Coletes de carpete, óculos de natação, capacetes de skate: quem são os jovens da Resistência antichavista

Meridith Kohut

Em Caracas (Venezuela)

  • Meridith Kohut/The New York Times

    Manifestantes se preparam para disparar "bombas" com fezes ou tinta contra a polícia em Caracas, na Venezuela

    Manifestantes se preparam para disparar "bombas" com fezes ou tinta contra a polícia em Caracas, na Venezuela

Grupos mistos de manifestantes contra o governo atiravam pedras, fogos de artifício e coquetéis molotov. Policiais e soldados revidavam com gás lacrimogêneo, jatos de canhão de água, balas de borracha e disparos de chumbinho.

Uma rebelião está se formando na Venezuela.

Quase todos os dias, há mais de três meses, milhares de pessoas vão às ruas para declarar sua fúria contra o presidente Nicolás Maduro e sua liderança cada vez mais repressora.

Esses confrontos muitas vezes se transformam em batalhas de rua desiguais e às vezes letais --mais de 90 pessoas foram mortas e mais de 3.000, presas.

Trabalho como fotojornalista para "The New York Times" na Venezuela há nove anos, e nos últimos dois me concentrei nas dificuldades dos habitantes que enfrentam a pior crise econômica da história do país.

Presenciei sua raiva crescente conforme os alimentos e remédios desapareciam e o autoritarismo de Maduro aumentava.

Meridith Kohut/The New York Times
Manifestantes se protegem com escudo caseiro escrito "Mamãe, te amo", em Caracas

Seu governo adiou as eleições enquanto prendia os adversários. Agora ele convocou uma nova assembleia constituinte, com poderes para reescrever a Constituição, o que muitos venezuelanos consideram um golpe descarado e uma ameaça à democracia.

Maduro chamou os protestos de uma tentativa violenta de derrubar seu governo. Os manifestantes dizem estar invocando seu direito a se rebelarem contra a tirania, garantido pela Constituição que ele quer revisar.

Eu com frequência começo o dia pegando um mototáxi e indo para as linhas de frente, onde o gás lacrimogêneo domina e projéteis voam.

Passei a conhecer alguns dos manifestantes habituais, como Tyler, 22, um ex-apoiador do governo que se tornou perito em evitar balas de borracha e tiros de chumbinho atrás de um escudo feito em casa, pintado de azul, amarelo e vermelho, como a bandeira venezuelana. Seus olhos espiam detrás de uma camiseta preta enrolada na cabeça para esconder sua identidade.

Sentamo-nos atrás de uma barricada em chamas durante uma trégua e ele me falou sobre sua família.

Tyler disse que está lutando porque a falta de medicamentos matou sua mãe, agravou a saúde de sua avó, que tem pressão alta, e deixou sua irmã menor, que é asmática, sem respirar direito. Ele disse que sua família só pode fazer uma refeição por dia, geralmente de arroz puro.

"Estamos vivendo uma fome que nunca tivemos antes", disse ele. "As coisas estão realmente feias aqui, e não vamos suportar mais."

Meridith Kohut/The New York Times
Soldados formam barricada contra manifestantes da oposição em Caracas

Tyler entrou para a Resistência --os manifestantes de rua que se chocam diariamente com as forças de segurança. Membros da Resistência dizem que ir às ruas é a única opção que lhes resta.

"Se eles não nos matarem durante os protestos, morreremos de qualquer jeito --por um celular ou um par de tênis--, ou morreremos de fome, ou simplesmente de alguma doença, porque não há remédios aqui", disse Marco, um estudante.

Sinto como se estivesse dentro de um videogame quando fotografo as linhas de frente --saltando obstáculos e me esquivando de projéteis que zunem de todos os lados. Dezenas de antagonistas são feridos durante cada protesto, alguns evacuados com ossos quebrados e ferimentos ensanguentados.

Infelizmente para o corpo de imprensa, os dois lados têm uma mira longe de perfeita. Somos frequentemente atingidos por pedras, tinta e canhões de água. Eu levei um tiro de chumbinho no capacete, de cerca de 15 m de distância, que me causou uma concussão. Muitos fotógrafos se saíram pior e estão hospitalizados com ferimentos sérios.

As forças de segurança geralmente visam os jornalistas, os prendem e espancam, quebrando ou apreendendo suas câmeras. Mais de 200 "atos de agressão" contra jornalistas foram relatados desde o início dos protestos.

