Desnuclearização pode demorar 15 anos, diz cientista que visitou base da Coreia do Norte

William J. Broad e David E. Sanger

  • AFP/Getty Images/NYT

Enquanto o governo Trump corre para iniciar negociações com a Coreia do Norte sobre o que chama de "desnuclearização rápida", um alto assessor do governo federal que visitou diversas vezes o amplo complexo atômico norte-coreano adverte que o processo de desarmamento poderá demorar muito mais, até 15 anos.

O assessor, Siegfried Hecker, ex-diretor do Laboratório de Armas Los Alamos, no Novo México, e hoje professor em Stanford, afirma que o melhor que os EUA podem esperar é uma desnuclearização em etapas, que afetará primeiro as partes mais perigosas do programa norte-coreano.

As fases e o calendário de desarmamento são explicados em um novo relatório que circulou recentemente em Washington, que Hecker compilou com dois colegas no Centro para Segurança e Cooperação Internacional em Stanford. Hecker percorreu o labirinto secreto de usinas nucleares daquele país por quatro vezes e é o único cientista americano que viu sua instalação de enriquecimento de urânio, um combustível para bombas. Os órgãos de inteligência dos EUA não tinham notado a construção da usina.

O cronograma de Hecker contrasta fortemente com o que os EUA exigiam inicialmente, sobre o que poderá ser um ponto-chave difícil em qualquer reunião de cúpula entre o presidente Donald Trump e o líder norte-coreano, Kim Jong Un.

Duas delegações dos EUA, uma em Singapura e outra na Coreia do Norte, estão tentando organizar uma reunião entre os dois líderes. Trump cancelou o encontro em uma carta a Kim na quinta-feira (24), mas desde então tentou reformulá-la, postando mensagens no Twitter de que confia que a economia norte-coreana irá prosperar se chegarem a um acordo.

A delegação em Singapura está discutindo a logística de uma reunião, a se realizar em 12 de junho ou mais tarde. A outra, chefiada por Sung Kim, diplomata americano com longa experiência em Coreia do Norte, está se reunindo com autoridades do Ministério das Relações Exteriores norte-coreano na Zona Desmilitarizada, para elaborar os termos do comunicado que seria emitido pelos dois líderes. Mas a Casa Branca e o Departamento de Estado nada disseram sobre os detalhes dessas conversas.

Em entrevista, Hecker disse que está divulgando o estudo de Stanford para avançar a discussão de um tema complexo que estará no centro do encontro de Trump com Kim em Singapura, caso ele aconteça. Até agora, a agenda de desnuclearização foi uma mistura de afirmações ousadas do governo americano sobre o que exigirá, e generalidades vagas do Norte.

"Estamos falando sobre dezenas de locais, centenas de edifícios e milhares de pessoas", disse Hecker na sexta-feira (25). A chave para desmontar o extenso complexo atômico, iniciado há seis décadas, acrescentou Hecker, "é estabelecer um relacionamento diferente com a Coreia do Norte, em que sua segurança dependa de algo mais que as armas nucleares".

Hecker advertiu que as coordenadas de sua equipe deixam espaço para muitos pontos difíceis de negociação --como onde traçar a linha entre atividades nucleares civis e militares. De início, o governo Trump disse que o Norte deveria abandonar todo o enriquecimento de urânio, que pode abastecer não somente bombas, mas reatores para gerar energia elétrica. Na semana passada, o secretário de Estado, Mike Pompeo, depondo à Comissão de Relações Exteriores do Senado, disse pela primeira vez que ele precisa de algum "espaço de negociação" sobre essa questão.

Mas Trump saiu do acordo nuclear com o Irã neste mês porque ele permitia que o país produzisse combustível atômico depois de 2030, o que para ele é um risco inaceitável. Não está claro como ele poderia proibir o Irã de ter uma produção pacífica e permitir que a Coreia do Norte o faça.

Hecker disse que uma questão semelhante em aberto é a permissão para que os engenheiros de foguetes norte-coreanos, que hoje fazem mísseis de longo alcance, reorientem suas capacidades para um programa espacial pacífico.

"Eles não vão eliminar tudo, e há algumas coisas que não são um problema", disse Hecker. "Alguns riscos são administráveis."

Em seu relatório, a equipe de Stanford vê três fases sobrepostas na atividade de desnuclearização, que levariam dez anos no total. A fase inicial, que duraria até um ano, é a cessação das operações militares, industriais e de pessoal. A segunda, levando até cinco anos, é a desativação de locais, instalações e armas. A fase final e a mais difícil, que levaria até dez anos, é a eliminação ou limitação de fábricas e programas.

Hecker comentou que a descontaminação e desativação de uma única fábrica que lida com materiais radioativos pode levar uma década ou mais.

Em entrevista no domingo (27), Hecker disse que sua estimativa pessoal da desnuclearização chega a 15 anos, diante do emaranhado de incertezas políticas e técnicas que os EUA e a Coreia do Norte enfrentarão se seguirem adiante e tentarem um acordo histórico.

