O iminente desastre ambiental que ameaça Hong Kong

David Robson

Da BBC Future

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Com apenas três de seus 13 aterros sanitários ainda abertos, Hong Kong vive uma crise do lixo

    Com apenas três de seus 13 aterros sanitários ainda abertos, Hong Kong vive uma crise do lixo

Ao entrar no campus da Universidade Chinesa de Hong Kong é difícil imaginar que a região esteja enfrentando um desastre ambiental. Em uma manhã de primavera no arborizado campus, que fica no setor chamado Novos Territórios, é possível ver o mar reluzindo sob o olhar da cidade e das íngremes montanhas ao fundo. Não há uma única garrafa de plástico à vista.

Mas as aparências enganam. Hong Kong pode estar limpa na superfície, mas seus serviços públicos estão se esforçando para manter o lixo no lugar.

Apesar das tentativas de controlar o problema, a região produziu 3,7 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2015 - a maior quantidade em cinco anos.

Para lidar com tanto lixo, a cidade conta com 13 aterros sanitários, que agora estão sendo reutilizados como parques, campos de golfe e quadras esportivas. Apenas três ainda estão abertos. Em alguns anos antes eles também começarão a transbordar.

"Se Hong Kong continuar assim, alcançaremos o ponto de ruptura até 2020", diz Chan King Ming, quem a reportagem da BBC encontrou no campus da Universidade Chinesa. A estimativa citada por ele é apoiada pelo próprio Departamento de Proteção Ambiental de Hong Kong.

Chan é cientista ambiental e político do Partido Neo Democrata de Hong Kong, experiência que lhe deu uma visão profunda das dificuldades sociais, econômicas e tecnológicas de solucionar o problema da cidade.

"Estamos nos movendo em direção à urbanização insustentável", diz Chan. A situação pode servir de aviso para outros países, já que mais e mais pessoas sentem atração pela vida nas cidades. Isso significa que ambientalistas de todo mundo estarão assistindo atentamente os próximos passos da região.

Aumento da pressão

Com cerca de sete milhões de pessoas, amontoadas em uma área de 2 mil quilômetros quadrados, Hong Kong é atualmente o quarto lugar mais densamente povoado do globo (depois de Macau, Cingapura e Mônaco). Com espaço tão escasso, não há muitas áreas disponíveis para construir novos aterros sanitários.

O turismo apenas aumentou a pressão. À medida que as indústrias da região se mudaram para a China continental, Hong Kong se esforçou para atrair mais visitantes do continente e, assim, movimentar sua economia.

A culinária local e os shoppings centers estão entre as atrações principais, o que estimula os turistas a gerar resíduos adicionais de alimentos e embalagens.

"Precisamos deles para impulsionar nossa economia, mas também há inconvenientes", admite Chan.

Além dessas questões, está o status de Hong Kong como "economia livre" dentro da China, o que leva o governo a relutar para impor regulações que possam ameaçar o comércio.

"A região é tida como a economia mais livre do mundo, então os funcionários governamentais tentam fazer o máximo para não intervir nas linhas de produção ou nos comportamentos do consumidor", afirma o cientista ambiental.

Por isso, hoje há poucas normas sobre uso de embalagens ou qualquer outra medida que possa reduzir o desperdício.

Assim como muitos outros países, Hong Kong enviava parte de seu lixo à China continental para reciclagem. As empresas chinesas podiam aproveitar a sucata, o plástico e os metais presentes em produtos eletrônicos, mas o país também recebia resíduos inutilizáveis e contaminados (incluindo restos de comida e materiais médicos), o que criava problemas ambientais para suas cidades.

Como resultado, o governo chinês decidiu proibir a importação de resíduos não processados - um movimento conhecido como "Green Fence" (cerca verde, em tradução livre) - na esperança de que outras nações higienizassem seu lixo antes de vendê-lo.

No entanto, Hong Kong ainda não desenvolveu suas próprias plantas de reciclagem o suficiente para compensar a atitude da China. "Então, coisas que teriam sido enviadas para a China para serem processadas estão apenas sendo colocadas no aterro", diz Doug Woodring, ativista ambiental e cofundador da ONG Ocean Recovery Alliance.

Como se os próprios resíduos não fossem suficientemente graves, as praias de Hong Kong enfrentam uma crescente chegada de lixo pelo mar. Os ambientalistas não têm certeza de sua origem, mas a onda de resíduos parece ocorrer periodicamente com a mudança dos padrões climáticos.

