Trans brasileiros deixam "invisibilidade" com novela: "Todos nós já sofremos rejeição"

Shannon Sims

  • Dado Galdieri/The New York Times

    Transgêneros e pessoas com gênero não-binário assistem à novela "A Força do Querer" no abrigo "Casa Nem", no Rio

    Transgêneros e pessoas com gênero não-binário assistem à novela "A Força do Querer" no abrigo "Casa Nem", no Rio

"A Força do Querer", uma novela de sucesso exibida em horário nobre que trata da transição de um homem transgênero, já ia começar, e os moradores de um abrigo pareciam alheios às sirenes que soavam do lado de fora e às baratas que percorriam um labirinto de pés sujos e tigelas de pipoca no chão.

Reunir-se todas as noites para assistir ao programa de TV em uma sala de estar coberta de grafites se tornou um ritual para os residentes da Casa Nem, um refúgio no centro do Rio de Janeiro para brasileiros travestis, transexuais e transgêneros, que veem a história da transição de Ivana para Ivan como a primeira representação digna e complexa de pessoas como eles na grande mídia do país.

"Olha, ela tem até uma barbinha agora!", disse Letthycia Siqueira, uma das residentes, referindo-se à personagem de Ivan. "Vocês acham que vão botar um bigode inteiro nela?"

A popular novela, que é assistida por cerca de 50 milhões de espectadores toda noite, também repercutiu de forma mais ampla no Brasil, em um momento em que questões sobre gays e transgêneros ganharam maior proeminência no país.

Estão pendentes no Supremo Tribunal Federal do país dois casos que vêm sendo acompanhados com atenção e vistos pelos ativistas como fundamentais para os direitos dos transgêneros: um que envolve a recusa de um shopping center em oferecer a uma mulher transgênero acesso a um banheiro, e outro a respeito da exigência da cirurgia como uma condição necessária para o reconhecimento da identidade de uma pessoa como transgênero.

Houve algumas conquistas notáveis para homossexuais e transgêneros na Justiça brasileira, inclusive a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2013 e o reconhecimento do direito de mudar o nome social e o gênero de uma pessoa em alguns documentos de identidade emitidos pelo governo.

Dado Galdieri/The New York Times
Cerca de 80% dos brasileiros transgêneros ganham dinheiro através da prostituição

Mudanças recentes na política do sistema de saúde também tornaram mais fácil para pessoas transgênero obterem cuidados médicos relacionados à transição, tais como a terapia de reposição hormonal.

Mas ativistas veem esse progresso como tênue e reversível, em um momento em que políticos conservadores e igrejas evangélicas que são contra os direitos homossexuais e transgênero têm se tornado cada vez mais influentes.

"Essa questão precisa sair dos tribunais e entrar na legislação para esclarecer e garantir os direitos dos trans de uma maneira uniforme", disse Ligia Fabris Campos, uma professora de direito na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. 

Na visão dos ativistas, contudo, é pequena a perspectiva de se ter avanços nos direitos homossexuais e transgênero no Congresso em um futuro próximo.

Um dos principais candidatos para a eleição presidencial do ano que vem, Jair Bolsonaro, é um deputado que costuma ofender homossexuais e diz que permitir que mulheres transgênero usem o banheiro das mulheres representa "uma inversão de valores". Um juiz federal determinou recentemente que a chamada terapia de reversão da homossexualidade deveria ser permitida.

Embora o Brasil tenha construído uma reputação para políticas sociais inclusivas durante os 13 anos em que foi governado pelo Partido dos Trabalhadores, cuja permanência na presidência terminou no ano passado, de muitas formas o país continua sendo uma nação extremamente conservadora, onde homossexuais e transgêneros enfrentam estigmatização e violência generalizadas, segundo ativistas.

No ano passado, pelo menos 144 transgêneros foram mortos no país, de acordo com a ONG Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil. Este ano, o grupo identificou 138 assassinatos, inclusive o caso de Dandara dos Santos, uma mulher transgênero de 42 anos do norte do Brasil cujo espancamento fatal em público em fevereiro, cometido por oito homens e adolescentes, chocou o país depois que um vídeo do ataque foi postado na internet.

A Globo, maior rede de televisão do Brasil, já havia usado anteriormente suas populares novelas para criar debates sociais em torno de questões polêmicas, inclusive casais interraciais e relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo. Mas a emissora nunca havia exibido antes uma novela cujo protagonista fosse um personagem transgênero. Vários dos personagens coadjuvantes da novela são transgênero na vida real.