Meridith Kohut/The New York Times
Manifestantes oposicionistas ocupam avenida em Caracas

Os manifestantes agrediram soldados e policiais capturados e queimaram suas motos. Eles também atuaram como grupos de vigilantes. Quando um homem foi acusado de roubar durante um protesto, membros da Resistência lhe deram socos e facadas, o molharam com gasolina e incendiaram. O homem, Orlando Figuera, morreu dias depois.

Quando os veículos militares blindados dirigem seus canhões de água para dispersar os manifestantes, membros da Resistência às vezes revidam com grandes estilingues, cada um deles manuseado por quatro homens. Seus projéteis de artilharia são pequenos vidros de comida para bebê cheios de tinta ou excremento humano.

"É nojento", disse um manifestante, "mas todo mundo tem e, mais importante, é grátis."

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Manifestante antichavista protesta em rua de Caracas

Os manifestantes também improvisam para se protegerem. Alguns transformam óculos de natação e garrafas plásticas de refrigerante em máscaras antigás improvisadas e criam caneleiras feitas de revistas velhas e fita adesiva.

Outros fizeram armaduras com restos de carpete para evitar as balas de borracha e tiros de chumbinho, que são letais a curta distância. Mais de 30 manifestantes morreram dessa maneira, segundo uma contagem de jornalistas locais.

"Não caçoe", disse um manifestante sorrindo quando lhe perguntei sobre seu colete de carpete. "Já me salvou várias vezes."

Os membros da Resistência geralmente são jovens e dizem não apoiar o governo nem os políticos de oposição. Alguns são estudantes universitários de classe média que lutam com câmeras presas a capacetes de skatista e publicam as imagens no Instagram.

Os manifestantes pacíficos variam muito. Jovens, velhos, profissionais e desempregados participam de protestos sentados e ações para bloquear as ruas. Centenas de milhares marcharam em direção aos prédios do governo. Quase sempre forças de segurança os bloqueiam com violência.

Durante a Marcha pela Saúde, milhares de médicos, enfermeiros e pacientes protestaram contra o sistema público de saúde deficiente. Eles levavam placas feitas de caixas de remédios vazias com mensagens como "SOS" e "Sem remédios eles também estão nos matando".

Meridith Kohut/The New York Times
Milhares de médicos protestam contra a falta de remédios e a quebra do sistema de saúde, em Caracas

Quando soldados dispararam gás lacrimogêneo contra eles, médicos de aventais brancos cruzaram os braços --soluçando por causa do gás--, mas se recusaram a sair.

Em outra marcha, padres católicos, freiras e outros manifestantes religiosos carregaram uma grande imagem da Virgem Maria decorada com a bandeira nacional.

Na Marcha das Panelas Vazias, famílias bateram em panelas em protesto contra a escassez de alimentos e os preços disparados. Uma pesquisa recente descobriu que 90% dos venezuelanos dizem que não podem pagar pela comida de que precisam.

O equipamento de proteção feito em casa não garante a segurança. Neomar Lander, 17, usava um colete de tapete quando morreu nas linhas de frente. Seus companheiros colocaram velas ao redor da mancha de sangue onde ele caiu e mantiveram vigília até tarde da noite.

Johan Caldera, amigo de Lander, disse que está ainda mais determinado a protestar.

"Agora eu não tenho medo, porque já perdi o medo que tinha e o respeito pelos militares", disse ele.

"Os verdadeiros soldados da Venezuela usam trapos no rosto", disse ele. "Eles não usam granadas, usam pedras."

Muitos membros da Resistência usam camisetas que lembram o uniforme de Simón Bolívar, o líder da rebelião pela independência da Venezuela da Espanha. Às vezes eles convocam os soldados a unir-se a eles, citando Bolívar: "Quando a tirania faz a lei, a rebelião é um direito."

O governo chama os membros da Resistência de terroristas e ameaçou uma reação militar mais potente. "Se a Venezuela for mergulhada no caos e na violência e a Revolução Bolivariana for destruída, iremos a combate", disse Maduro.

Na vigília por Lander, um colega da Resistência se agachou no local onde Lander foi morto e prometeu ficar na rua até que o governo caia.

Olhando fixamente para minha câmera, ele mandou esta mensagem ao presidente: "Olhe bem para o meu rosto, porque não tenho medo".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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