Da prisão ao doutorado: a redenção e rejeição da americana que matou o próprio filho

Eli Hager

  • DAMON WINTER/NYT

    Michelle Jones, uma candidata a Ph.D na Universidade de Nova York, que foi solta da prisão em agosto

    Michelle Jones, uma candidata a Ph.D na Universidade de Nova York, que foi solta da prisão em agosto

Michelle Jones foi solta no mês passado após cumprir mais de duas décadas em um presídio em Indiana pelo assassinato de seu filho de 4 anos. No dia seguinte, ela chegou à Universidade de Nova York, uma promissora candidata a doutorado em estudos americanos.

Em um feito de reabilitação de tirar o fôlego, Jones, atualmente com 45 anos, se transformou em uma acadêmica de história americana com trabalho publicado enquanto estava atrás das grades.

Sem acesso à internet e com uma biblioteca do presídio contendo basicamente romances, ela liderou uma equipe de presidiárias que se debruçou sobre pilhas de documentos fotocopiados dos Arquivos Estaduais de Indiana para produzir o melhor projeto de pesquisa da Sociedade Histórica de Indiana do ano passado. Como prisioneira Nº 970554, Jones também escreveu várias composições para dança e peças históricas.

A Universidade de Nova York foi uma de várias escolas importantes que a recrutaram para seus programas de doutorado. Ela também esteve entre os 18 selecionados dentre mais de 300 candidatos para o programa de história da Universidade de Harvard.

Mas em uma rara decisão passando por cima da autoridade de um departamento na escolha de seus estudantes, o alto escalão de Harvard cancelou o convite a Jones após alguns professores terem levantado preocupação de que ela minimizou seu crime durante o processo de inscrição.

Elizabeth Hinton, uma das historiadoras de Harvard que apoiou Jones, a chamou de "uma das candidatas mais fortes do país no ano passado, ponto". Ela acrescentou que o caso destaca a questão de "quanto realmente acreditamos na possibilidade de redenção humana?"

O reitor de admissões da Escola de Pós-Graduação em Artes e Ciências de Harvard se recusou a ser entrevistado e uma porta-voz da universidade não respondeu a um conjunto de oito perguntas a respeito do caso, dizendo que "temos como política não comentar candidatos individuais".

ANDREW SPEAR/NYT
Michelle Jones (centro) em uma aula de política de habitação na prisão feminina de Indiana


Em vez disso, a porta-voz apresentou uma declaração geral, dizendo que a escola de pós-graduação "está comprometida em recrutar e matricular estudantes de todas as formações" e "luta para criar um ambiente inclusivo e que proporcione apoio, onde todos os estudantes possam prosperar".

Mas após o departamento de história tê-la aceito e o programa de estudos americanos tê-la listado como a principal candidata, dois professores de estudos americanos denunciaram o documento de Jones ao reitor de admissões da Escola de Pós-Graduação em Artes e Ciências. Em um memorando aos administradores da universidade, esses professores questionaram se ela tinha minimizado seu crime "a ponto de uma informação errônea".

"Não tínhamos nenhuma ideia preconcebida a respeito de crucificar Michelle", disse John Stauffer, um dos dois professores de estudos americanos. "Mas francamente, sabíamos que qualquer pessoa poderia pesquisar o crime dela no Google, e a 'Fox News' provavelmente diria que a liberal e politicamente correta Harvard deu uma verba de 200 mil para uma assassina de criança, que por acaso também é de minoria."

Jones engravidou aos 14 anos, após o que chamou de sexo não consensual com um aluno do terceiro ano do colegial. A mãe dela respondeu batendo na barriga dela com uma tábua, segundo a promotora que posteriormente cuidou do caso dela, e ela foi colocada em uma série de lares coletivos e famílias adotivas.

Em uma declaração pessoal acompanhando seu pedido de matrícula em Harvard, Jones disse que sofreu um colapso psicológico após anos de abandono e violência doméstica, de modo que acabou infligindo tratamento semelhante a seu próprio filho, Brandon Sims. O menino morreu em 1992 em circunstâncias ainda não claras; o corpo nunca foi encontrado.

Dois anos depois, durante uma estadia em um centro para crises de saúde mental, Jones reconheceu que o enterrou sem avisar a polícia, o pai de Brandon ou a família dele. Em seu julgamento, um ex-namorado testemunhou que Jones confessou ter espancado o menino e depois o deixado sozinho por dias no apartamento deles, posteriormente voltando e o encontrando morto no quarto dele.

Jones foi condenada a 50 anos de prisão, mas solta após 20, com base em seu bom comportamento e realizações educacionais.

Em sua declaração para Harvard, Jones escreveu sobre Brandon: "Eu assumi um compromisso comigo mesma e com ele de que no tempo que me restasse, eu viveria uma vida redimida, uma de serviço e valor para os outros". O pai e avó de Brandon não puderem ser contatados para comentários.

Entre os muitos apoiadores de Brandon está Heather Ann Thompson, que ganhou um Prêmio Pulitzer em história neste ano e apresentou uma carta de recomendação a seu favor. Também Diane Marger Moore, a promotora que pediu pena máxima para Jones duas décadas atrás.

"Veja, como mãe, considerei o crime como sendo terrível", disse Marger Moore, atualmente uma advogada de uma grande firma em Los Angeles. "Mas o que Harvard fez foi altamente impróprio: eu sou a promotora, não eles."

As pessoas que a apoiam consideram sua história um ativo de valor, diante do crescente interesse acadêmico por encarceramento. "Seria uma chance de fazermos algo que dizemos estar tentando fazer em Harvard, que é estabelecer conversas entre acadêmicos e testemunhas", disse Walter Johnson, diretor de um centro de estudo de história americana na universidade.

Mas os professores de estudos americanos disseram em seu memorando aos administradores que "uma narração honesta e plena é parte essencial de nosso empreendimento" e questionaram se Jones atendeu a esse padrão ao narrar seu passado.

Na declaração pessoal, que não é obrigatória, ela não detalhou seu envolvimento no crime, mas escreveu que como adolescente deixou Brandon sozinho em casa, que ele morreu e que ela sofre profunda e diariamente por ele desde então.

Stauffer enfatizou em entrevistas que ele e seu colega de departamento, Dan Carpenter, estavam simplesmente assegurando que Harvard tratasse a candidatura com a devida diligência.

"Não queremos ficar no caminho, não somos contrários e nem queremos atrapalhar de qualquer forma a carreira de Michelle Jones", eles escreveram no memorando.

A Universidade de Yale também rejeitou Jones, apesar de não ter ficado claro que papel o crime dela teve em sua decisão; seus representantes disseram que não discutiriam a candidatura dela. Mas ela foi cortejada pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, pela Universidade de Michigan, Universidade do Kansas e pela Universidade de Nova York.

Na sexta-feira antes do início das aulas, em um lounge no campus da Universidade de Nova York, Jones disse que qualquer presunção de que ela não está pronta para um doutorado subestima sua própria determinação e a própria prisão.

"As pessoas não sobrevivem a 20 anos de prisão com alguma graça a menos que tenham disciplina na realização de suas leituras e redações em meio ao caos daquele lugar", disse Jones. "Esqueça Harvard. Eu já me formei pela escola mais dura existente."

*Eli Hager é redator do "The Marshall Project, uma organização de notícias sem fins lucrativos que se concentra em assuntos da Justiça criminal.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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