Soterrado em mesquita, sobrevivente de terremoto na Indonésia cavou sua saída

Richard C. Paddock e Muktita Suhartono

Em Lading-Lading (Indonésia)

  • Rick Paddock/The New York Times

    Narto Aryadi mostra como fez para cavar e escapar de escombros de mesquita após terremoto, em Lading-Lading, na Indonésia

    Narto Aryadi mostra como fez para cavar e escapar de escombros de mesquita após terremoto, em Lading-Lading, na Indonésia

Ele estava na primeira fila rezando com seu cunhado quando a mesquita começou a sacudir. Narto Aryadi se abraçou com força a uma grande coluna.

A coluna se inclinou, mas o protegeu do segundo andar da mesquita de Jabal Nur, que caiu como uma panqueca. Narto só encontrou espaço para se virar e começar a cavar com um pedaço de entulho, arrastando consigo seu cunhado ferido.

A distância era de menos de 20 metros, mas Narto levou mais de 12 horas cavando para abrir uma passagem embaixo de vigas pesadas que tinham caído no trajeto. Ele também ficou recitando cada trecho do Alcorão de que se lembrava.

Quando amanheceu, agradeci a Deus e percebi que ia viver

Narto Aryadi, em uma entrevista na terça-feira (7), um dia depois da tragédia

Narto, 43, é um dos poucos sobreviventes retirados dos destroços na ilha turística de Lombok, na Indonésia, depois que um terremoto de magnitude 7.0 a atingiu no domingo (5) à tarde, perto da costa norte.

Só na terça a família de Narto lhe contou que sua casa e todas as outras da aldeia tinham sido destruídas.

As autoridades dizem que pelo menos 105 pessoas morreram no terremoto e mais de 20 mil perderam suas casas.

A busca pelos desaparecidos continua, mas as chances de encontrar mais sobreviventes diminuem a cada dia que passa.

Os prejuízos foram mais graves nas aldeias e cidades de Lombok Norte, uma região agrícola pobre e a área mais próxima do epicentro do abalo. Cerca de 75% das mortes ocorreram lá.

O litoral norte de Lombok estava coberto na terça-feira por quilômetros e quilômetros de casas, lojas e mesquitas destroçadas. Em alguns casos, aldeias inteiras estavam em ruínas.

Alguns prédios foram arrancados dos alicerces. Outros desabaram. A maioria das casas e lojas foi reduzida a uma montanha de tijolos, madeira, pedaços de concreto e telhas de metal corrugado.

ADEK BERRY / AFP
8.ago.2018 - Homem carrega geladeira em meio a escombros de uma loja em Bangsal, na ilha de Lombok, na Indonésia

As iniciativas de busca e resgate foram lentas, em parte porque Lombok não tem equipamento pesado para essas operações.

A maioria dos hotéis de praia na popular área de Senggigi, mais ao sul, fechou depois do terremoto e enviou seus hóspedes para casa ou para se hospedarem em outro lugar.

Milhares de turistas que visitavam Lombok e as ilhas Gili vizinhas estavam sendo removidos de barco e avião, segundo as autoridades.

Inicialmente, a falta de embarcações e aviões deixou muitos turistas sem saber como partiriam, enquanto novos sismos sacudiam a ilha.

Acredita-se que nenhum estrangeiro morreu no terremoto.

Na mesquita de Jabal Nur em Lading-Lading, uma multidão se reuniu para assistir enquanto os socorristas usavam um macaco hidráulico para quebrar o concreto na busca por sobreviventes e corpos.

Entre os que assistiam a operação estava Suharto, 44, que também rezava na primeira fila na tarde de domingo quando ocorreu o terremoto.

Enquanto ele se arrastou para a segurança, seu tio, um dos religiosos do templo, não conseguiu.

Suharto, que como muitos indonésios usa apenas um nome, disse que mais de cem pessoas estavam na mesquita e que dez ou mais podem ter ficado presas no interior.

"Quando olho para o prédio, acho que ninguém conseguiu sobreviver", disse.

Como que para salientar esse ponto, os socorristas estenderam uma grande lona branca e colocaram um saco preto contendo um cadáver em um canto distante, deixando espaço para muitos outros.

Também vendo a operação de busca na terça-feira estava Muhammad Ma'ruf, 51. Ele estava na mesquita na hora do terremoto, e como Narto se agarrou a uma coluna enquanto a igreja desmoronava.

Ele disse que teve a certeza de que ia morrer e pediu perdão a Deus.

Mas no seu caso, assim como de vários outros, encontrou-se em um espaço livre abaixo de onde ficava a cúpula da mesquita. Depois de alguns minutos eles conseguiram passar sobre os escombros e sair.

Narto, com sua escapada quase milagrosa, tornou-se uma espécie de celebridade local.

Um dia depois dessa dificuldade ele estava em condições incrivelmente boas.

Um religioso muçulmano muito sério, ele é o chefe de seu povoado, Orong Nagasari. Como todos os prédios locais foram destruídos, ele e seus vizinhos mudaram-se para uma área desocupada próxima, onde estão acampados sob lonas plásticas e dormem sobre tapetes.

Mais de 30 amigos e parentes se reuniram ao redor dele à sombra de uma grande árvore para ouvi-lo contar a experiência ao repórter de "The New York Times". Três abalos menores sacudiram o grupo durante a entrevista de uma hora.

Fauzy Chaniago/AP
6.ago.2018 - Homem observa casas destruídas durante terremoto na ilha de Lombok, na Indonésia

Narto disse que quando estava deitado no chão da mesquita pôde sentir uma leve brisa. Sabendo que isso significa que havia uma abertura, fez um plano para cavar naquela direção.

Mas cinco vigas que haviam sustentado o segundo andar agora bloqueavam seu caminho.

Ele sabia que abaixo do piso de lajotas da mesquita havia uma fina camada de cimento, e abaixo dela, areia.

Ele pegou um pedaço de entulho e com grande esforço quebrou as lajotas e o cimento, depois escavou a areia para abrir uma passagem.

Estava amanhecendo quando ele finalmente alcançou a última viga.

Narto podia ouvir as vozes de parentes que o procuravam e soldados que vieram em busca de sobreviventes.

Narto pediu ajuda, mas os soldados tinham medo de que se escavassem desestabilizariam a pilha de entulho. Ele pediu um martelo para quebrar o piso com mais facilidade. Os soldados amarraram um a uma vara e baixaram até ele.

"Eu me salvei", disse Narto.

Seu cunhado, Kartodi, foi levado da mesquita para um hospital. Sua condição não estava definida na terça-feira, e os parentes não quiseram comentar.

Narto disse que embora pudesse haver mais dez pessoas enterradas nos destroços ele duvida que alguma estivesse viva.

"Não ouvi nenhuma voz lá embaixo", explicou. "As únicas vozes eram a minha e a do meu cunhado."

Enquanto cavava, ele recitava os versos do Alcorão que sabia.

"Qualquer coisa que eu me lembrasse eu ficava repetindo, para que Deus me salvasse", contou.

Narto disse que não sabe as explicações científicas dos terremotos.

"Isso é feito por Deus", disse. "Ele pode fazer tudo. A terra e o céu pertencem a ele."

Sobrevivente é encontrada dois dias depois de terremoto na Indonésia

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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