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Pico do Jaraguá (SP) registra mais raios ascendentes do que a média mundial

Elton Alisson, da Agência Fapesp

04/12/2012 12h07

Pesquisadores do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registraram nos primeiros dez meses deste ano a ocorrência de 35 raios ascendentes no Pico do Jaraguá, o ponto culminante da cidade de São Paulo que fica a 1.135 metros acima do nível do mar. Raio ascendente é o que parte da superfície em direção à nuvem, e não desce das tempestade e atinge o solo, como ocorre com a maioria das descargas atmosféricas.

Segundo o grupo, o número é superior à média de outros lugares no mundo onde foi observada a ocorrência desse tipo de raio. “Só no mês de outubro registramos no Pico do Jaraguá o mesmo número de raios ascendentes observados durante um ano no Empire State Building, em Nova York, que registra anualmente, em média, 22 raios ascendentes”, diz Marcelo Magalhães Fares Saba, pesquisador do Grupo de Eletricidade Atmosférica.

A equipe registrou em janeiro, pela primeira vez no Brasil, a ocorrência desse tipo de raio originado por estruturas altas, como torres de telecomunicação ou para-raios de edifícios altos que, por conta de suas altitudes, podem concentrar em seus topos grande quantidade de carga elétrica induzida e de sinal oposto à carga da base de uma nuvem de tempestade.

Por meio de um sistema de detecção, que tem uma câmera de alta velocidade capaz de registrar 4.000 quadros por segundo, os pesquisadores gravaram no início do ano a formação de quatro raios ascendentes partindo de uma torre de transmissão de 130 metros no Pico do Jaraguá – local onde ocorrem, praticamente, três vezes mais raios do que no restante da metrópole.

No início de março, voltaram a registrar a ocorrência de mais três raios ascendentes, originados do mesmo ponto da primeira observação, em apenas 7 minutos – considerado número muito alto em um curto espaço de tempo. Em julho, durante uma tempestade de inverno, registraram mais um raio ascendente, que partiu de uma das torres de telecomunicações instaladas no Pico do Jaraguá.

No dia 23 de outubro, durante uma tempestade em São Paulo, os pesquisadores registraram nove raios ascendentes em um intervalo de apenas 37 minutos no mesmo local. A sequência de descargas elétricas em um curto intervalo de tempo provocou um princípio de incêndio em um dos equipamentos instalados no local.

“Essa frequência de raios ascendentes em uma mesma estrutura é muito superior à observada em outros lugares no mundo. Em Rapid City, em Dakota do Sul, nos Estados Unidos, por exemplo, onde também foram instaladas câmeras de alta velocidade para registrar a ocorrência de raios ascendentes desencadeados por dez torres de telecomunicação instaladas no local, foram registradas cinco descargas atmosféricas desse gênero nos últimos dois anos”, afirma Saba.

De acordo com ele, ainda não se sabe por que o Pico do Jaraguá registra esse grande número de raios ascendentes e o que favorece a formação dessa descarga elétrica.

Mas o grupo do Inpe observou que, enquanto o impacto de um raio descendente é mais distribuído – metade das descargas toca diferentes pontos no solo –, o dos raios ascendentes acaba sendo sempre em único lugar, como uma torre de TV ou de celular, por exemplo. “Isso é algo extremamente preocupante para os sistemas de proteção convencionais, que foram projetados para raios descendentes”, conclui Saba.

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