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O urso negro, um perigoso e faminto vizinho dos subúrbios do Japão

Andrés Sánchez Braun

Em Tóquio

27/09/2014 06h16

As autoridades japonesas estão atentas ao grande aumento de aparições de ursos em áreas urbanas neste ano, inclusive em Tóquio, depois que neste mês um destes animais atacou agricultores perante a aparente falta de alimentos nas florestas.

O ataque aconteceu na cidade de Iwate no último dia 12 de setembro quando um urso-negro-asiático, que habita nas ilhas de Honshu e Shikoku, se lançou sobre dezena de pessoas que trabalhavam em uma horta de Hanamaki, provocando-lhes ferimentos de diversa gravidade.

Poucos dias antes, a prefeitura de Iwate tinha emitido um alerta, o primeira em oito anos, perante o aumento no número de ursos avistados em assentamentos urbanos.

Ainda se desconhece o número exato de espécimes que vivem atualmente no Japão, mas acredita-se que pode haver entre 10 mil e 20 mil distribuídos entre estas duas ilhas. Entre as diversas áreas onde se assentam se incluem os Montes de Okutama, a 30 quilômetros do centro de Tóquio.

E, embora todo ano sejam reportados entre 10 e 20 ataques de ursos-negros-asiáticos no Japão, normalmente só um ou dois chegam a ser mortais.

No entanto, quanto maior o número de incursões em áreas habitadas, maiores as possibilidades que aconteçam ataques, algo que as autoridades japonesas temem neste ano.

Em todo o arquipélago o número de aparições de ursos negros perto de áreas habitadas aumentou em 40% até os 2.080 casos apenas nos meses de abril e maio, segundo dados preliminares do Ministério do Meio Ambiente.

O aumento foi especialmente notável na região de Tohoku, que compreende seis cidades (entre elas Iwate) no nordeste da ilha de Honshu, a principal do Japão, e também na região de Okutama, em Tóquio.

Das pouco mais de duas mil aparições, 941 corresponderam a Tohoku (o que representa um aumento de 80%) e 21 a Tóquio, onde desde 2009 o número máximo de casos a cada ano tinha sido de quatro.

Analistas do Ministério do Meio Ambiente apontaram que o aumento de espécimes aventurando-se em áreas residenciais pode responder, por um lado, a um maior número de filhotes nascidos no ano passado perante o maior volume de frutos de haya japonesa (um alimento habitual) registrado em florestas do arquipélago.

Por outra parte, a escassez de folhas - das quais se alimenta o urso-negro na primavera e no verão - provocada pelas pragas de traça cigana asiática deste ano, pode ter obrigado estes plantígrados a se aproximar de zonas habitadas na busca por comida.

Estes especialistas inclusive advertem para a possibilidade que os encontros com ursos aumentem no inverno já que neste ano se prevê uma má colheita de bolotas, outra importante fonte de nutrientes para estes animais no outono.

"Todas as condições que fazem com que os ursos se aproximem aos habitats humanos estão ocorrendo neste ano", declarou nesta semana em uma entrevista ao jornal "Asahi" o diretor do departamento de Biologia e Fauna do Instituto de Pesquisa Florestal do Ministério do Meio Ambiente, Toru Oi.

Perante esta situação, as autoridades estão recomendando aos moradores de municípios próximos às zonas onde habitam os ursos que evitem deixar o lixo fora de casa durante muito tempo, especialmente se contém restos de comida.

Às pessoas que gostam de caminhar nas montanhas se está pedindo que tenham especial precaução e que levem sempre campainhas para alertar aos ursos da presença humana e evitar assim suas agressivas reações de surpresa.

Com estes conselhos, as autoridades esperam minimizar os potenciais ataques e evitar os números do nefasto ano de 2006.

Naquele ano houve mais de 150 ataques (três deles mortais) e 5.185 ursos, um número recorde, foram "capturados" (a maioria abatidos com escopeta), o que não ajuda uma espécie classificada como "vulnerável" pela União Internacional para a Conservação da Natureza devido ao impacto da atividade humana em seus habitats.

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