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Estrada que toca música para motoristas distraídos enlouquece moradores na Holanda

Palko Karasz e Yonette Joseph

16/04/2018 04h00

Parecia uma boa ideia naquele momento.

Em vez de colocar sonorizadores de trânsito em uma estrada de uma pequena cidade holandesa para avisar os motoristas que se distraíram e saíram da pista, funcionários instalaram faixas musicais.

Os trabalhadores pintaram o trecho da estrada perto da cidade de Jelsum, na sexta-feira (6) , para que tocasse a música do hino regional quando os pneus dos veículos passam por pequenas faixas em relevo. Mas logo em seguida, o barulho maior veio da cidadezinha, já que os moradores imploraram às autoridades para parar com a música.

Sietske Poepjes, vice-governadora da província da Frísia, disse, em uma entrevista por telefone na quinta-feira, que os funcionários tinham escolhido Jelsum para a experiência em parte porque fica ao lado da capital provincial, Leeuwarden, que foi escolhida como capital europeia da cultura em 2018, e em parte porque a estrada, a N357, era longa, reta e tinha uma nova pavimentação.

"Esta não era uma novidade", disse Poepjes pelo telefone. "Esta era uma necessidade para a manutenção da estrada. Às vezes as pessoas se distraem na estrada, e nós sabemos que as pessoas se desviam do caminho. Queríamos ver como a pintura iria funcionar."

As autoridades locais esperavam que as faixas incentivassem os motoristas a manter o limite de velocidade da via.

Além disso, a governadora afirmou: "Uma vez que somos a capital cultural, dissemos, 'vamos fazer um evento cultural disso.'"

Trabalhando durante toda a madrugada na sexta-feira passada, as equipes pintaram faixas musicais em cerca de 150 pés de um trecho de 200 quilômetros recentemente pavimentados da estrada.

Poepjes disse que a música de "uma parte popular" do hino regional, "De Alde Friezen", ou "os antigos frísios", do século 19, tinha sido "pintada". O projeto custou 80 mil euros.

A província costeira de Frísia, mesmo fazendo parte da Holanda, tem sua própria língua. "Nós não falamos holandês. Falamos frísio", disse Poepjes. "Então é por isso que ganhamos o título de capital cultural em 2018, e queríamos destacar esse fato."

As placas avisam os motoristas: "Você está se aproximando de uma estrada que canta." Quando os motoristas atingem 60 km/h, o hino regional toca alto e claro.

E se os motoristas se distraírem em uma velocidade menor?

"Se você for muito lento, acontece a mesma coisa de quando toca um disco normal: brr-brr-brr", disse Poepjes, imitando um disco tocando em velocidade baixa.

E se um motorista dirigir na contramão?

"Você ouve a mesma coisa se você tocar um disco de Madonna de trás para frente", disse ela, rindo.

"É basicamente um vinil na estrada", explicou Poepjes. "É como os sulcos no disco, mas com, literalmente, sulcos na estrada. É um conceito muito básico."

Reprodução de vídeo/Reuters
Quando os motoristas atingem 60 km/h, o hino regional toca alto e claro Imagem: Reprodução de vídeo/Reuters

Mas logo, os moradores locais começaram a reclamar que não conseguiam dormir.

"O hino nacional frísio é bom, mas não durante 24 horas por dia", disse Sijtze Jansma, que vive cerca de 600 metros da estrada, ao site de notícias RTL. "Estou enlouquecendo. Você não pode se sentar fora de casa e não consegue mais dormir à noite."

Os moradores estão acostumados ao barulho, porque a cidade é o lar de uma base aérea onde jatos de caça regularmente decolam e pousam. Mas outro habitante local, Alie Tiemersma, disse a um jornal da região, o "Leeuwarder Courant"": "Eu prefiro os aviões. Pelo menos, eles param às 17h."

Uma outra moradora, Margriet de Ruiter, disse ao jornal que o barulho da estrada era "tortura psicológica".

Poepjes disse que tinha visitado a pequena cidade para ouvir queixas porque os funcionários do governo quiseram estar acordo com os moradores locais no projeto. O que ela ouviu, ela disse, foi que a estrada "está funcionando, mas, por favor, não aqui."

Basicamente, ela disse: "Eles odiaram."

Poepjes afirmou que os moradores tinham reclamado que um monte de motoristas estavam deliberadamente saindo da pista, como se estivessem distraídos, para iniciar o hino. "Jovens entusiasmados estavam dirigindo muito rápido", disse.

Referindo-se às queixas dos moradores, ela acrescentou: "Eu posso entender completamente. Eles tinham de ouvir o hino de novo e mais uma vez quando estavam sentados em seu jardim. E tem feito um clima maravilhoso."

Assim, menos de dois dias depois que as faixas foram estabelecidas, os funcionários do governo da província tiveram de retirá-las na madrugada de quarta-feira.

O experimento em Jelsum não é o primeiro desse tipo na Holanda. Em 2014, a cidade de Oss instalou faixas inteligentes que brilham no escuro.

E a Holanda não é o primeiro país a fazer as estradas "cantarem" na tentativa de melhorar a segurança. Dinamarca, Japão, Coreia do Sul e os Estados Unidos também têm rodovias musicais.

A Dinamarca reivindica o crédito pela primeira estrada musical, conhecida como "Asphaltophone". Em Albuquerque, Novo México (EUA), um trecho da Rota 66 toca a canção "America the Beautiful". No Japão, faixas de trânsito musicais foram instaladas perto do monte Fuji. Na Coreia do Sul, sulcos musicais foram colocados em trechos perigosos para obrigar os motoristas a prestar atenção no trânsito, incluindo uma estrada que toca uma versão desafinada de "Mary Had a Little Lamb".

Em Lancaster, Califórnia (EUA), no entanto, um trecho da rodovia deserta é lamentavelmente desafinado. Supostamente, deveria tocar a abertura da ópera William Tell, de Rossini quando os motoristas atingem 106 km/h. Os sulcos na estrada, no entanto, não foram instalados à distância certa um do outro, distorcendo o som.

Quanto à experiência holandesa, Poepjes disse que os funcionários não tinham desistido totalmente da ideia.

"Foi divertido, mas agora estamos em um período de esfriamento", disse ela. “Nós não vamos deixar a ideia sumir completamente. Se fizermos isso de novo, vamos fazê-lo com uma completa compreensão do bairro e com a certeza de que ninguém está incomodado pelo projeto.”

Ela acrescentou: "Não foi uma boa ideia no final."