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Documentos mostram como Estado Islâmico administrava cidade no Iraque

Tony Cenicola/The New York Times
Documentos abandonados por militantes do Estado Islâmico no Iraque Imagem: Tony Cenicola/The New York Times

Rukmini Callimachi

Em Mosul (Iraque)

09/04/2018 04h00

Semanas depois que os militantes tomaram a cidade, enquanto combatentes percorriam as ruas e extremistas religiosos reescreviam as leis, uma ordem soou pelos alto-falantes das mesquitas: os funcionários públicos deviam se apresentar em suas antigas repartições.

Para garantir que cada um deles recebesse a mensagem, os militantes fizeram telefonemas aos supervisores.

A ligação chegou a Muhammad Nasser Hamoud, um veterano há 19 anos no Departamento de Agricultura do Iraque, por trás do portão fechado de sua casa, onde ele se escondia com sua família. Aterrorizado, mas sem saber ao certo o que fazer, ele e seus colegas se arrastaram até o edifício de escritórios de seis andares, decorado com cartazes de colheitas híbridas.

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Encontraram as cadeiras enfileiradas.

Um comandante entrou e se sentou de frente para a sala, com a perna estendida para que todos vissem a pistola presa à sua coxa. Por um momento, os únicos sons foram as orações murmuradas pelos funcionários públicos.

Seus temores não se confirmaram. O comandante tinha um pedido surpreendentemente modesto: retomem seu trabalho de imediato. Uma folha de presença seria colocada na entrada de cada departamento. Os que não se apresentassem seriam castigados.

Reuniões como essa ocorreram em todo o território controlado pelo grupo Estado Islâmico, ou EI, em 2014. Em breve, empregados municipais estavam novamente consertando buracos nas ruas, pintando faixas de pedestres, reparando as linhas de energia e elaborando folhas de pagamento.

"Não tivemos opção senão voltar a trabalhar", disse Hamoud. "Fazíamos o mesmo trabalho que antes, só que agora servíamos a um grupo terrorista."

Ivor Prickett/The New York Times
Bandeira do Estado Islâmico sobre cama em uma casa usada por militantes em Mosul Imagem: Ivor Prickett/The New York Times

Os combatentes desordenados que irromperam do deserto há mais de três anos fundaram um Estado que não era reconhecido por ninguém além deles mesmos. No entanto, durante quase três anos o EI controlou uma área que em certo ponto teve o tamanho do Reino Unido, com uma população estimada em 12 milhões de pessoas. Em seu apogeu, ela incluía um litoral de 160 km na Líbia, uma parte das florestas da Nigéria e uma cidade nas Filipinas, além de colônias em, pelo menos, outros 13 países. A maior cidade sob seu domínio era Mosul.

Quase todo esse território foi perdido, mas o que os militantes deixaram para trás ajuda a responder à pergunta perturbadora sobre sua longevidade: como um grupo cujos espetáculos de violência chocaram o mundo inteiro conseguiu dominar tanta terra durante tanto tempo?

Parte da resposta pode ser encontrada em mais de 15 mil páginas de documentos internos do EI que eu recuperei em cinco viagens ao Iraque durante mais de um ano.

O Estado Islâmico construiu um Estado com uma administração eficiente, coletava impostos e recolhia lixo. Tinha um departamento de casamentos que supervisionava exames médicos para garantir que os casais pudessem ter filhos. Emitia certidões de nascimento, impressas em papel timbrado do EI, dos bebês nascidos sob a bandeira negra do califado. Tinha até um departamento de veículos motorizados.

Os documentos e as entrevistas com dezenas de pessoas que viviam sob seu regime mostram que o grupo às vezes oferecia melhores serviços e se mostrava mais capaz que o governo que substituiu.

Eles também sugerem que os militantes aprenderam com os erros que os EUA fizeram em 2003 depois de invadir o Iraque, como a decisão de expurgar membros do partido governante de Saddam Hussein de seus cargos e impedi-los de se empregar futuramente. Esse decreto conseguiu eliminar o Estado do partido Baath, mas também esgotou as instituições civis do país, criando o vácuo de poder que grupos como o EI se apressaram a ocupar.

Em pouco mais de uma década, depois de dominar grandes áreas do Iraque e da Síria, os militantes experimentaram uma tática diferente. Construíram seu Estado nas costas do que existia antes, absorvendo o know-how administrativo de centenas de funcionários públicos. Uma análise de como o grupo governou revela um padrão de colaboração entre os militantes e os civis sob seu controle.

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Uma das chaves desse sucesso foi o fluxo de receitas diversificado. O grupo obtinha renda de tantos setores da economia que só os ataques aéreos não conseguiram paralisá-lo.

Livros-caixa, de receitas e orçamentos mensais descrevem como os militantes monetizaram cada centímetro do território conquistado, taxando cada feixe de trigo, cada litro de leite de cabra e cada melancia vendidos nos mercados que controlavam. Só da agricultura eles obtiveram centenas de milhões de dólares. Ao contrário da percepção popular, o grupo se autofinanciava, sem depender de doadores externos.

De modo mais surpreendente, os documentos oferecem mais evidências de que a receita fiscal do EI superava a renda das vendas de petróleo.

A coalizão liderada pelos EUA, tentando expulsar o grupo islâmico da região, tentou em vão estrangulá-lo bombardeando suas instalações de petróleo. É muito mais difícil bombardear um campo de cevada. Foi só no último verão que os militantes abandonaram Mosul, depois de uma batalha tão intensa que foi comparada a pior da Segunda Guerra Mundial.

