Embaixada em Jerusalém é o que Trump queria, mas paz no Oriente Médio ficou mais distante

Julie Hirschfeld Davis

Em Washington (EUA)

  • Arte UOL

    À esq., Ivanka Trump sorri na inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém; no mesmo momento, dezenas de palestinos morriam em confrontos em Gaza

    À esq., Ivanka Trump sorri na inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém; no mesmo momento, dezenas de palestinos morriam em confrontos em Gaza

O presidente Donald Trump e membros graduados de seu governo estavam entusiasmados na segunda-feira (14) com a abertura da nova embaixada dos EUA em Jerusalém, chamando de "propaganda infeliz" a violência que assola a fronteira com Gaza, onde soldados israelenses mataram dezenas de manifestantes palestinos e feriram milhares em choques sangrentos, enquanto ocorriam as comemorações.

Para Trump, a inauguração da embaixada foi uma oportunidade para cumprir uma promessa de campanha e mais um exemplo de sua disposição de reverter décadas de pensamento convencional em política externa e fazer o que outros presidentes americanos não haviam ousado. Mas a imagem em tela dividida da chacina ocorrida próxima à embaixada foi um grave lembrete de que o que Trump afirma ser uma vitória de política externa só complicou as perspectivas de paz no Oriente Médio, algo que o presidente diz procurar.

A Casa Branca declarou que a violência em Gaza não impedirá suas iniciativas de encerrar o conflito entre israelenses e palestinos, mas o governo também deixou muito claro na segunda que Trump está do lado de Israel.

"A responsabilidade por essas mortes trágicas é totalmente do Hamas", disse Raj Shah, vice-secretário de imprensa da Casa Branca, que se referiu a Gaza como "sul de Israel". "O Hamas está intencional e cinicamente provocando essa reação, e, como disse o secretário de Estado, Israel tem o direito de se defender."

Perguntado sobre se a Casa Branca pediu moderação aos israelenses, Shah mais uma vez culpou o Hamas, um grupo militante sunita. "Esta é uma terrível e infeliz tentativa de propaganda", disse ele.

A violência ameaçou obscurecer um dia que seria de triunfo para Trump, enquanto Israel comemora o 70º aniversário de sua independência. A ocasião é marcada pelos palestinos como a "nakba", ou "catástrofe", em que centenas de milhares deles fugiram ou foram expulsos de suas casas.

"Durante muitos anos deixamos de reconhecer o óbvio, a pura realidade de que a capital de Israel é Jerusalém", disse Trump em uma mensagem de vídeo gravada para a cerimônia de inauguração da embaixada. "Estendemos uma mão em amizade a Israel, aos palestinos e a todos os seus vizinhos. Que possa haver paz."

Legisladores dos dois partidos americanos elogiaram a medida, que indicou um raro momento de terreno comum entre o presidente e o senador democrata Chuck Schumer, de Nova York, o líder da minoria no Senado, que a chamou de "muito aguardada" e aplaudiu Trump por tomá-la.

Mas a cerca de 60 km do local das festividades em Jerusalém as manifestações maciças que irromperam há seis semanas recrudesceram, e a fumaça subiu no ar, enquanto mais de 2.000 pessoas foram feridas e o número de mortos chegou a 60.

A violência atraiu críticas internacionais. A Turquia chamou de volta seus embaixadores de Israel e de Washington e a África do Sul retirou seus enviados de Israel. A França pediu que Israel seja mais moderado.

"Há uma necessidade urgente de recriar as condições necessárias para se encontrar uma solução política em um contexto regional já marcado por tensões exacerbadas", disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, em um comunicado em que repetiu a reprovação da França à mudança da embaixada.

