Por que parte de Pequim parece uma zona de guerra devastada?

Chris Buckley

Em Pequim (China)

  • BRYAN DENTON/NYT

    Mulher caminha no meio de escombros de prédios demolidos, em Pequim

    Mulher caminha no meio de escombros de prédios demolidos, em Pequim

À noite, na periferia de Pequim, os trabalhadores migrantes que mantêm a capital da China alimentada, limpa, varrida e abastecida esperam com medo uma batida na porta que pode acabar com suas esperanças de ter uma vida melhor.

Longe dos arranha-céus e monumentos do centro da cidade, pelotões de polícia e fiscais de segurança têm vasculhado os vastos bairros periféricos da cidade lotados de trabalhadores vindos da região rural pobre da China. Aqueles que moram ou trabalham em prédios considerados perigosos ou ilegais estão recebendo a ordem de desocupar o local, às vezes com um aviso prévio de somente poucas horas, antes que casas, lojas e até mesmo fábricas inteiras sejam demolidas.

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Dezenas de milhares já foram removidos na operação mais agressiva da prefeitura contra bairros de migrantes de que se tem lembrança; e muitos outros migrantes estão sem saber quanto tempo mais eles podem permanecer em suas casas, ou até mesmo em Pequim.

A prefeitura diz que eles estão sendo removidos por sua própria segurança, depois de um incêndio fatal ocorrido recentemente em um assentamento de migrantes. Mas muitos migrantes dizem que o governo está usando o incêndio como desculpa para intensificar o movimento de expulsá-los e aliviar a pressão em uma cidade cuja população já disparou para além dos 20 milhões de habitantes.

BRYAN DENTON/NYT
Um prédio é demolido em um bairro de migrantes no distrito de Daxing, Pequim

"Do nada, em uma noite meu ganha-pão foi destruído, como se eu tivesse sido atacada por bandidos, mas isso foi feito pelo governo, que diz estar cuidando de nós", disse Zhang Guixin, uma mulher de 38 anos da província de Henan, centro da China, cuja banca de frutas e verduras foi demolida.

"Eu nunca tinha visto nada assim em oito anos de Pequim, nada", disse Zhang, parada ao lado do que restou de sua banca em Xinjian, um bairro de migrantes no sul de Pequim onde as remoções foram mais intensas até agora. "Pequim não nos quer. Teremos de voltar para nosso vilarejo".

As expulsões contrastam totalmente com a percepção que o presidente da China, Xi Jinping, passou em outubro, quando ele conquistou um segundo mandato como líder do Partido Comunista e prometeu construir uma sociedade próspera de iguais. A operação contra os assentamentos deixou os migrantes sem um teto repentinamente no meio do inverno, sem entender por que os líderes do partido fundado para representar as massas trabalhadoras passaram a tratá-los tão duramente.

"Xi Jinping é da nossa terra", disse Dang Hui'e, uma migrante da província de Shaanxi, noroeste do país, onde Xi passou parte de sua juventude. Dang disse ter recebido a ordem de desocupar seu apartamento com um aviso de três dias enquanto cuidava de seu bebê de 9 meses.

"Este país tem alguma lei?", ela perguntou. "A lei é instituída por você, você é o presidente, então de que valem as leis que você institui?"

Xinjian estava repleto de trabalhadores migrantes e seus filhos até duas semanas atrás. Agora metade da área é um terreno de cascalho e entulho de prédios demolidos, e a outra metade está quase vazia e à espera das equipes de demolição. Os moradores remanescentes colocavam seus pertences em malas e caixas.

Nos prédios que eles desocuparam, tigelas de macarrão instantâneo comidas pela metade e brinquedos abandonados eram resquícios de vidas subitamente interrompidas.

"Aconteceu tudo tão rápido, é difícil de acreditar que esta era minha casa", disse Wang Guowei, um migrante de 20 e poucos anos de Henan que arrastava uma mala por uma rua repleta de lixo e entulho. Ele disse que havia encontrado um quarto em Pequim com a ajuda de seu patrão, um fabricante de peças automotivas.

"Não tenho certeza de quanto tempo posso ficar", ele disse. "Ninguém tem certeza de quanto tempo podemos ficar em qualquer lugar".

