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Endividados e desesperados, taxistas de Nova York vivem onda de suicídio

New York Taxi and Limousine Commission via The New York Times
O taxista Roy Kim, imigrante coreano que se matou em Nova York Imagem: New York Taxi and Limousine Commission via The New York Times

Emma G. Fitzsimmons

07/12/2018 04h00

Um taxista chamado Roy Kim recentemente se tornou o oitavo motorista profissional a morrer por suicídio em Nova York no último ano.

O comissário de táxi da cidade, Meera Joshi, chamou as mortes de "epidemia". As histórias chamaram a atenção para o desespero econômico no setor e levaram a Câmara Municipal a avaliar uma nova legislação para ajudar os proprietários de táxi a reduzir sua dívida e aumentar os salários dos motoristas.

Cada caso é diferente e é difícil saber por que alguém decide tirar a própria vida. A maioria dos motoristas é de imigrantes na casa dos 50 e 60 anos, alguns dos quais disseram a amigos e familiares que estavam tendo dificuldade em ganhar a vida, enquanto a Uber começava a dominar a indústria do transporte individual.

Três dos motoristas que se suicidaram possuíam um "medalhão de táxi" --a placa de alumínio necessária para dirigir um táxi em Nova York que já chegou a ser vendida por mais de US$ 1 milhão (R$ 3,87 milhões). Agora vale apenas US$ 200 mil (R$ 773 mil).

Veja o que sabemos sobre Kim e a crise mais ampla.

Quem foi Roy Kim?

Kim era um imigrante coreano de 58 anos que morava no Queens. Ele dirigiu um táxi por mais de quatro anos e comprou um "medalhão" no ano passado por cerca de US$ 578 mil (RS 2,2 milhões). Na ocasião, ele celebrou comendo sushi com um motorista que conheceu anos atrás, enquanto esperava por passageiros no Aeroporto Internacional John F. Kennedy.

Mas Kim reclamou com amigos neste ano que não conseguia encontrar corridas. Ele começou a trabalhar com mais frequência, dirigindo sete dias por semana. Ainda assim, seus amigos ficaram surpresos com sua morte.

"Não há outra razão a não ser o aspecto financeiro", disse Kyung Ryong Kang, o amigo e colega motorista que havia comemorado no jantar com ele no ano passado. "Estava sendo mais e mais difícil sobreviver."

Em 5 de novembro, Kim foi encontrado pendurado por um cinto na porta de seu quarto, disse a polícia. Ele tinha um filho adulto que mora na Coreia do Sul. Os amigos não conseguiram encontrar o filho de Kim.

Recentemente, um grupo de motoristas realizou uma vigília no parque Flushing Meadows Corona, no Queens, para lembrá-lo. Kang contou que sente falta de ver Kim no estacionamento do aeroporto. "Ele era uma pessoa generosa e sempre comprava café para nós", disse ele.

Kholood Eid/The New York Times
O taxista Lal Singh na vigília em homenagem a Roy Kim, no Corona Park, em Nova York Imagem: Kholood Eid/The New York Times

Os outros motoristas estavam preocupados com suas finanças?

Dois outros motoristas que tiraram suas vidas também possuíam "medalhões de táxi": Nicanor Ochisor, que era da Romênia, e Kenny Chow, que era de Mianmar. Ambos disseram aos amigos que estavam preocupados em pagar suas dívidas.

Em fevereiro, um motorista de táxi preto chamado Douglas Schifter se matou com uma espingarda na frente da prefeitura. Ele escreveu no Facebook que a Uber havia inundado as ruas com veículos e reclamava de ter de trabalhar cem horas por semana para sobreviver.

Os motoristas da Uber e outros serviços automotivos também levantaram preocupações sobre os baixos salários. Os outros motoristas que morreram por suicídio foram: Fausto Luna, motorista da Uber; Abdul Saleh, motorista de táxi que alugava seu veículo; Danilo Castillo, taxista; e Alfredo Perez, também taxista.

"Esta tragédia ressalta a importância de encontrar novas maneiras para o governo, a indústria e os credores trabalharem juntos para enfrentar os desafios financeiros que pesam tanto sobre nossos licenciados", disse Joshi em um comunicado após a morte de Kim.

O que a cidade está fazendo para ajudar os motoristas?

Em agosto, a Câmara Municipal de Nova Yorl aprovou um limite em relação à Uber e outros aplicativos, a primeira grande cidade dos EUA a fazer algo a respeito. O conselho está considerando um conjunto separado de projetos de lei que estabeleceria um fundo de saúde para motoristas e criaria “centros de assistência ao motorista” para oferecer aconselhamento em saúde mental e aconselhamento financeiro.

Corey Johnson, o presidente do conselho, disse que a cidade também está procurando opções para ajudar os proprietários de "medalhões" sobrecarregados com altas dívidas, de um resgate parcial a um fundo de dificuldades. A Aliança de Trabalhadores de Táxi de Nova York, um grupo que representa os motoristas, está pedindo à cidade que trabalhe com bancos e grupos filantrópicos para amortizar 20% da dívida pendente dos proprietários de táxis.

Na vigília de Kim, a líder do grupo, Bhairavi Desai, tinha uma mensagem para os taxistas que estão lutando: a cidade está finalmente resolvendo o problema, e as coisas vão melhorar em breve.

"Nós sabemos que a mudança está chegando", disse.

Após a morte de Ochisor, sua família arrecadou mais de US$ 30 mil (R$ 116 mil) para ajudar a pagar seu "medalhão". Um doador anônimo também contatou seu filho, Gabriel Ochisor, querendo ajudar motoristas de longa data como seu pai. O doador lhe enviou um lote de ordens de pagamento, cada uma no valor de US$ 1.000 (R$ 3.870), para entregar a 217 proprietários que compraram seu "medalhão" antes de 1990 e ainda dirigem seus táxis.

Ochisor está tentando encontrar todos os motoristas para enviar os presentes, que serão mandados com uma carta do doador.

“Por favor, saibam que suas três décadas (ou mais!) de serviço são reconhecidas e que minha vida melhorou quando você trabalhou nas ruas”, diz a carta.