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Coreia do Norte está acionando um reator, o que poderá atrapalhar as conversas com Trump

Coreia do Norte pode ter reiniciado seu reator nuclear em Yongbyon - Airbus Defense & Space and 38 North/Handout via Reuters
Coreia do Norte pode ter reiniciado seu reator nuclear em Yongbyon Imagem: Airbus Defense & Space and 38 North/Handout via Reuters

K.K. Rebecca Lai, William J. Broad e David E. Sanger

30/03/2018 04h00

Se o presidente Donald Trump realmente se encontrar com Kim Jong Un nos próximos meses, o que muitas autoridades americanas duvidam que aconteça, seu desafio será muito maior do que apenas convencer a Coreia do Norte a desistir de suas armas nucleares. Trump também deverá fazer Pyongyang abandonar suas fábricas, reatores e instalações de enriquecimento nuclear que produzem o combustível nuclear necessário para construir mais armas. Imagens obtidas por satélites sugerem que a Coreia do Norte está expandindo sua produção.

Uma imagem mostra um novo reator norte-coreano que parece entrar em funcionamento agora, depois de anos de construção, segundo analistas. Ele fica no complexo nuclear de Yongbyon, onde o Norte iniciou seu programa nuclear nos anos 1960. Hoje o local apresenta centenas de prédios em uma curva do rio Kuryong, cobrindo uma área de aproximadamente 8 km2.

A Coreia do Norte insiste que o reator se destina a produzir eletricidade para uso civil. Mas o novo reator também pode fabricar plutônio, um dos principais combustíveis usados em armas nucleares. Ele pode, portanto, complementar a produção das instalações mais antigas em Yongbyon.

Fazer combustível para bombas em reatores é considerado mais fácil do que aperfeiçoar mísseis capazes de transportar armas nucleares ao redor do mundo. Enquanto especialistas se chocam sobre com que rapidez o Norte desenvolverá ogivas capazes de sobreviver ao intenso calor da reentrada na atmosfera, eles concordam que o Norte já dominou a arte de usar reatores para fabricar plutônio.

O novo reator poderá ser uma questão central nas conversas Trump-Kim, se o objetivo, como os EUA insistem, for a desnuclearização completa. Mesmo que Kim concorde com um congelamento dos testes nucleares e de mísseis, ele poderia acumular combustível para bombas e aumentar seu arsenal enquanto as negociações se arrastam.

Essa foi uma questão crítica nas negociações com o Irã, onde o presidente Barack Obama negociou um congelamento da produção de quantidades significativas de novo combustível nuclear, embora ele expire em 13 anos. Não está claro se Trump poderia arrancar uma suspensão semelhante da produção na Coreia do Norte.

Se as negociações falharem ou simplesmente se prolongarem demais, porém, o reator também poderá fazer parte da justificativa para a ação militar, pelo menos se prevalecerem os antigos argumentos do recém-nomeado assessor de segurança nacional, John Bolton.

Em março de 2015, pouco antes do acordo com o Irã, Bolton afirmou em um artigo de opinião em "The New York Times" que nem negociações nem sanções impediriam o Irã de reforçar seus programas de armas e nuclear. Desde então, ele fez argumentação semelhante sobre a Coreia do Norte.

"A verdade inconveniente é que só a ação militar, como o ataque de Israel em 1981 ao reator Osirak de Saddam Hussein no Iraque ou a destruição em 2007 de um reator sírio, projetado e construído pela Coreia do Norte, pode alcançar o que é necessário", escreveu Bolton. "O tempo é extremamente curto, mas um ataque ainda pode ocorrer."

Antes e depois do anúncio da nomeação de Bolton, na semana passada, o Conselho de Segurança Nacional não respondeu a vários pedidos de comentários sobre a evidência de que a Coreia do Norte está acionando seu novo reator. O assessor assumirá sua nova função em 9 de abril.

Aumento de atividade

Uma imagem de fevereiro do reator norte-coreano mostra o que parecem emissões de fumaça. Isso sugere que testes preliminares podem ter sido começados no novo reator, segundo um relatório da Jane’s Intelligence Review e do Centro para Cooperação e Segurança Internacional da Universidade Stanford. A usina é chamada de reator experimental de água leve.

A instalação tem o potencial para produzir de 25 a 30 megawatts de eletricidade, o suficiente para abastecer uma cidade pequena. A usina também poderia produzir cerca de 20 kg de plutônio em grau de armamento por ano, segundo o Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington que analisa armas nucleares.

Isso seria mais de quatro vezes a quantidade fabricada anualmente pelo único outro grande reator do Norte, que há muito abastece o país de plutônio para seu arsenal nuclear.

Analistas de imagens em Stanford concluíram que a atividade em torno do novo reator aumentou significativamente em 2017, o que sugere que o Norte vem correndo para tê-lo em plena operação.

