Por que muitos nos EUA ignoram autoridades e permanecem em casa mesmo com furacão perto

Kendra Pierre-Louis

  • Nasa via AP

    Foto divulgada pela Nasa mostra o furacão Florence visto da Estação Espacial Internacional

    Foto divulgada pela Nasa mostra o furacão Florence visto da Estação Espacial Internacional

Eles avisam, suplicam, censuram e condenam. Meteorologistas e autoridades tentam praticamente de tudo para fazer os moradores deixarem as áreas costeiras antes de um furacão. No ano passado, quando o Harvey avançava com fúria em direção à costa do Golfo, o prefeito provisório de Rockport, no Texas, disse que as pessoas que insistissem em ficar deveriam "marcar seu braço com uma caneta, colocar nele seu número da seguridade social e o nome".

Temendo que o furacão Florence também seja letal, os governadores das Carolinas do Norte e do Sul ordenaram evacuações nesta semana em diversos municípios do litoral. Mas os especialistas sabem que nem todos os moradores ouvirão as advertências, e alguns dizem que isso acontece em parte porque as previsões de tempestades e riscos são comunicadas de forma inadequada ao público.

"Há uma grande lacuna entre as previsões disponíveis na comunidade meteorológica e, em alguns casos, a informação que as pessoas recebem e conseguem usar", disse Rebecca Morss, uma cientista sênior no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas em Boulder, no Colorado.

O cone da incerteza

Um exemplo básico dessa percepção de lacuna é o conhecido "cone de incerteza" visto nos mapas de rastreamento de furacões, que podem ser facilmente mal interpretados.

"O cone é mal compreendido", disse Jeff Masters, um meteorologista do serviço de previsões Weather Underground. "Muita gente olha para o cone e pensa: 'Ah, essa é a largura da tempestade, ou essa é a área onde esperamos os impactos'. Mas não, isso é onde esperamos que o centro da tempestade atinja."

Mesmo que o olho do furacão fique dentro do cone, o que acontece em aproximadamente dois terços das vezes, as pessoas que estão fora do cone ainda podem experimentar ventos catastróficos, enchentes e ressaca do mar.

Brendan Smialowski/AFP/Getty Images
O furacão Harvey atravessou o Golfo do México e atingiu o sudeste do Texas em 2017

A água é mais mortal que o vento

A categoria de um furacão, que se refere às poderosas velocidades do vento da tempestade, também chama a atenção. (O Florence é atualmente uma tempestade categoria 4.) Mas a enchente que os ventos empurram para o litoral é muito mais mortífera que o próprio vento, principalmente por causa de afogamentos. A enchente não está relacionada à categoria do furacão.

"O motivo de fazer a evacuação é a enchente", disse Masters. "Você não precisa evacuar os locais por causa dos ventos. É melhor ficar abrigado no lugar."

O furacão Florence deverá provocar uma enchente significativa na Carolina do Norte, em parte porque a mudança climática causada pelo homem elevou os níveis do mar na região em vários centímetros desde 1954, a última vez que uma tempestade categoria 4 atingiu o Estado.

Os ventos de furacão empurram a água como uma escavadeira empurra a neve, disse Arthur DeGaetano, diretor do Centro Climático Regional do Nordeste na Universidade Cornell. "Esses ventos fortes persistentes soprando na mesma direção literalmente empilham a água", disse ele.

A velocidade da enxurrada pode pegar pessoas desprevenidas, disse Julie Demuth, uma cientista pesquisadora que trabalha com Morss. "Se eles acham que têm três horas para sair do caminho, ou um dia, quando na verdade a enxurrada em alguns casos pode causar inundação profunda em questão de minutos, isso define como eles pensam no que poderão fazer e como poderão reagir."

Até a altura da enchente pode não refletir o verdadeiro perigo, disse DeGaetano. "O impacto da enxurrada não é necessariamente sua altura, mas o quanto avança pela terra horizontalmente, até onde ela inundará quando atingir a costa", disse ele.

O furacão Florence pode criar complicações adicionais depois de atingir o solo. A tempestade deverá estacionar sobre a região durante vários dias, despejando até 60 cm de água, inclusive em áreas do interior.

"Se você mora perto de um rio que já sofreu enchentes nas últimas décadas, é melhor pensar em sair da casa se estiver na Carolina do Norte, porque vamos ver muita inundação pelas chuvas fortes", disse Masters.

ERIC THAYER/NYT
Inundações causadas pelo furacão Harvey permanecem em Port Arthur, no Texas

O que os cientistas querem mudar

Morss e Demuth, as cientistas que trabalham no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, fazem parte de um crescente esforço de pesquisa social para compreender como as pessoas reagem às mensagens climáticas.

É inegável que a melhor previsão climática ajudou a reduzir o número de mortes ligadas a eventos extremos. Mas ainda podemos melhorar: quando o furacão Sandy se aproximou de Nova Jersey em 2012, só 49% dos moradores do litoral sob ordem de evacuação obrigatória deixaram suas casas antes da tempestade, segundo o Instituto de Pesquisas da Universidade Monmouth.

Morss e Demuth conduziram um grupo de discussão e descobriram que muitos participantes tinham dificuldade para entender as informações sobre a enchente. Por isso tentaram usar diferentes mensagens visuais e escritas para ver se comunicavam melhor o que a enchente pode fazer em diferentes níveis: 30 cm, de 90 a 180 cm e de 180 a 270 cm.

"Descobrimos que para algumas pessoas era realmente útil visualizar o risco e entender o que iria ou poderia acontecer", disse Morss.

Uma limitação das pesquisas e entrevistas é que elas acontecem depois do fato, e por isso os participantes não podem fazer relatos detalhados do que estavam fazendo em horários específicos ou em reação a informações específicas. Então os pesquisadores estão recorrendo ao Twitter para um registro em tempo real do que as pessoas pensam, fazem e dizem quando um evento climático se aproxima.

O Twitter "nos dá uma sensação de quando eles começam a falar sobre a informação climática, como isso se encaixa em suas vidas e quais são as informações que realmente chamam a atenção", disse Demuth.

O Centro Nacional de Furacões, que produz mapas de previsão que incluem o cone de incerteza, disse que usará a ciência social para estudar aperfeiçoamentos. Os gráficos de enchentes de tempestades do centro foram atualizados no ano passado com base em estudos sociais, segundo Dennis Feltgen, um porta-voz.

Morss e Demuth advertiram que mensagens melhores são apenas parte da batalha. Não importa quão boa seja a informação, muita gente não pode agir com base nela por motivos de saúde, financeiros ou outros. Durante o furacão Katrina, por exemplo, muitas pessoas não deixaram suas casas porque não tinham acesso a um carro ou um lugar para ir.

Demuth lembrou que entrevistou uma mulher de 70 ou 80 anos que tinha usado um abrigo subterrâneo para sobreviver a um tornado no Arkansas. "Ela disse que se seu genro não tivesse vindo para casa ela não poderia ter ido até o abrigo, porque estava muito fraca e não conseguiria abrir a porta", disse Demuth.

"A família que morava perto dela, de três pessoas, morreu porque não conseguiu chegar ao subsolo a tempo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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