"Nós rejeitamos o Estado Islâmico como selvagem. Ele é selvagem. Nós rejeitamos o Estado Islâmico como bárbaro. Ele é bárbaro. Mas ao mesmo tempo essas pessoas perceberam a necessidade de manter as instituições", disse Fawaz A. Gerges, autor de "ISIS: A History".

"A capacidade do Estado Islâmico de governar é realmente tão perigosa quanto seus combatentes", afirmou.

Tony Cenicola/The New York Times
Certidão de nascimento de uma menina chamada Shehed que nasceu durante o regime do Estado Islâmico no Iraque Imagem: Tony Cenicola/The New York Times

No dia após a reunião, Hamoud, um sunita, voltou ao trabalho e viu que seu departamento estava 100% ocupado por sunitas, a seita islâmica praticada pelos militantes do EI. Os colegas xiitas e cristãos que antes compartilhavam o escritório tinham fugido.

Os militantes mandaram as funcionárias mulheres voltarem para casa e fecharam a creche. Eles encerraram o departamento jurídico do escritório, dizendo que as disputas agora seriam tratadas somente segundo a lei divina.

Mas a maior mudança ocorreu cinco meses após a invasão do grupo. Ela envolvia o próprio departamento que Hamoud dirigia, que era responsável por alugar terras de propriedade do governo para os agricultores. As instruções eram expostas em um manual de 27 páginas  entitulado com a frase "O Califado no Caminho da Profecia". O manual esboçava os planos do grupo para tomar propriedades dos grupos religiosos que tinha expulsado e usá-las como capital inicial do califado.

"O confisco", dizia o manual, será aplicado à propriedade de cada "xiita, apóstata, cristão, nusayri e yazidi, com base em uma ordem legal emitida diretamente pelo Ministério do Judiciário".

O escritório de Hamoud foi instruído a fazer uma lista abrangente das propriedades dos não sunitas e expropriá-las para redistribuição.

O confisco não parou na terra e nas casas das famílias que eles expulsaram. Todo um ministério foi montado para coletar e realocar camas, mesas, estantes e, até mesmo, os garfos que os militantes tiravam das casas que ocupavam. Eles chamaram isso de Ministério dos Espólios de Guerra.

A promessa do Estado Islâmico de cuidar dos seus, incluindo moradia gratuita para os recrutas estrangeiros, foi uma das atrações do califado.

No início de 2015, Hamoud e seus colegas ajudavam a manter a máquina do governo em funcionamento, e soldados do EI decidiram refazer todos os aspectos da vida na cidade, aa começar pelo papel das mulheres.

Outdoors foram erguidos mostrando uma mulher totalmente coberta por véu. Os militantes controlaram uma fábrica que começou a produzir fardos de roupas femininas do tamanho regulamentar. Em breve, milhares de conjuntos de niqabs foram entregues ao mercado, e as mulheres que não se cobrissem passaram a ser multadas.

Enquanto ia e voltava do trabalho, Hamoud começou a usar ruas laterais para evitar as frequentes execuções que eram realizadas em cruzamentos de trânsito e praças públicas. Em uma delas, uma adolescente acusada de adultério foi arrastada para fora de uma minivan e forçada a se ajoelhar. Então uma grande pedra foi atirada sobre sua cabeça. Em uma ponte, corpos de pessoas acusadas de espiãs eram pendurados nos gradis.

Mas nas mesmas avenidas Hamoud percebeu algo que o encheu de vergonha: as ruas estavam visivelmente mais limpas do que quando o governo iraquiano estava no poder.

Os varredores de rua não haviam mudado. O fato é que os militantes impunham uma disciplina que antes não existia, segundo meia dúzia de empregados da limpeza que trabalhavam sob o EI e que foram entrevistados em três cidades depois que o grupo foi obrigado a sair.

"A única coisa que eu podia fazer no tempo do governo era suspender um trabalhador por um dia, sem pagamento", disse Salim Ali Sultan, que supervisionou a coleta de lixo para o governo iraquiano e depois para o EI na cidade de Tel Kaif, no norte do Iraque. "Sob o EI, eles podiam ser presos."

Ivor Prickett/The New York Times
Lixeiros trabalham em Tel Kaif após retomada de poder pelo governo iraquiano Imagem: Ivor Prickett/The New York Times

Os moradores também disseram que suas torneiras ficavam menos dias sem água, os esgotos transbordavam menos e os buracos nas ruas eram consertados mais rapidamente pelos militantes, apesar de haver ataques aéreos diários.

Nas margens ocidentais do rio Tigre, em um prédio pulverizado, encontrei uma pasta abandonada que pertenceu a Yasir Issa Hassan, um jovem administrador da divisão de comércio dentro do Ministério da Agricultura islâmico.

A pasta esclareceu o alcance da máquina de rendimento da organização e ofereceu um esquema de seu funcionamento.

Os relatórios financeiros incluíam mais de US$ 19 milhões em transações envolvendo só a agricultura.

Mas talvez o imposto mais lucrativo fosse uma taxa religiosa conhecida como "zakat", que é considerado um dos cinco pilares do islã. Ela é calculada em 2,5% dos bens de um indivíduo, e até 10% para a produção agrícola.

Tudo alcançava somas surpreendentes, de até US$ 800 milhões em receitas anuais, segundo um estudo do Centro de Análises do Terrorismo, sediado em Paris.

Apesar de os militantes terem partido, permanecem lembranças do EI e de seu estilo próprio de governo.

Na cidade de Tel Kaif, por exemplo, os moradores lembram que os militantes convocaram um comitê de engenheiros eletricistas para consertar a rede de energia sobrecarregada. Eles instalaram novos interruptores de circuito, e pela primeira vez os moradores, habituados a no máximo seis horas de eletricidade por dia, puderam acender as luzes com confiança.