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Valdelice Veron, porta-voz dos guarani-kaiowá, acusa Brasil de "ecocídio"

François Guillot/AFP
Valdelice Veron, porta-voz dos guarani-kaiowá, durante discurso em Paris Imagem: François Guillot/AFP

2015-07-24T06:00:00

24/07/2015 06h00

Expulsos de suas terras por produtores de etanol, 300 guaranis morreram em dez anos

Ela tem o sorriso triste daqueles que fizeram de sua vida uma luta. Por baixo de seu cocar indígena que ela carrega com orgulho, a índia tem um olhar no qual se misturam raiva, revolta e frustração.

Valdelice Veron, uma das porta-vozes do povo indígena guarani-kaiowá, foi convidada para falar durante a "cúpula das consciências sobre o clima', que foi realizada em Paris na terça-feira (21). A guerreira de 37 anos aceitou deixar o Brasil pela primeira vez em sua vida para relatar os sofrimentos de seu povo, levada pela "esperança de que alguém ouça o grito de meu povo e decida agir."

Mas antes de subir na tribuna do Conselho Econômico, Social e Ambiental (CESE, na sigla em francês), ela precisou deixar o Estado do Mato Grosso do Sul, na Amazônia, e romper as barreiras dos “bandidos armados”, encarregados de expulsar os indígenas de suas terras a mando de grandes latifundiários que exploram a floresta. Ela conta que os piores meios foram usados para forçar os indígenas a deixarem suas terras, entre assassinatos, estupros e sequestros de crianças. Quase 300 guarani-kaiowá foram mortos em dez anos.

Afastados de suas terras, os guarani, que vivem, se alimentam e se medicam com aquilo que a terra lhes dá, estão condenados à miséria. Alguns deles foram confinados em reservas, obrigados a trabalhar em plantações de cana de açúcar por um salário miserável ou às vezes uma simples ração.

Além disso, o grupo francês Louis Dreyfus Commodities, segundo maior produtor de etanol do Brasil, e que emprega mais de 20 mil pessoas no país, teve de responder sobre as condições de trabalho precárias de sua mão de obra em 2009. Valdelice Veron e seu povo se recusaram a serem colocados nas reservas. “Agora não sairemos mais de nossa terra, quaisquer que sejam os ataques que vamos sofrer”, ela afirma.

“Nós demarcaremos nosso território com nosso próprio sangue se for preciso.” Há cerca de dez anos centenas deles vêm reocupando as terras dos pecuaristas e de produtores agrícolas para exigir que lhe devolvam suas terras ancestrais. O pai de Valdelice Veron, Marcos, chefe dos chefes, o grande cacique dos guarani-kaiowá, foi assassinado em 2003, tendo sido torturado até a morte por retaliação.

Desmatamento

No coração da guerra entre os 45 mil guarani-kaiowá e os grandes latifundiários que exigem terras para estender sua atividade, está o bioetanol do qual o Brasil é o maior produtor mundial. Esse biocombustível é fabricado principalmente a partir da cana de açúcar, cujo cultivo é uma das maiores causas de desmatamento no país. "Nossos territórios estão sendo destruídos por homens gananciosos", acusou Valdelice Veron na tribuna do CESE, o que ela classificou como um "crime ecocídio."

Os guarani-kaiowá pedem para que o governo de Dilma Rousseff aplique a lei. A Constituição do Brasil estipula desde 1988 que os povos indígenas têm “direitos culturais e territoriais” baseados em sua herança ancestral. O texto ordena a demarcação dos territórios indígenas em um período de cinco anos, mas os guarani-kaiowá continuam esperando por essa delimitação.

Contudo, eles passaram com sucesso pelas duas primeiras etapas do processo de homologação para 22 dos 39 territórios reivindicados. Um conselho de antropólogos certificou que se tratava de terras indígenas, e depois um tribunal federal confirmou a validade desses relatórios. Mas falta uma última etapa para que os decretos sejam efetivos: a assinatura de Dilma Rousseff.

“Ela pode, com sua caneta, acabar com os sofrimentos de todo um povo; só estou pedindo uma coisa: que ela assine”, suplica Valdelice Veron. “O governo, as autoridades locais, os latifundiários, estão todos ligados ao comércio de bioetanol. É muito o que está em jogo economicamente. A cana de açúcar vale mais que a vida de uma criança.”

“Os grandes proprietários, os ruralistas, têm uma influência considerável no Brasil”, lembra Arkan Simaan, membro da ONG Planète Amazone. “Não podemos esquecer que a nova ministra da Agricultura é uma representante do agronegócio”. Katia Abreu foi nomeada em dezembro após a reeleição de Dilma Rousseff à presidência do país. Antes ela havia sido presidente do CNA, o maior sindicato de proprietários rurais do Brasil.

Valdelice Veron já sabe quais são as promessas do governo brasileiro há muito tempo, desde o dia em que seu pai a levou para conhecer Lula, eleito presidente do Brasil, e que lhes havia prometido durante sua campanha que a porta de seu gabinete sempre estaria aberta para eles. Marcos Veron e sua filha acreditaram nele. Mas a porta do presidente nunca se abriu.

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