"Apenas" príncipe, marido da rainha da Dinamarca transforma seu enterro em protesto

Martin Selsoe Sorensen

Em Copenhague (Dinamarca)

  • Marie Hald/Scanpix via Reuters

    16.abr.2016 - A rainha Margrethe e o príncipe Henrik acenam do balcão durante a celebração do aniversário de 76 anos da rainha, no palácio Amalienborg, em Copenhague

    16.abr.2016 - A rainha Margrethe e o príncipe Henrik acenam do balcão durante a celebração do aniversário de 76 anos da rainha, no palácio Amalienborg, em Copenhague

O príncipe Henrik da Dinamarca está casado com a rainha Margrethe 2ª há 50 anos e durante todo esse tempo se mostra carrancudo. Agora, em um ato de protesto, ele disse que não quer mais ser enterrado ao lado dela, segundo anunciou na quinta-feira (3) a Casa Real dinamarquesa.

Por trás da decisão estão décadas de frustração pelo que ele considera um tratamento injusto.

Henrik, hoje com 83 anos, casou-se com Margrethe em 1967, e mais tarde recebeu o título de príncipe consorte. Mas o que ele realmente queria era ser rei --ou, no caso, "rei consorte".

"Não é segredo que há muitos anos o príncipe está descontente com seu papel e o título que recebeu na monarquia dinamarquesa", disse a diretora de comunicações da Casa Real, Lene Balleby, ao tabloide "BT". "Esse descontentamento cresceu mais e mais nos últimos anos."

"Para o príncipe, a decisão de não ser enterrado ao lado da rainha é a consequência natural de não ter sido tratado igualmente por sua mulher --por não ter o título e o papel que ele desejava", acrescentou Balleby.

O príncipe não anunciou onde ele gostaria de ser enterrado.

A rainha Margrethe 2ª, 77 anos, serve como chefe de Estado da Dinamarca e é responsável por assinar todas as leis aprovadas pelo Parlamento. Mas os poderes legislativos do país estiveram nas mãos de governos eleitos desde 1849.

As queixas de Henrik sobre seu título e cargo aumentaram nos últimos anos, mas ele também declarou seu protesto em público há mais de três décadas, quando reclamou por não receber um salário anual.

"A primeira sugestão foi por volta de seu 50º aniversário, quando ele disse na TV que achava difícil pedir a sua mulher dinheiro para comprar cigarros", disse Stephanie Surrugue, uma jornalista e autora de uma biografia do príncipe, intitulada "Loner" [Solitário].

Ele acabou recebendo um salário e funcionários, mas nunca conseguiu o título que desejava.

O raciocínio da corte dinamarquesa é que essa prática está de acordo com a de outras famílias reais europeias, mas isso não convenceu Henrik.

"Ele disse que ama sua mulher, mas tem dificuldades com a rainha como instituição", disse Surrugue. Sua ambição não é ser coroado regente, disse ela, mas de muitas maneiras "ele não se sente tratado como parte do casal governante". "É isso que motiva seu protesto."

O príncipe se aposentou da maioria de seus deveres oficiais no ano passado e raramente é visto em público. Balleby disse que o casamento dos dois e o trabalho da rainha não serão afetados pela mudança de planos de Henrik sobre o lugar de seu descanso final.

A Dinamarca se orgulha de ser um país que há séculos visa a igualdade de gêneros, mas o pedido de Henrik por direitos iguais com frequência foi alvo de zombaria.

"É absolutamente ridículo", disse Karen Sjoerup, professora associada na Universidade de Roskilde que é especializada em questões de gênero, ao jornal diário "Politiken", sobre as demandas do príncipe. "A corte não se baseia em igualdade, mas no direito de herança", disse ela. "A lei sobre igualdade de gêneros não se aplica à corte real."

Quando Henrik se casou com Margrethe, que era então princesa herdeira, ele era um diplomata bem sucedido no serviço estrangeiro francês e membro da nobreza.

Ao se casar com Margrethe, trocou sua carreira por um papel indefinido como marido da rainha --o primeiro caso na história da Dinamarca, onde todos os monarcas anteriores tinham sido homens, exceto por uma rainha no século 14, que se casou com o rei da Noruega.

Sem um título conhecido --e respeitado-- pelo público, Henrik sentiu que seus esforços para promover a Dinamarca foram depreciados.

Há pelo menos sete anos, o escultor Bjorn Norgaard trabalha em um sarcófago de vidro carregado por elefantes de prata que se destina a conter os corpos da rainha e do príncipe na Catedral de Roskilde após suas mortes.

Mas agora, disse a corte real, quando chegar a hora a rainha repousará lá sozinha.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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