Cientistas criam site com previsões para os níveis do sistema Cantareira

Camila Neumam

Do UOL, em São Paulo

  • Paulo Whitaker/Reuters

    Leito da represa Jaguari aparece ressecado em Joanópolis, interior de São Paulo

    Leito da represa Jaguari aparece ressecado em Joanópolis, interior de São Paulo

Um modelo matemático criado por pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e da USP (Universidade de São Paulo) faz previsões semanais e mensais do volume de água armazenado no sistema Cantareira. As previsões podem ser vistas no site Águas futuras.

O modelo leva em conta a pluviosidade, a quantidade de água que entra nos reservatórios e a quantidade que é retirada deles. Sua margem de erro é semelhante ao modelo utilizado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do governo federal, considerada bastante pequena.

Criado pelos pesquisadores Renato Mendes Coutinho e Roberto André Kraenkel, do Instituto de Física Teórica da Unesp, e Paulo Inácio Prado, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP, o modelo usa a previsão do tempo para calcular quanto vai chover e, assim, fazer as previsões semanais. E faz a projeção mensal com base em dados de anos anteriores para calcular estatisticamente a possibilidade das chuvas que devem cair ao longo do mês.

"A previsão é feita para cinco dias porque é o prazo de confiabilidade da previsão meteorológica. Com os dados do passado, vemos a média de chuva do período e calculamos a partir dela. Fazemos três projeções, uma a partir da média do período; uma otimista, como se chovesse 25% acima da média, e outra pessimista, abaixo da média", afirma o físico Roberto Kraenkel, da Unesp.

Kraenkel explica que o trabalho tem mostrado que quanto mais baixo o nível do reservatório, mais difícil será para ele voltar a ficar cheio, o que faz o Cantareira "operar em níveis inseguros".

"Quando se tem um reservatório com nível muito baixo, há pouca eficiência na conversão de chuva para água porque nem toda a chuva que cai vai virar água no reservatório, pode ser absorvida pela terra. É criado um círculo vicioso, porque com pouca água fica mais difícil de encher", diz.

Níveis inseguros

Diante dessa situação, Kraenkel vislumbra pouca variação no nível do Cantareira nos próximos meses, com chance de se manter no volume morto até o fim do ano. Com isso, volta-se a dependência cada vez maior do período de chuvas do ano que vem, entre janeiro e fevereiro.

"Atualmente o sistema opera em níveis inseguros, como se andasse em uma corda bamba. A Sabesp está tentando chegar até o outro período chuvoso com o máximo de água possível, mas, se o período chuvoso atrasar ou se cair pouca chuva, vamos ter uma situação muito mais grave. Temos uma situação de insegurança nos próximos tempos", afirma Kraenkel.

Para o pesquisador da Unesp, faltou clareza entre os gestores sobre o perigo de deixar o Cantareira esvaziar.

"Em vez de olhar que não vai entrar água, se supôs sobre a chuva que ia cair. A chuva é muito mais regular do que as entradas de água. Vendo dessa forma, teria sido possível imaginar teoricamente o que viria a acontecer. Parece-me que a Sabesp, o governo do Estado de São Paulo e a ANA (Agência Nacional das Águas) não tinham claramente a ideia do perigo que estavam correndo quando deixaram o reservatório esvaziar", afirma.

Kraenkel disse ter procurado a Sabesp, o governo do Estado e os comitês das bacias hidrográficas do Alto Tietê (CBH-AT) e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (Comitês PCJ) para mostrar seu projeto, mas não obteve resposta de nenhum dos órgãos.

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