"A novela é sempre um reflexo da sociedade brasileira", disse Glória Perez, autora e criadora de "A Força do Querer", que quis criar um personagem transgênero por quem os espectadores pudessem sentir empatia, e cuja história provocasse conversas entre espectadores. "Achei que estava na hora de falarmos sobre isso", ela disse.

Carol Duarte, a atriz que interpreta Ivan, disse que sentiu uma responsabilidade assustadora em representar o papel. 

Dado Galdieri/The New York Times
Elenco e equipe de produção acompanham gravação de capítulo da novela "A Força do Querer", que narra a transição de um homem transgênero

"Mas a reação tem sido muito acolhedora e solidária", disse Duarte. "As pessoas estão torcendo para que o Ivan encontre a felicidade".

A história de Ivan, que é exibida depois do telejornal de maior audiência do país, pode ser a representação positiva mais proeminente de questões transgênero na cultura pop. Mas há outras.

O cantor Pabllo Vittar se tornou um ícone querido entre muitos brasileiros e um símbolo de fluidez de gênero.

"Não me importo se você me chama de ele ou ela", disse o cantor, que diz preferir a forma neutra "x" no lugar de "o" ou "a". "Sou só um rapaz gay de 22 anos do Maranhão", disse Vittar enquanto soltava um brinco de uma longa peruca platinada no vestiário antes de um show no Rio de Janeiro.

Os hits do cantor, cantados em um falsete anasalado, se tornaram hinos não oficiais para a comunidade lésbica, gay, bissexual e transgênero do Brasil. Um dueto que Vittar gravou recentemente com Anitta, uma das maiores estrelas pop do país, bateu um recorde de visualizações no YouTube no Brasil, e três das músicas do cantor estão entre as cinco mais tocadas no Spotify no Brasil.

Em um dos capítulos mais recentes da novela, Vittar apareceu em um papel coadjuvante, e o número de seguidores de Vittar no Instagram triplicou para 4,6 milhões, após uma participação recente no festival de música Rock in Rio.

"A drag queen mais seguida no mundo é brasileira", Vittar observou com satisfação. "E mesmo assim ainda temos esses problemas aqui". 

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Pablo Vittar, uma das maiores estrelas pop do país, compôs hinos não oficiais para a comunidade lésbica, gay, bissexual e transgênero do Brasil

O programa de TV dramatiza algumas dessas dificuldades enfrentadas por pessoas transgênero. Em uma das cenas, Ivan corta seu cabelo comprido, um sinal de feminilidade altamente valorizado na cultura brasileira, e boa parte da novela gira em torno da tensa relação entre Ivan e sua mãe, que não consegue abrir mão da imagem de sua querida menininha com cachinhos.

Fora do ambiente de sua casa, que se torna cada vez mais incômoda, Ivan também enfrenta os desafios de uma vida em transição: caras feias em entrevistas de emprego, além de provocações e até mesmo ataques vindos de estranhos.

Problemas como esses são parte da triste realidade diária da Casa Nem. A maioria dos cerca de 30 residentes eram sem-teto antes de se mudarem para lá. Assim como cerca de 80% dos brasileiros transgênero, quase todos os residentes ganham a vida através da prostituição e voltam à noite para dividir o espaço em treliches.

Siqueira, 22, foi expulsa de sua casa quando tinha 7 anos de idade por vestir roupas de menina.

"Eu passei por tudo que a novela está mostrando", ela disse enquanto assistia a um capítulo. Embora Ivan, o protagonista de classe média da novela, não tenha enfrentado uma situação de rua ou a necessidade de se prostituir para sobreviver, como foi o caso dela, Siqueira vê semelhanças.

"A população trans passa por dificuldades e enfrenta preconceitos independentemente de raça, classe ou idade", ela disse. "Todos nós fomos rejeitados em algum momento".

Ela conta que a novela lhe deu esperanças.

"Nós sempre fomos invisíveis", ela disse, sem desgrudar o olhar da TV. "Pelo menos agora as pessoas têm a oportunidade de abrir seus corações. Pelo menos agora vocês conseguem nos enxergar". 

Dado Galdieri/The New York Times
Persefone Gray vive na Casa Nem, um abrigo para brasileiros transexuais, transgêneros e de gênero não-binário no Rio de Janeiro

Tradução: UOL

Tradutor: UOL

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