Durante 2017, analistas observaram o que parecia uma grande obra para completar um sistema de resfriamento do rio para o novo reator.

Analistas também encontraram algumas evidências que poderiam apoiar a afirmativa da Coreia do Norte de que o novo reator será usado para geração de energia. Nas imagens de satélite, parece que linhas de energia e uma torre de transmissão foram erguidas em torno do local.

"Há diversos objetos que foram colocados lá que me levam, e a vários especialistas, à conclusão de que isso poderia ser usado para a produção de eletricidade", disse Allison Puccioni, da equipe de Stanford. Ela advertiu que não se deve supor que a Coreia do Norte considera o reator uma maneira de fazer mais combustível para armas nucleares.

Mas o potencial existe, e o Norte há muito proibiu os inspetores internacionais que monitoram cuidadosamente o que acontece com o plutônio em combustível depois de usado por reatores.

Ditador norte-coreano, Kim Jong-un, cumprimenta o dirigente chinês, Xi Jinping - Ju Peng/Xinhua - Ju Peng/Xinhua
Ditador norte-coreano, Kim Jong-un, cumprimenta o dirigente chinês, Xi Jinping
Imagem: Ju Peng/Xinhua

Desenvolvimento nuclear e conversas de desnuclearização

A Coreia do Norte começou a operar um reator nuclear nos anos 1980 em Yongbyon, segundo documentos da CIA agora divulgados e um relatório de Siegfried Hecker, um ex-diretor do laboratório Los Alamos no Novo México que visitou o complexo de Yongbyon diversas vezes.

Em 1986, a Coreia do Norte começou a operar o reator de 5 megawatts, que, segundo alguns analistas, produziu todo o estoque de plutônio do país.

Uma torre de resfriamento de 18 metros, que carrega o calor para fora do antigo reator por emissão de vapor, era uma das partes mais visíveis das operações de combustível nuclear em Yongbyon.

Depois de negociações nucleares entre seis países em 2007, a Coreia do Norte concordou em fechar todas as instalações no extenso complexo de Yongbyon, e em 2008 a torre de 18 metros, uma das estruturas mais visíveis do reator, foi demolida. Um vídeo do evento foi transmitido para o mundo todo.

"Como gesto de boa fé", disse Puccioni, "eles destruíram a torre de resfriamento, ostensivamente para mostrar que não vão mais usar o reator de 5 megawatts."

Na verdade, a destruição da torre foi principalmente uma medida simbólica, que pouco serviu para desmontar o extenso empreendimento em Yongbyon.

Em 2010, imagens de satélite mostraram sinais de que o Norte começava a construção de um novo reator.

Em 2013, o exterior do novo reator parecia estar pronto, e a atividade em torno dele ficou relativamente estagnada depois disso, segundo o grupo de Stanford.

Hecker, com outros dois especialistas em engenharia nuclear, escreveu no "Korea Observer" em 2016 que a Coreia do Norte ainda estava desenvolvendo a tecnologia necessária para iniciar o reator.

Mais ou menos na mesma época, o país começou a tomar medidas para fazer seu antigo reator funcionar de novo, apesar de promessas anteriores de abandonar a usina.

Em 2013, imagens de satélite revelaram uma nova vala ligando o reator ao rio Kuryong. Ela faria parte de um novo sistema de resfriamento. Depois disso, analistas observaram descargas periódicas de água quente do reator no rio.

Em uma imagem de satélite de 17 de janeiro de 2018, é visível o vapor saindo do edifício da turbina do reator de 5 megawatts, e parece que água quente está derretendo a neve em um cano de descarga. A evidência sugere que o reator pode estar novamente em uso.

"O reator de 5 megawatts esteve em operação contínua durante mais ou menos todo o ano de 2017", disse Puccioni, que estuda imagens de satélite de Yongbyon há quase uma década.

O desenvolvimento e a operação dos dois reatores no local de Yongbyon ameaçam complicar as conversas sobre um congelamento das atividades do Norte e sobre o objetivo final da desnuclearização.

Mas a questão não é insuperável. A abordagem usual é confiar nos inspetores para garantir que o combustível gasto do reator não seja garimpado para se obter plutônio. A Agência Internacional de Energia Atômica já fez isso em Yongbyon, antes que os inspetores fossem expulsos, e certamente poderá fazê-lo de novo.

Autoridades do governo Trump dizem, porém, que as inspeções de desnuclearização teriam de cobrir o país inteiro, porque há suspeitas de usinas não declaradas de enriquecimento de urânio fora de Yongbyon.

Analistas privados dizem que pretendem continuar monitorando Yongbyon por pistas de quando o novo reator estará totalmente operacional e se de fato está produzindo novo combustível para o crescente arsenal de armas nucleares da Coreia do Norte.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves