajudiciais já tiraram mais de 6.000 vidas, sem prisão ou julgamento. Em março, o programa foi criticado no relatório anual sobre direitos humanos do Departamento de Estado dos EUA, que mencionou a "aparente desconsideração do governo pelos direitos humanos e o processo legal".

Trump não teve tais reservas. "Eu apenas queria cumprimentá-lo porque soube do incrível trabalho sobre o problema das drogas", disse. "Muitos países têm esse problema, nós temos um problema, mas que ótimo trabalho o senhor está fazendo e eu quis lhe telefonar para dizer isso."

Duterte respondeu que as drogas são "o flagelo do meu país hoje, e eu tenho de fazer alguma coisa para preservar a nação filipina". Trump respondeu que "nós tivemos um presidente anterior que não entendia isso", uma aparente referência ao presidente Barack Obama, "mas eu entendo isso".

Mas Duterte tinha outro assunto que queria discutir: a Coreia do Norte. Ele disse a Trump que "enquanto aqueles foguetes e ogivas estiverem nas mãos de Kim Jong-un, nunca estaremos seguros, pois não há como saber o que acontecerá a seguir".

Isso levou Trump a perguntar se Kim, o líder norte-coreano de 33 anos, é "uma pessoa estável ou não estável". Duterte opinou que Kim é instável, dizendo que ele sempre é visto rindo em imagens de testes de mísseis e nucleares.

Trump pareceu tentar tranquilizar Duterte. Disse que Kim "tem a pólvora, mas não tem o sistema de entrega --todos os seus foguetes estão falhando". O presidente não se referiu ao programa liderado pelos EUA de sabotar os lançamentos, embora em alguns testes antes e depois desse telefonema a Coreia tenha realizado diversos lançamentos bem sucedidos.

"Temos um grande poder de fogo lá", comentou Trump. "Temos dois submarinos --os melhores do mundo. Temos dois submarinos nucleares, mas não queremos usá-los, absolutamente."

Os dois conversaram sobre a potencial influência da China, e Duterte prometeu ligar para o presidente Xi Jinping. Trump comentou que os dois se encontraram em seu balneário na Flórida, e ele chamou Xi de "um bom sujeito".

A transcrição circulou amplamente na terça-feira, e "The Washington Post" e "The Intercept" publicaram artigos com base no mesmo documento.

O fim da conversa girou em torno de um primeiro encontro entre os dois presidentes, talvez quando Trump for a Manila no final deste ano. Mas Trump convidou por duas vezes Duterte a "vir ao Salão Oval".

"Vou adorar recebê-lo no Salão Oval, quando você quiser vir", disse Trump. "Cuide-se, Rodrigo", terminou. "Deus o abençoe."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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