Ibraheem Abu Mustafa/Reuters
Manifestantes palestinos correm de bombas de gás lançadas por forças israelenses durante protestos contra a inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém

Trump vai apresentar plano de paz

Assessores de Trump estariam perto de concluir um plano muito aguardado para forjar a paz entre Israel e os palestinos, mas eles deliberam há semanas sobre a melhor maneira de apresentá-lo. As imagens contrastantes de segunda-feira, com israelenses e americanos muito bem vestidos aplaudindo alegremente na nova embaixada em Jerusalém, enquanto soldados israelenses disparavam balas e gás lacrimogêneo contra multidões de palestinos em Gaza, resumiram a dificuldade dessa tarefa.

Os palestinos estavam furiosos com a decisão tomada por Trump em dezembro de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e, desde então, se recusaram a negociar com seu governo as potenciais condições para o fim do antigo conflito. Eles afirmam que ao reconhecer Jerusalém e agir rapidamente para mudar a embaixada de Tel Aviv para lá os EUA se mostraram um mediador inconfiável para a paz e prejudicaram sua credibilidade nas negociações.

Na segunda-feira, Jared Kushner, o genro e principal assessor de Trump, a quem ele encarregou de encerrar o conflito no Oriente Médio, afirmou que mudar a embaixada para Jerusalém não foi um abandono do processo de paz, mas um precursor dele. Kushner só fez uma referência passageira ao banho de sangue.

"Como vimos pelos protestos dos últimos meses e até de hoje, os que provocam violência fazem parte do problema, e não da solução", disse Kushner. "Quando houver paz nesta região, lembraremos este dia e veremos que a jornada para a paz começou com uma América forte reconhecendo a verdade."

Kushner reconheceu o desafio de forjar um acordo de paz, dizendo que "não será um caminho fácil, e será cheio de momentos difíceis e decisões duras". Mas rejeitou claramente os problemas: "se sonharmos grande, se liderarmos com coragem, poderemos mudar a trajetória de milhões de pessoas, do desespero para o ilimitado".

Mas muitos analistas hoje acreditam que o plano de Kushner, traçado com David Friedman, enviado de Trump a Israel, e Jason Greenblatt, seu principal negociador internacional, tem ainda menos chance de avançar do que antes.

Aaron David Miller, um vice-presidente do Centro Internacional Woodrow Wilson para Acadêmicos, que assessorou presidentes republicanos e democratas sobre o Oriente Médio, disse que antes ele via um acordo de paz no Oriente Médio como "missão impossível", mas agora se tornou "missão impossível com esteroides".

"Eles intensificaram a ansiedade, a frustração e a obsessão por Jerusalém, garantindo que a cidade se torne o indicador de se esse plano dará certo ou não", disse Miller sobre Trump e seus assessores. "Em vez de retirar Jerusalém da mesa, eles tornaram Jerusalém a mesa."

AFP PHOTO / Menahem KAHANA
Estados Unidos inauguram embaixada em Jerusalém, Israel

Aliados do governo afirmam, pelo contrário, que mudar a embaixada e reconhecer Jerusalém como a capital de Israel poderá ter um efeito positivo nas perspectivas de paz, basicamente forçando os palestinos a voltar à mesa de negociação.

"A medida simbólica há muito aguardada aborda uma injustiça histórica: Israel era o único país do mundo que não podia escolher sua capital", disse Jim Phillips, um pesquisador sênior para assuntos do Oriente Médio na conservadora Fundação Heritage. Segundo ele, a medida "poderá ter um impacto positivo em longo prazo, se fizer os palestinos e outros líderes árabes reconhecerem que quanto mais esperarem para genuinamente aceitar a existência de Israel e assinar um tratado de paz menos poderão ganhar com esse tratado".

Na segunda-feira, tal acordo permanecia uma hipótese distante. Shah disse que os planos de Trump para resolver o conflito seriam divulgados em um "momento apropriado". Por enquanto, o foco diplomático do governo é outro, preparando as negociações históricas de desnuclearização entre Trump e Kim Jong-un, o líder norte-coreano.

"Hoje se trata de seguir o que o presidente prometeu e acredita", disse Shah. "Nós caminhamos durante décadas pisando em ovos, fingindo que Jerusalém não é a capital de Israel, quando obviamente é."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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