Frutas que comemos hoje são maiores, mais suculentas e menos variadas

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

Você gosta daquela melancia grande da feira? A que é verdinha por fora, toda vermelha por dentro e bem suculenta? Agradeça aos agricultores por ela existir. E não só aos que plantaram a última que você comeu, mas aos que vêm plantando e melhorando as melancias nos últimos séculos ou milênios. Graças a eles, a melancia de hoje – assim como o milho, o feijão, a pera – são bem diferentes dos que encontraríamos no passado.

Pistas da mudança pela qual a melancia passou ao longo dos anos estão em quadros antigos, em que ela é retrata bem menos vermelha do que a que vemos e comemos hoje. "O homem faz melhoramento sem saber desde quando desenvolveu a agricultura e começou a selecionar o que interessava. 'A mais gostosa é a que vou levar para frente, vou plantar de novo'. Essa é a lógica", explica Rodrigo Gazaffi, professor do Departamento de Biotecnologia e Produção Vegetal e Animal da UFSCar.

Uma melancia que enche nossa boca de água em uma mordida é fruto de melhoramento genético. Mas não se trata apenas de ciência avançada, tampouco há necessidade de alta tecnologia – embora exista ciência e tecnologia modernas voltadas para a melhoria de plantas. Observar os melhores frutos do cultivo agrícola, cruzar tipos diferentes e manter aqueles com as características mais interessantes é trabalho que sempre foi feito por quem está na lida com a terra, em todas as regiões do mundo.

"Agricultores são selecionadores natos. Escolhem o tipo mais adequado de uma planta para seu ambiente, para o solo e a condição climática", diz Irajá Ferreira Antunes, agrônomo e técnico da Embrapa Clima Temperado. Mas não agrada a ninguém ter apenas um tipo de um determinado alimento. O feijão, por exemplo. É interessante ter o preto para fazer uma feijoada, um branco para preparar uma sopa e um carioquinha para fazer feijão tropeiro, por exemplo.

Por isso, ao longo da história, o agricultor não se limitou a escolher apenas a variedade que julgou mais interessante, deixando de cultivar outras. "Diferentes feijões, milhos, batatas... toda a riqueza que a gente tem é muito grande em termos genético. Toda essa variedade também vem do trabalho que agricultores fazem ao longo do tempo. É a interação do agricultor, que possui diversas necessidades culturais, com a espécie e o ambiente que resulta na variabilidade", completa Antunes.

Ele conta que um banco de sementes de feijão na Colômbia abriga mais de 40 mil materiais. Na Noruega, o Centro Internacional de Agricultura Tradicional guarda 4,5 milhões de cópias de segurança de cultivos agrícolas de todo mundo. Nossa feira fica sem graça perto de tanta opção.

As sementes utilizadas na agricultura tradicional, que guarda imensa variedade, são chamadas de sementes crioulas. Pequenos produtores é que conservam o seu uso. Já as industrializadas são produzidas por empresas em grande quantidade e com o uso de tecnologia avançada. Tanto as sementes crioulas quanto as industrializadas são melhoradas de forma convencional – por meio do cruzamento e seleção das melhores características. Os transgênicos, forma menos usada de melhoria na indústria, são produtos da manipulação do material genético das plantas, na qual são introduzidos genes estranhos, como os de uma bactéria resistente a uma praga, por exemplo.

Paulo Luiz Lanzetta Aguiar/Embrapa
Variedade de sementes de feijão. Banco de sementes na Colômbia possui mais de 40 mil materiais diferentes

Maiores, melhores, mas todos iguais

Voltando à melancia. Por que na feira só encontramos aquela grande, bem vermelha e suculenta por dentro, com raras variedades? Segundo os pesquisadores, esse é o lado ruim da história recente da alimentação, quando sementes melhoradas passaram a ser produzidas industrialmente.

O melhoramento das plantas cultivadas, feito desde o surgimento da agricultura, há cerca de 10 mil anos, foi potencializado no século 20, com o avanço da ciência e da tecnologia. Tipos com características melhores para a produção em larga escala foram obtidos a partir de cruzamentos induzidos e passaram a ser comercializados. A descoberta do chamado 'milho híbrido' -- fruto do cruzamento entre materiais que se comportam potencialmente como bons pais -- foi um marco deste avanço.

A adoção das novas sementes melhoradas pela indústria permitiu aumentar a produção de alimentos e garantiu que o mundo tivesse comida suficiente para uma população crescente -- que não passaria fome caso não existissem problemas graves de distribuição. Contudo, esse processo de melhoria industrial teve como contrapartida a homogeneização dos materiais cultivados.

"Se antes se cultivava 100 sementes distintas de trigo, em um exemplo hipotético, com a melhoria feita pela Revolução Verde [período em foi disseminado o uso das novas sementes inventadas para o aumento da produção] passam a ser utilizadas apenas 15", diz Gazaffi. As mudanças econômicas que chegaram ao campo, com a introdução da lógica da produção em larga escala de alimentos, teve impacto no trabalho dos agricultores.

"A semente industrializada é a mesma para diferentes ambientes e regiões. Perde-se a variedade e o elemento cultural associado às diferentes sementes", diz Antunes. Além da perda cultural, a redução da variedade de sementes e plantas expõe a sociedade a riscos. "A grande fome, que matou milhares de pessoas na Irlanda deveu-se ao fato de, na época, cultivarem poucas variedades de batatas, que não eram resistentes a uma doença que surgiu", completa Gazaffi.

Para os especialistas, preservar a variedade de sementes crioulas e garantir que espécies não sejam extintas é tão fundamental quanto os ganhos em melhorias de características. O problema atual é que esses guardiões são populações que estão envelhecendo e seus filhos estão deixando a agricultura, atraídos para outras profissões, ou estão sucumbindo à lógica da produção industrial no campo. 

Paulo Luiz Lanzetta Aguiar/Embrapa
Variedades de milho, fruto da seleção e conservação das sementes tradicionais, chamadas de crioulas

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