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Para artista, obras 'passam dos limites', e é preciso refletir sobre isso

"Open Casket", de Dana Schutz, vista aqui como foi exposta na Bienal Whitney 2017, gerou protestos e crí­ticas, com os detratores alegando que é errado uma artista branca se aproveitar do sofrimento dos negros. - Benjamin Norman/NYT
"Open Casket", de Dana Schutz, vista aqui como foi exposta na Bienal Whitney 2017, gerou protestos e crí­ticas, com os detratores alegando que é errado uma artista branca se aproveitar do sofrimento dos negros. Imagem: Benjamin Norman/NYT

Shirin Neshat

26/12/2018 04h01

Desde que o mundo é mundo, a arte política sempre foi problemática, mas necessária, uma vez que força o artista a sair de sua zona de conforto, conectando-o com o mundo.

Como artista vivendo no exílio, constantemente me vejo "cruzando a linha vermelha" do mundo da arte, não deliberadamente, mas porque a realidade política é o que define a minha vida. Claro que não são só as pessoas nas mesmas condições que eu que devem lidar com esses limites - eles existem toda vez em que arte e lucros se misturam, toda vez que o artista é empurrado na direção oposta, equilibrando uma estética de qualidade e temas relevantes e com forte carga política.

 

Ahmed, da série 'Our House is on fire", de Shirin Neshat - Shirin Neshat - Shirin Neshat
Ahmed, da série 'Our House is on fire", de Shirin Neshat
Imagem: Shirin Neshat

Um bom exemplo são os protestos recentes contra artistas acusados de insensibilidade e de tentarem se aproveitar do sofrimento dos negros, incluindo a polêmica pintura "Open Casket", de Dana Schutz, que retrata Emmett Till, e "Autoportrait", de Luke Willis Thompson, retrato da namorada de Philando Castile, morto por policiais. O furor levanta questões complicadas: quando a arte ofende, quem deve ser o juiz? Os artistas devem assumir maior responsabilidade em relação à percepção de suas obras depois que elas passam a ser exibidas em domínio público?
 
Quero compartilhar uma experiência pessoal aqui. Depois da revolução egípcia, montei um estúdio temporário em uma organização artística local, perto da Praça Tahrir, no Cairo. Fiz uma série de retratos de homens e mulheres idosos sofridos, que descreveram as tragédias por que tinham acabado de passar, inclusive com a morte de seus filhos. A minha intenção era registrar o custo humano por trás de revoluções eufóricas desse tipo, que geralmente afetam mais as comunidades carentes.
 
O trabalho, que ganhou o nome "Our House Is on Fire", foi exibido na galeria da Fundação Rauschenberg, em Nova York, ONG que originalmente encomendara o projeto. Em seguida, um crítico publicou artigo me acusando de retratar a dor dos egípcios para vendê-la a galerias comerciais em Chelsea com o objetivo de gerar pena e, em última instância, dar lucro - obviamente alheio ao fato de que toda a renda da venda on-line foi para instituições de caridade egípcias de minha escolha.

 

Mona, da série 'Our House is on Fire', de Shirin Neshat - Shirin Neshat - Shirin Neshat
Mona, da série 'Our House is on Fire', de Shirin Neshat
Imagem: Shirin Neshat

Depois de ler a matéria, fiquei pasma, chegando até a questionar se a interpretação e as acusações do crítico estavam corretas. Será que podia ser acusada de manipular as emoções das pessoas para fazer arte? Ou era ele que tinha deturpado completamente a verdade e distorcido a narrativa para que ela coubesse em seu mundo antiarte e em sua narrativa política?
 
Por outro lado, sempre que há perda de vidas, conflitos ou tragédias, a arte está presente. Existem também sistemas de valores completamente diferentes que julgam seu valor e congruência, que geralmente tem como intenção mais pura fazer algum sentido a partir da confusão, gerar essência a partir do caos.
 
Vejamos, por exemplo, o dissidente chinês mundialmente famoso Ai Weiwei, cujo filme "Human Flow", documenta a devastadora crise de refugiados que assola o planeta. Embora a princípio seja altamente recomendável que um artista bem estabelecido e prestigiado se coloque no centro de tais catástrofes humanas e políticas, não consegui evitar o questionamento de suas intenções e a natureza e o impacto de seu trabalho. Será que Ai estava explorando tragédias humanas para chamar a atenção para si mesmo e lucrar com isso? Ou sua obra estava ajudando a ampliar a conscientização sobre a crise? Quem é seu público? Como a arte pode fazer qualquer diferença em um mundo bombardeado por notícias e imagens dessa miséria sem fim?
 
Porém, ao analisar minuciosamente a intenção de outro artista engajado em um projeto humanitário, percebi que não era diferente do crítico que questionara minha integridade. E que há um paradoxo para os artistas em exílio, já que sua reação emocional aos horrores que se desenrolam é geralmente reflexo de suas próprias experiências pessoais, mesmo que indo contra a manutenção de uma carreira artística que os colocou em uma posição de privilégio.
 
Talvez o problema esteja no nosso sistema hegemônico, no qual o consumismo de livre mercado ocidental e sua máquina de produção cultural ocorrem livremente na prática da arte - e o que for diferente ou contrário a essa estrutura ou é marginalizado, ou incorporado de modo a parecer aberto e inclusivo. É, portanto, através do filtro dessa lente que o trabalho de artistas como Ai (caracterizado como o exilado corajoso que fugiu da tirania de sua pátria) e eu mesma (a artista iraniana muçulmana exilada e oprimida) pode ser legitimado e visto.
 
O mundo da arte parece ter adotado e seguido as pegadas ideológicas da macroeconomia mundial das últimas três décadas, cada vez mais participante na orgia da criação de riqueza e distribuição restritíssima. Entretanto, agora com a ascensão do tribalismo e do nacionalismo, e o fascismo mostrando sua cara feia, será que o segmento ocidental, lerdo e autoindulgente, consegue sair dessa letargia?
 
A arte humanitária e politicamente consciente hoje é tão necessária como o ar que respiramos, se quisermos sobreviver esses tempos difíceis e não nos condenarmos a repetir nossos ciclos infinitos de terror e tragédias humanas, ainda que as forças hegemônicas do mundo da arte influenciem cada gesto nosso. No fim das contas, quem tem que determinar o futuro dessa tênue linha vermelha e a facilidade com que ela pode ser ultrapassada é o próprio artista, e não os críticos nem o mercado.

*Shirin Neshat é artista plástica e cineasta iraniana naturalizada norte-americana.

Este texto faz parte da série Fator de Mudança, que inclui artigos de opinião, fotos e desenhos sobre eventos e tendências de 2018 que repercutirão não só em 2019, mas nos anos seguintes

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