PUBLICIDADE
Topo

Por que o pênis é celebrado e pintado em todas as casas em aldeias do Butão?

Um jovem monge entra no templo Chimi Lhakhang para as orações da manhã, perto de Lobesa, no Butão - Gilles Sabrié/The New York Times
Um jovem monge entra no templo Chimi Lhakhang para as orações da manhã, perto de Lobesa, no Butão Imagem: Gilles Sabrié/The New York Times

Steven Lee Myers

Em Lobesa (Butão)

27/08/2017 04h00

Há séculos o Butão celebra o órgão sexual masculino. Há falos pintados nas casas, esculpidos em madeira, instalados acima das portas e sob os beirais para afastar o mal, incluindo uma de suas mais insidiosas formas humanas, a fofoca. São usados em colares, instalados em celeiros e nos campos como uma espécie de espantalho. São usados por bufões mascarados em festas religiosas e em um templo perto de Lobesa como uma bênção de fertilidade.

Hoje o Butão se abre cada vez mais para o mundo, e a antiga tradição está evoluindo ou, como dizem alguns, sendo manchada pela comercialização.

Embora o falo ainda seja um símbolo religioso, ele se tornou para alguns uma relíquia do passado patriarcal, algo vagamente embaraçoso e inadequado para a nova democracia moderna que, segundo todas as aparências, se enraizou firmemente no Butão depois de décadas de um relativo isolamento e monarquia absolutista.

Ele também se tornou uma curiosidade vendida em todos os tamanhos e cores para o número cada vez maior de turistas que visitam este remoto reino no Himalaia, conhecido por sua busca da "felicidade nacional bruta", uma espécie de PIB.

"As pessoas ainda o usam como símbolo", disse Needrup Zangpo, diretor-executivo da Associação de Jornalistas do Butão, que escreveu sobre a inspiração histórica do símbolo. "Mas a necessidade de tê-lo pintado em sua casa está desaparecendo." Ele atribuiu essa erosão da tradição à "exposição à cultura ocidental".

butao nyt 1 - Gilles Sabrié/The New York Times - Gilles Sabrié/The New York Times
Falo pintado em um dos lados de uma casa em Lobesa
Imagem: Gilles Sabrié/The New York Times

O símbolo, como o próprio Butão, parece suspenso entre dois impulsos: o mergulho de cabeça do país na modernidade e a preservação de tradições que o tornam único.
"As histórias do envolvimento do Butão com o falo projetam luz sobre tradições e estilo de vida que o tornam um dos lugares mais felizes da Terra", escreveu Karma Choden em 2014 no livro "Phallus: Crazy Wisdom from Bhutan" [Falo: sabedoria louca do Butão], que foi publicado aqui e afirma ser a primeira iniciativa erudita de documentar a onipresença do órgão sexual masculino.

A tradição é geralmente atribuída a um lama, Drukpa Kunley, que disseminou os preceitos do budismo pelo Butão nos séculos 15 e 16.

Chamado de "Louco Divino", ele foi um bufão sagrado, um mendigo, bêbado e sedutor que dominava mulheres e demônios igualmente com sua espiritualidade acentuada e o que a lenda chamou de "Raio Flamejante de Sabedoria".

Drukpa Kunley é celebrado por todo o país e no Tibete, do outro lado da fronteira, mas seu culto se concentra em Chimi Lhakhang, mosteiro próximo a Lobesa que abrange um grupo de vilarejos aninhados em um vale de terraços com plantações de arroz vermelho e branco.

O mosteiro foi construído em 1499 em um morro sobre o rio Puna Tsang, mas devido à mitologia nebulosa que cerca o evangelismo de Drukpa Kunley há versões contraditórias sobre a fundação do mosteiro.

Na mais difundida, o lama subjugou um demônio que assombrava uma passagem na montanha próxima chamado Dochula, transformando a diaba em um cachorro vermelho, que ele enterrou "com um monte de terra para parecer um seio de mulher".

Na outra, segundo uma história oral compilada nos anos 1960 e traduzida para o inglês como "The Divine Madman: The Sublime Life and Songs of Drukpa Kunley" [O Divino Louco: a Vida Sublime e as Canções de Drukpa Kunley], o lama construiu um "stupa", ou monumento, no local onde um seguidor morreu depois de repetir uma oração obscena que o lama lhe havia ensinado. ("Eu me refugio no lótus da virgem", começa um verso.) Dizem que o próprio lama viveu 115 anos.