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Residentes de um bloco de apartamentos que receberam apenas 48 horas para desocupar o local, caminham em direção ao escritório do governo local para exigir que seu aluguel seja reembolsado, no sul de Pequim

Cenas parecidas estão se repetindo em dezenas de bairros de migrantes em toda a cidade. Migrantes disseram que sentem como se estivessem sendo tratados como pragas por Pequim, que já os exclui dos benefícios em educação, saúde e moradia fornecidos a locais com permissão de residência permanente.

O governo de Pequim disse que a urgência das remoções era justificada pelo incêndio que ocorreu no apartamento de um trabalhador migrante em Xinjian que matou 19 pessoas, inclusive 17 de outras partes da China.

Depois disso, autoridades listaram às pressas 25.395 riscos de segurança em toda a cidade, e disseram que precisavam agir rápido "para evitar uma nova tragédia". O secretário municipal do partido Cai Qi ordenou uma campanha de remoção de 40 dias para livrar a cidade de riscos de segurança em bairros de migrantes.

"A partir de hoje, podem demolir o que for possível de ser demolido, não esperem até amanhã", disse Wang Xianyong, um subprefeito no sul de Pequim, em um discurso a funcionários do governo que vazou na internet. "Se for demolido hoje, vocês não vão ter uma boa noite de sono?"

Inicialmente, a prefeitura ignorou as queixas dos migrantes deslocados. Mas à medida que imagens de trabalhadores expulsos arrastando seus pertences pela rua em noites geladas de inverno foram aparecendo nas mídias sociais, elas despertaram uma reação pública mais forte que o normal. Até mesmo alguns veículos de notícias estatais criticaram as demolições feitas às pressas.

"São pessoas de carne e osso, trabalhadores do povo que mantêm Pequim, esta imensa cidade, funcionando normalmente, e eles merecem o respeito e a compreensão de cada um de nós", dizia um comentário no site da principal emissora estatal da China, a CCTV.

Em artigos e petições, críticos da campanha acusam Pequim de se apropriar do incêndio como desculpa para acelerar as expulsões, que até o momento não conseguiram desacelerar o crescimento da cidade.

"O corpo dos mortos nem havia esfriado, e algumas pessoas desta excelente capital já estalavam o chicote para expulsar 'a população inferior'", dizia uma das petições.

Membros da prefeitura negaram ter chamado os trabalhadores rurais de grupo "inferior", e sugeriram que os críticos estavam tentando provocar uma polarização social.

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Mulher anda ao lado de construções demolidas, em Daxing, Pequim

Mas a prefeitura também passou anos tentando reduzir a população de imigrantes de baixa renda de Pequim, usando demolições e batidas em busca de documentos de residência para expulsá-los. Eles têm alertado que Pequim está sobrecarregada por uma explosão populacional, com um salto de 10,9 milhões de habitantes em 1990 para quase 22 milhões em 2016.

Do número do ano passado, 8,1 milhões eram migrantes de outras partes da China—a maioria trabalhadores braçais, mas também trabalhadores de funções administrativas, afetados igualmente pelas remoções recentes.

A campanha se intensificou em 2014, quando Xi exigiu que Pequim lidasse com o inchaço de sua população. A prefeitura entrou em ação, removendo fábricas, escolas e mercados da cidade para obrigar migrantes de baixa remuneração a irem embora.

Pequim estabeleceu um objetivo de limitar sua população em 23 milhões de habitantes até 2020, ao mesmo tempo em que abre espaço para atrair mais profissionais com formação universitária de remuneração mais elevada.

Apesar de tais esforços, as autoridades não conseguiram dissuadir os migrantes de se estabelecerem na cidade, em grande parte porque Pequim ainda depende deles para trabalhar em cozinhas, entregas e faxina.

"Eles querem que o cavalo corra, mas não querem alimentá-lo", disse Zhang Yonghui, um trabalhador de 30 e poucos anos de Shaanxi que se mudou para Pequim alguns meses atrás depois de não conseguir encontrar trabalho em minas de carvão. "Eles vão se livrar de nós por algum tempo, talvez um ano, mas depois vão deixar discretamente que voltemos, porque precisam de nossa mão-de-obra".

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Tradutor: UOL

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