O mapa do caminho, que foi publicado na última segunda-feira (28) em um site de Stanford e foi enviado a autoridades do governo e membros do Congresso, salienta a complexidade da tarefa: enquanto os políticos e comentaristas da TV a cabo usam a possibilidade de a Coreia do Norte entregar suas armas nucleares, o mapa do caminho deixa claro que a desnuclearização seria uma enorme empreitada, envolvendo o fechamento de grandes instalações industriais e décadas de inspeções minuciosas.

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O governo Trump não divulgou detalhes sobre que passos específicos considera para a desnuclearização da Coreia do Norte, ou o que pretende exigir se Trump se encontrar com Kim. Sua linha final é que a desnuclearização deve ser total, verificável e irreversível.

O beligerante assessor de segurança nacional de Trump, John Bolton, afirmou antes de entrar para o governo em abril que o presidente deveria usar uma reunião de cúpula exclusivamente para dizer à Coreia do Norte para desmontar e entregar todas as suas armas e equipamentos nucleares, dizendo que só então os EUA deveriam discutir o afrouxamento das sanções e a participação no desenvolvimento econômico do Norte.

Em entrevistas recentes na televisão e no rádio, Bolton defendeu uma rápida desnuclearização, em que o Norte enviaria suas armas e equipamentos ao Laboratório Nacional Oak Ridge, no Tennessee, para onde os inspetores nucleares em 2004 enviaram parte do equipamento da Líbia para enriquecimento de urânio. Bolton citou repetidamente a Líbia como um modelo para o desarmamento atômico do Norte.

Na entrevista, Hecker afirmou que a única maneira segura de desmontar as ogivas nucleares do Norte seria que o serviço fosse feito pelos mesmos engenheiros norte-coreanos que as construíram.

Em contraste com a posição pública de Bolton, Trump abriu a porta por duas vezes na semana passada para a desnuclearização em etapas, dizendo que o Norte talvez ache impossível desmontar todo o seu programa nuclear de uma vez.

Hecker aborda o tema com décadas de experiência no aprendizado sobre programas nucleares estrangeiros e administração de suas reduções gradativas. 

Depois da Guerra Fria, como diretor do Los Alamos, ele promoveu ampla cooperação entre os laboratórios nucleares dos EUA e da Rússia para garantir a segurança e proteção de vastos estoques de materiais nucleares que haviam pertencido aos soviéticos. Seu livro de 2016, "Doomed to Cooperate" ["Condenados a Cooperar", em tradução livre], detalha essa longa colaboração. 

Hecker fez sua primeira visita ao extenso centro nuclear de Yongbyon na Coreia do Norte em 2004, com visitas posteriores em 2007, 2008 e 2010, nas quais aprendeu mais que qualquer outro perito ocidental sobre a atividade atômica secreta do Norte. Desde então, ele se destacou como um dos maiores especialistas mundiais nesse programa nuclear. 

Seu coautor, Robert Carlin, ex-analista da CIA e oficial da inteligência do Departamento de Estado, que viajou à Coreia do Norte mais de 30 vezes, é frequentemente citado como especialista sobre a liderança norte-coreana. O terceiro autor é Elliot Serbin, assistente de pesquisa de Hecker. 

A equipe divide o programa nuclear do Norte em oito categorias gerais e 22 subgrupos. O leque é amplo. Inclui não apenas fábricas e instalações, mas questões relacionadas, como encerrar as exportações de mísseis e nucleares do Norte e redirecionar seus peritos técnicos de funções militares para cargos civis.

O combustível plutônio para bombas atômicas é mencionado frequentemente. O metal radioativo é considerado o passo inicial de programas agressivos voltados para a fabricação de diversas armas nucleares.

Produzi-lo é mais fácil que purificar urânio, e há necessidade de muito menos plutônio para gerar uma explosão do mesmo tamanho. No topo de um míssil, se todos os outros fatores forem iguais, o peso reduzido significa que ogivas de guerra abastecidas por plutônio podem voar distâncias maiores, o que as torna mais ameaçadoras. O plutônio também é ideal para a ignição do combustível termonuclear das bombas de hidrogênio.

A equipe de Stanford recomenda seis maneiras de conter o complexo de plutônio do Norte, visando Yongbyon, o local secreto que Hecker visitou várias vezes.

Por exemplo, a equipe pede a desmontagem do reator de 5 megawatts para fabricação de plutônio. Ele entrou em operação em 1986, e especialistas ocidentais dizem que produziu o combustível para as primeiras bombas atômicas do Norte.

A equipe é menos categórica nas recomendações sobre um novo grande reator, conhecido como reator experimental de água leve, que está sendo iniciado em Yongbyon. Como essa usina pode produzir energia elétrica para civis, a equipe sugere que o reator precisa ser inspecionado minuciosamente antes de se negociar seu destino.

A equipe pede que o Norte acate dois acordos globais destinados a conter a produção de armas nucleares e os meios para projetá-las. Os pactos são o Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual o Norte já foi signatário, e o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis. Seus países membros coordenam as licenças de exportação para conter a disseminação de mísseis de longo alcance capazes de transportar armas de destruição em massa.

"Algumas pessoas vão dar argumentos contrários à gente", disse Hecker sobre a probabilidade de que os peritos técnicos reajam às recomendações da equipe. "Tudo bem."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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