"Temos coisas de Taiwan descendo e das Filipinas e do Vietnã subindo", diz Woodring. O material também pode estar saindo da China continental - possivelmente por meio de despejos ilegais ou inundações sazonais que levam o lixo para o mar. "Muitos dos objetos têm escrita chinesa, mas não sabemos onde entraram na água".

Medidas de controle

Apesar das constantes advertências, os resíduos municipais de Hong Kong continuaram a crescer nos últimos cinco anos - e o governo precisará agir rapidamente antes que todos os aterros do território transbordem.

Um grande passo será a introdução de uma "taxa de resíduos", o que forçará os moradores a pagar cerca de 0,11 dólares de Hong Kong (cerca de R$ 0,04, na cotação atual) por cada litro de lixo coletado. A nova legislação, anunciada no início deste ano, deverá entrar em vigor até 2019, e o jornal South China Morning Post estima que a taxa deve custar entre 33 e 54 dólares de Hong Kong (cerca de R$ 14 a R$ 23) por domicílio, por mês.

Os defensores da legislação citam as experiências de Taipei em Taiwan, e  de Seul, na Coreia do Sul, que conseguiram reduzir resíduos em mais de 30% aplicando ações similares.

O Departamento de Proteção Ambiental de Hong Kong também está avançando nos planos para ter um incinerador de US$ 10 bilhões em Lantau (a maior das ilhas do território, no sudoeste da região). Queimar o lixo pode encolhê-lo até cerca de um décimo de seu tamanho original. Mesmo assim, só é possível queimar uma parte do desperdício - cerca de 30% da produção total da cidade, de acordo com as estimativas de Chan.

A solução está longe de ser popular entre os habitantes, que estão preocupados com o aumento da poluição atmosférica que o incinerador pode trazer.
Chan, por sua vez, está mais entusiasmado com os planos para a construção de uma fábrica de processamento de alimentos em Lantau, que reciclaria resíduos das cozinhas comerciais localizadas ao redor do aeroporto. Ele ressalta que horticultores importam muito de seu adubo de países distantes, como a Holanda, enquanto o desperdício de alimentos seria uma fonte local e natural. Tais estruturas também poderiam produzir biogás para abastecer carros.

"Segundo uma estimativa grosseira, precisaríamos de 20 fábricas desse tamanho para lidar com nossos resíduos alimentares", diz Chan. "Mas acho que vale a pena fazermos isso, porque precisamos reciclar o máximo possível de material utilizável."

Além disso, o território pode se beneficiar de futuras fábricas de reciclagem de componentes eletrônicos, permitindo aos fabricantes extrair matérias-primas valiosas para exportação - um movimento que poderia impulsionar ainda mais a economia de Hong Kong.

Mas esses esquemas precisam de mais apoio governamental, incluindo um sistema eficiente que leve famílias e empresas a separar os diferentes tipos de resíduos - alimentos, plásticos, vidro - na fonte, antes de serem coletados. "No momento, isso está faltando", afirma o cientista.

O grande volume de resíduos torna difícil separar o aproveitável do descartável após a coleta. "O problema é que agora tudo é colocado em um saco só - comida, graxa e, em seguida, papel, depois plástico - e isso neutraliza o valor de todos os itens", diz Doug Woodring. "Mesmo se você só  isolar o lixo molhado do seco, já é mais fácil conseguir algum valor com isso."

Woodring gostaria que pessoas e empresas calculassem suas "pegadas plásticas" - semelhante à "pegada de carbono" para emissões de gases do efeito estufa -, para que estivessem mais conscientes da sua produção de lixo. "Porque se você não sabe o que produz, não sabe como gerenciá-lo."

Como mostram Chan e Woodring, medidas ecológicas não precisam desafiar os negócios de Hong Kong, mas podem oferecer novas formas de gerar receita. Woodring, por exemplo, cita o exemplo do Pacific Coffee (um dos muitos cafés em estilo norte-americano da cidade), que recentemente implementou seu próprio esquema de reciclagem, no qual o cliente pode retornar as tampas usadas em troca de um refil gratuito.

Segundo o ativista, a medida ajuda a empresa a acumular material reciclável ao mesmo tempo em que fideliza o consumidor. Até agora, essas estratégias são raras em Hong Kong, porém é um movimento na direção certa, diz ele.

A impaciência de Chan é clara ao longo da conversa com a reportagem: o problema tem sido evidente há pelo menos uma década, ele afirma, mas o progresso é lento, com discussões intermináveis em vez de uma política efetiva. "Desperdiçamos todo esse tempo", conclui. Com a inundação de lixo tornando-se iminente, a falta de ação parece não ser mais uma opção.

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