Em nenhuma história da fundação do mosteiro, enfatizou Zangpo, ele usou seu pênis, embora a lenda seja assim repetida com frequência.

butão nyt 2 - Gilles Sabrié/The New York Times - Gilles Sabrié/The New York Times
Quintal de uma casa com a parede decorada com pinturas de animais míticos e um falo, em Lobesa, Butão
Imagem: Gilles Sabrié/The New York Times

"Não temos uma divisão clara entre história e mitologia", disse Zangpo, que está compilando suas próprias traduções das narrativas orais, que ele espera que definam a história. Como outros estudiosos, ele afirma que o símbolo fálico pode ser atribuído mais provavelmente a rituais pagãos pré-budistas do que à lenda do Louco Divino.

No entanto, as histórias do apetite sexual do monge prevaleceram --em grande parte devido às histórias orais, em que Drukpa Kunley despreza as sensibilidades seculares e religiosas ao se entregar ao sexo e ao álcool no caminho para a iluminação.

Até hoje, casais esperançosos atravessam o Butão para participar da bênção da fertilidade no mosteiro. Para chegar lá, eles sobem o morro a pé depois de passar pelos vilarejos de Sopsokha e Teoprongchu. O vale é extremamente bonito. Bandos de libélulas voam em círculos. Pequenos aquedutos que irrigam os terraços de arroz giram rodas coloridas como de monjolos.

O que tornou essa região famosa, porém, são os falos, uma atração para os estrangeiros que pagam a taxa de US$ 250 por dia que o Butão exige para os vistos de turismo. E mais turistas, talvez inevitavelmente, significam mais falos.

Todas as casas são pintadas com falos. Embora altamente estilizados, em alguns casos eles têm detalhes precisos: geralmente eretos, às vezes ejaculando. Um deles aparece com o nome do país, um golpe de marketing do dono de uma das lojas de suvenires que proliferam. As vitrines de algumas --fileiras de esculturas de madeira coloridas-- não pareceriam deslocadas em uma "sex shop".

Os falos do Butão não são considerados explicitamente sexuais, comentou Choden, a escritora.

butao nyt 3 - Gilles Sabrié/The New York Times - Gilles Sabrié/The New York Times
A mulher de Lotay Tshring desce a escada de sua casa, em Sopsokha, Butão
Imagem: Gilles Sabrié/The New York Times

"Na essência, o falo representa o centro do ego masculino, e não uma celebração do sexo", escreve ela. "Ele lembra às pessoas que se sua força for controlada adequadamente ela alimentará a produtividade e a criatividade, mais que a luxúria incontida."

Lotay Tshering, um plantador de arroz de 51 anos, tem uma casa em Sopsokha que é enfeitada com murais de dois pênis gigantescos. O tio de sua mulher os pintou em homenagem ao Louco Divino, "que abençoou este lugar", como ele diz. Ele e sua mulher têm seis filhos.

Tomando uma xícara de chá de manteiga salgada, Tshering lamentou a proliferação das lojas e cafés que acompanhou o crescimento do turismo (embora sua principal queixa às autoridades seja o mau estado das estradas locais).

"Quando eu era criança, não havia lojas", disse ele. Segundo Tshering, a tendência surgiu com o advento das eleições parlamentares em 2008, que o ex-rei do Butão ordenou depois de abdicar em favor de seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck.

"A partir daí não parou de crescer o número de novas lojas", disse Tshering, acrescentando que acha essa tendência absurda.

"Não tenho interesse comercial", disse ele, referindo-se à sua exibição de falos, que foi tão fotografada que aparecem na Wikipedia. "Eu não cobro nada."

butão nyt 4 - Gilles Sabrié/The New York Times - Gilles Sabrié/The New York Times
Crianças a caminho da escola passam por uma casa com um falo pintado, em Lobesa
Imagem: Gilles Sabrié/The New York Times

Os falos certamente foram uma bênção para as aldeias daqui, a duas horas de carro da capital, Thimphu. A área tem cerca de 2.700 moradores, segundo o censo mais recente, de 2005. A maioria são agricultores, mas há um número crescente de lojistas e artistas.

Tenpa Renchen, o vice-chefe da aldeia, um cargo eleito, disse que os ganhos para a economia local vieram principalmente dos aluguéis que os aldeões podem cobrar das lojas de suvenires. Mais algumas foram abertas no ano passado, assim como um restaurante com uma vista maravilhosa do mosteiro.

"Pessoalmente", enfatizou ele, com um toque diplomático, "não gosto que as pessoas os vendam nas lojas, mas elas têm de ganhar a vida."

Os aldeões idosos, porém, veem a comercialização com cautela. A proliferação de lojas ainda não atingiu um ponto crítico, segundo Renchen, mas em breve poderá testar os limites da tolerância.

Renchen parecia melancólico na entrevista, lamentando a exploração moderna de algo que tem um significado religioso mais profundo.

"O Louco Divino", disse ele, "tem muito mais a oferecer que apenas um falo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves