Vivos se fingem de mortos em festa religiosa na Espanha

Raphael Minder

Em Santa Marta de Ribarteme (Espanha)

  • Samuel Aranda/The New York Times

    Pilar Dominguez Muñoz durante festa religiosa em em Santa Marta de Ribarteme, Espanha

    Pilar Dominguez Muñoz durante festa religiosa em em Santa Marta de Ribarteme, Espanha

Em uma pequena igreja nesta diminuta aldeia na Galícia, Pilar Domínguez Muñoz ajeitou seu vestido, colocou os óculos escuros e entrou no caixão.

Sua filha, Uxía, olhou ansiosamente quando os carregadores elevaram sua mãe até seus ombros. Mas Domínguez Muñoz parecia descansar em paz enquanto eles a transportaram pelas ruas ao som de uma banda de metais.

Afinal, ela estava perfeitamente viva. Sua filha também. Mas essa era a ideia principal.

Domínguez Muñoz foi uma das nove pessoas que participaram do extraordinário ritual fúnebre celebrado em 29 de julho, como todos os anos, em Santa Marta de Ribarteme, uma aldeia com algumas centenas de moradores em uma montanha no noroeste da Espanha.

Pode parecer mórbido, mas a festa é uma comemoração para os que no ano anterior conseguiram arrancar sua vida das garras da morte. Ela se realiza no dia da santa mais importante da paróquia, Marta, cujo irmão Lázaro foi recuperado da morte quando Jesus visitou sua casa, segundo o relato da Bíblia.

"Sei que algumas pessoas pensam que somos loucos, porque até minha mãe me disse isso quando decidi participar, alguns anos atrás", disse Karina Domínguez, que já havia feito seu próprio funeral fictício e neste ano era um dos carregadores.

Alguns devotos encenam a própria morte depois de sobreviver a um acidente ou doença sérios, enquanto outros o fazem para agradecer à santa por salvar um parente.

Domínguez Muñoz participava pelo segundo ano consecutivo, porque queria demonstrar sua gratidão pela melhora da saúde da filha. Uxía sofre de osteogênese imperfeita [ou doença de Lobstein ou "dos ossos de vidro"].

Samuel Aranda/The New York Times
Devotos encenam sua própria morte durante festa religiosa

"No ano passado, eu estava no caixão e ela em sua cadeira de rodas, com os dois tornozelos quebrados", disse Domínguez Muñoz. "Minha filha anda hoje graças à santa Marta."

A marcha fúnebre, que data de tempos medievais, é um exemplo do fervor pagão e religioso na Galícia, onde há muitas lendas sobre os poderes de cura das feiticeiras locais, ou meigas.

Embora o festival nesta aldeia seja incomum, a cura --física e espiritual-- está no centro de algumas das maiores peregrinações católicas do mundo, como em Lourdes, na França, e em Fátima, em Portugal.

Xosé Manuel Rodríguez Méndez, uma autoridade local, disse que a festa observa "a vitória da vida sobre a morte". As origens da celebração não são claras, mas ele sugeriu que também estão ligadas à pobreza e ao isolamento das aldeias da região.

"Esta ainda era uma sociedade feudal no século 20, onde as pessoas contavam com a fé e os curandeiros locais porque não tinham acesso à medicina moderna", explicou Rodríguez Méndez.

A peregrinação atraiu um público maior nos últimos anos, ao ponto de as autoridades locais dizerem que vão pressionar para que o evento seja acrescentado à longa lista de festividades oficiais da Espanha, que também recebem subsídios públicos para atividades turísticas.

Neste ano, a igreja da aldeia cobrou pela primeira vez pelo aluguel dos caixões, 100 euros cada, o que o padre Alfonso Besada também justificou como uma maneira de afastar os participantes que aderem "só pelo folclore", mais que pela fé religiosa."

Samuel Aranda/The New York Times
Mulher caminha de joelhos durante ritual em Santa Marta de Ribarteme

Para conseguir a salvação, "fazer só isso não é suficiente, é claro, você também precisa ir à missa e se confessar", disse ele.

Domínguez Muñoz, porém, estava aborrecida por ter de pagar pelo funeral. "Estou aqui por santa Marta, e certamente não por causa de algum padre", disse.

Algumas horas antes da procissão com os caixões, os devotos já se reuniam ao redor da igreja para uma missa campal, assim como para fazer fila para tocar na estátua da santa.

Muitos esfregavam um lenço branco nos pés de Marta, antes de tocá-los com o rosto. Depois, alguns iniciaram a procissão de joelhos, enquanto outros caminhavam segurando uma longa vela acesa.

Marchando logo atrás dos caixões, um pequeno coro de fiéis cantava repetidamente um hino de glória a santa Marta.

Alguns se sentiam mal ao olhar os cadáveres vivos.

"Eu gosto de tudo nessa peregrinação, menos dos caixões", disse Josefa Díaz Domínguez, uma aposentada. "Tenho certeza de que Deus não pede que ninguém vá tão longe.

Samuel Aranda/The New York Times
Caixões são colocados em igreja

Bernardo Alonso, um designer gráfico, disse que estava impressionado pela procissão, mas que teria medo de entrar num caixão. "Todos vivemos com nossos próprios medos individuais, mas eu acho que você tem de estar completamente desesperado para se deitar num caixão", disse ele.

Na verdade, 11 pessoas deveriam participar da procissão neste ano, mas dois caixões ficaram na igreja, incluindo um pequeno e branco, reservado para uma criança.

Marta Domínguez, a sacristã da igreja, disse que as desistências são raras e se deviam a um ataque de pânico na última hora ou a um problema físico sério. No ano passado, disse ela, "alguém teve de cancelar por causa da quimioterapia".

Quando a procissão começou, a manhã de garoa tinha se transformado em um dia bem quente. Deitados nos caixões, alguns devotos usavam um guarda-chuva para proteger o rosto do sol inclemente, enquanto outros se refrescavam abanando a mão ou com um pequeno ventilador elétrico.

Um dos mortos-vivos usava um chapéu de palha. Domínguez Muñoz deixou um braço pendurado para fora, para segurar a mão de um dos carregadores.

Depois que os caixões retornaram à igreja, seus ocupantes saíram, sacudiram os membros duros e enxugaram o suor e as lágrimas. Marcos Rodríguez, 38, disse que sentiu "um alívio enorme" quando abraçou seu filho de 6 anos, Nicolás, que parecia ao mesmo tempo feliz e confuso sobre os soluços de seu pai.

No último 29 de julho, Nicolás passou com sucesso por uma cirurgia no cérebro. "Eu prometi a santa Marta que lhe agradeceria se ela salvasse meu filho", disse Rodríguez.

"Estou chorando muito hoje, lembrando do que aconteceu com Nicolás, mas se eu tiver de enfrentar uma situação terrível como essa de novo, certamente farei isto mais uma vez."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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